“Rios voadores” da Amazônia espalham chuvas na América do Sul

Fenômeno impede que áreas sejam vistas do espaço

Fenômeno impede que áreas sejam vistas do espaço
Jonne Roriz/Agência Estado/29-08-07

Não são só o Amazonas, Solimões, Tapajós, Purus, Negro ou Javari, entre tantos, os rios que correm pela Amazônia. Pouco acima do topo das imensas árvores da floresta, correm “rios voadores”, a impedirem até que equipamentos no espaço visualizem partes da região, segundo informou o documentário One Strange Rock, da Netflix.

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As produções agrícola e industrial, além dos serviços, estão intimamente associadas a esse fenômeno, que dita o ritmo das chuvas em toda a área, em função da umidade acumulada na relação entre rios na terra e árvores.

A massa de água no céu se estende por milhares de quilômetros e decorre da evapotransição (transferência de água de uma comunidade ou ecossistema para a atmosfera) e dos aerossóis (partículas mínimas de um fluido ou sólido flutuando na atmosfera em estado gasoso, como a neblina).

Artigo de Carlos Bocuhy, presidente do Proam (Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental), para o portal Página 22, mostra que a situação se difere da que provoca a existência de desertos em outros locais do mundo. 

Em regiões de desertificação, ocorre o fenômeno denominado “Célula de Hadley”, na qual correntes de ar quente vindas do Equador, em direção ao Norte, são impulsionadas pela umidade e chegam até o Paralelo 30 (N), que atravessa países como a Arábia Saudita, Israel, Irã, Estados Unidos, de onde não passam, voltando como ar seco para o solo.

Já na América do Sul amazônica, o Paralelo 30 (S), que passa em países como África do Sul, Austrália, Brasil, Argentina e Chile, não é o limite da circulação da massa, que se mistura com a umidade e percorre toda a região, do Brasil, Bolívia até os Andes.

“Se pudesse olhar dentro das árvores, você veria água sendo sugada do solo da floresta. Quando a água chega ao topo, a combinação de sol e vento se transforma em um poderoso rio. Um rio voador. Esse rio de nuvens atravessa a América do Sul. Até que ele se choca com um grande muro. Os Andes”, diz um trecho o documentário.

Depois, vem a condensação.

“As nuvens se condensam em gotas de chuva, que descem pelas encostas e correm de volta para a bacia do Amazonas, causando erosão nas rochas e transformando-as em sedimento. Todos esses nutrientes são lançados no oceano, em um mundo diferente”, complementa.

O sedimentos alimentam as diatomáceas, organismos marítimos, que se fortalecem, se reproduzem e, durante esse processo, fazem fotossíntese, produzindo oxigênio para o planeta.

Quando morrem, se transformam em sedimentos no fundo do mar, colaborando, em mihões de anos, para diminuir o nível do mar e se acumulando em um deserto de sal.

Em um processo no qual, como sugere a música “Sobradinho”, conhecida na voz de Sá e Guarabira, parece que “o sertão vai virar mar, dá no coração; o medo que algum dia o mar também vire sertão.”

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