Rita Benneditto se apresenta como ‘tbt ambulante’ em noite de encantação no Rio de Janeiro


Artista costura músicas de todas as fases da carreira no primeiro show presencial desde a pandemia. Resenha de show
Título: Rita Benneditto
Artista: Rita Benneditto
Local: J Club (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 26 de agosto de 2020
Cotação: * * * *
♪ Era noite de quinta-feira, 26 de agosto de 2021, quando Rita Benneditto subiu ao palco do J Club para fazer o primeiro show presencial desde que a pandemia chegou ao Brasil em março de 2020.
Por ser quinta-feira, a cantora maranhense se referiu à hashtag popular nas redes sociais e disse aos vinte e poucos espectadores – número máximo permitido na casa para que o público seja acomodado com o devido distanciamento entre as mesas – que se sentia um “tbt ambulante”.
A evocação do passado, explicou a artista, estava tanto nas lembranças do repertório do show quanto no cabelo que reproduzia o penteado de ideologia africana com que a cantora foi retratada nas fotos das capas dos dois primeiro álbuns, Rita Ribeiro (1997) e Pérolas aos povos (1999), de discografia iniciada com as bênçãos do conterrâneo Zeca Baleiro.
Nessa volta aos palcos e ao passado, a artista costurou músicas de todas as fases da carreira em roteiro que enfatizou o repertório afro-brasileiro de Tecnomacumba, show de 2003 que ainda gera frutos na trajetória da artista após 18 anos.
Em show feito dentro da série Bossa nova in concert do J Club, charmoso espaço de shows situado dentro da Casa Julieta de Serpa que vem ganhando visibilidade na cena carioca, Rita Benneditto se apresentou na companhia do guitarrista e violonista Fred Ferreira, instrumentista hábil na criação de climas distintos.
A limpidez da voz da cantora saltou aos ouvidos logo na abertura do show, feita com medley que amalgamou Milagre (Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão, 2014) e Alguém cantando (Caetano Veloso, 1977), número herdado do show Som e fúria (2017), dividido por Rita com a cantora Jussara Silveira.
Além de cantar, Rita percutiu em cena o tambor que embasou músicas que louvam santos e orixás. A saudação de Santa Clara clareou (Jorge Ben Jor, 1981) – à qual se seguiu Iansã (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1972) – ganhou o toque percussivo da guitarra de Fred Ferreira. Santa Clara Clareou reiterou a fervorosa devoção da cantora ao repertório de São Jorge Ben Jor, de quem Rita também rebobinou Domingo 23 (1972) com citação de Jorge da Capadócia (1975).
Sucesso de Clara Nunes (1942 – 1983), cantora de contribuição fundamental para a propagação nos anos 1970 de repertório afro-brasileiro, Banho de manjericão (João Nogueira e Paulo César Pinheiro, 1979) lavou a alma dos seguidores de Clara, ecoando o show Encanto (2015), apresentado por Rita há seis anos com base no álbum também intitulado Encanto e lançado em 2014.
Do universo afro-brasileiro, Rita também reviveu É d’Oxum (Gerônimo e Vevé Calasans, 1985) com citação de Emoriô (João Donato e Gilberto Gil, 1975). Já a lembrança de Clara Nunes se estendeu com o canto de A deusa dos orixás (Romildo Bastos e Toninho Nascimento, 1975), número de forte empatia.
Rita Ribeiro canta sucessos de Clara Nunes em show na casa J Club, no Rio de Janeiro
Mauro Ferreira / G1
Como louvar o repertório afro-brasileiro é ato político no Brasil de 2021, Rita Benneditto também militou no palco do J Club, seja discursando, seja improvisando versos no canto do tradicional ponto de umbanda Casca de coco no terreiro. “Vovó não quer um genocida no Governo / Que é para não lembrar o tempo do cativeiro”, avisou. “Todo palco, um palanque / Todo artista, um militante”, marcou posição em fala que sucedeu o número.
Em “noite de encantação”, como a cantora se referiu à apresentação, Rita driblou problemas de som no violão de Fred Ferreira (logo corrigidos) ao cantar Há mulheres (Vânia Borges, 1999) e de fato encantou ao lembrar O conforto dos teus braços (João Linhares, 2001) com pegada aliciante e ao cair no samba Eu e você sempre (Jorge Aragão e Flávio Cardoso, 2000) com bossa que, por breve instante, justificou a escalação da cantora para a série intimista de shows do J Club.
Ao longo de duas horas de show, Rita Benneditto tocou tambor para saudar a origem maranhense – reverenciada em De mina (Josias Sobrinho, 2014) – e se elevou em cena no tbt de Jurema (tema tradicional adaptado por Rita Benneditto para o primeiro álbum, de 1997) com inserção de Deixa a gira girar (Mateus Aleluia, Dadinho e Heraldo Bozas, 1973).
O santo baixou em Sete Marias (Rita Benneditto, 2014) já no fim do show. Mas Rita Benneditto cantou mesmo para subir no bis, dado com ponto de Oxalá e com o revival de Cavaleiro de Aruanda (Tony Osanah, 1972), sucesso de Ronnie Von repaginado pela artista no show Tecnomacumba (2003) e desde então lembrado por intérpretes como Margareth Menezes e Ney Matogrosso.
Como tbt ambulante, Rita Benneditto se confirmou grande cantora do Brasil no palco do J Club em noite de encantação.