Review: Days Gone

Ruas desertas, casas destruídas, escassez de alimentos e suprimentos — principalmente, a gasolina para abastecer nossa motocicleta. Os dias, à medida que passam, são chuvosos ou completamente tomados pelo cinza no céu. A qualquer momento e em qualquer canto, criaturas famintas, que um dia foram seres humanos (como nós) correm para te devorar, estejam elas sozinhas ou em bandos.

Paralelo a isso, um culto de fanáticos irá te torturar até a morte caso seus caminhos se cruzem pelas estradas. Tudo ao redor é extremamente hostil, e nosso melhor amigo é um veículo de duas rodas. Esse é o clima de Days Gone, novo game exclusivo de PlayStation 4 desenvolvido pela SIE Bend Studio e que finalmente chega ao console da Sony. Anunciado na E3 de 2016, Days Gone foi adiado três vezes. Inicialmente, seria lançado em 2018, mas foi adiado para 22 de fevereiro de 2019 e, por último, para abril de 2019. Demorou, é verdade, mas, às vezes, a espera vale a pena.

A história e o protagonista

Não há preocupação alguma em explicar como o mundo chegou ao mais completo caos e o game logo introduz o protagonista Deacon St. John e dois coadjuvantes fundamentais da história: Boozer e Sarah. De cara, sacrifícios e perdas assolam Deacon, que prontamente se mostra alguém que coloca a vida de quem ama antes da própria. Sem saber se algum dia tornaria a ver sua amada novamente, ele se despede e decide ficar. “O que você fez?”, questiona Boozer, antes do título do jogo tomar a tela.

Dois anos passados da misteriosa infestação, acompanhamos o amargurado e sempre pistola Deacon. Interpretado por Sam Witwer (sim, o Starkiller de The Force Unleashed), o anti-herói motociclista é encrenqueiro, nunca recusa uma briga e é um típico garanhão. Marrento, mas de bom coração: quanto mais os dias se passam, mais você cria vínculos com o personagem e sente gosto por acompanhá-lo nesta jornada.

Se pensarmos em todo o risco que corremos quando expostos nas ruas, tomadas por Frenéticos e humanos que não hesitam em nos fazer mal, Days Gone traz a essência de vivermos em um ambiente hostil que pode nos atingir por qualquer lado. É inevitável comparar: fãs de The Walking Dead, um dos principais produtos culturais de zumbi, irão se deliciar neste que é o game de mundo aberto pelo qual sempre sonharam para a franquia. Apesar da similaridade inquestionável — inclusive na personalidade de Deacon com Daryl Dixon — não tenha dúvidas de que Days Gone anda com as próprias pernas… ou rodas.

Zumbis não… Frenéticos!

Tratando-se de dois temas saturados nas mais diversas mídias da cultura pop, o atraente mundo pós-apocalíptico e os mortos-vivos são dois pontos centrais de Days Gone — ainda que, em nenhum momento, a palavra “zumbi” seja dita. Aqui, os infectados são referidos como Frenéticos — em inglês, Freakers. Dentre os contaminados, ainda temos as Lagartixas (que nada mais são do que crianças infectadas) e Quebradores — estes, uma espécie de Frenético que ingeriu Whey Protein por alguns meses — Birl! Vem monstro, mas vem tranquilo.

Sem dúvidas, o grande atrativo são as Hordas. Uma “Horda-Bebê” conta com 300 frenéticos e, em nossa jornada, podemos nos deparar com até 500 deles, correndo ao mesmo tempo para fazer de você um delicioso jantar. O melhor de tudo é que os encontros não acontecem a cada esquina — portanto, eliminar hordas não é nada enjoativo.

Algumas das hordas fazem parte de missões, mas também nos deparamos com elas em alguns dos nossos passeios de moto à luz do luar — e que lua bonita! Vale ressaltar que o frio fortalece os monstrengos, enquanto o calor os enfraquece. A noite, portanto, é mais convidativa para que centenas de Freakers andem juntinhas para te proporcionar uma morte quase certa.

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Não dá para dar uma de Rambo perante a essas “ninhadas”. Estratégias devem ser planejadas e tentativas (no plural mesmo) antes de alcançar a glória da vitória serão recorrentes. Ao nosso dispor, temos coquetéis molotov, bombas caseiras e explosivos prontos para que disparemos e causemos explosões que encheriam Michael Bay de orgulho.

A variedade de armas, tanto de fogo quanto brancas, não é muito grande, mas dá para se virar bem com uma pistola e um riffle. Afinal, o mundo já era, não dá pra exigir muito, concorda? A munição, aliás, é limitadíssima, e cada bala vale ouro — faça bom uso delas e cuide do preparo físico, pois muitas vezes correr será a melhor das soluções. Prepare-se para ficar com o dedão colorido de tanto pressionar o R3…

Cuide da sua motoca

Deacon não precisa pagar pela gasolina (e o brasileiro bem sabe como ela está cara), mas manter o tanque cheio é tão desafiador quanto. Viagens de dois quilômetros costumam beber todo o combustível, e fazer umas pausas nas viagens é quase que obrigatório para encontrar galões de gasosa espalhados pelo mapa. É um alívio ver que a gasolina está 100% abastecida, mas igualmente desesperador ler o aviso de que “a motocicleta precisa de combustível”. Movimento é vida, ainda mais quando estamos cercados de frenéticos.

Mesmo sem falas ou vida, a motocicleta é um dos protagonistas de Days Gone e dirigi-la não é nada complicado e cansativo. Passamos grande parte do tempo montados nela, o único veículo disponível para que usemos, indo de norte à sul, passando por túneis escuros e amontoados de barricadas.

A mesma motocicleta do início me acompanhou até o fim, e cuidei dela como um filho. Nunca a deixei sem gasolina, coletei sucata para poder consertá-la quando preciso, a pintei na cor vinho, coloquei um adesivo de gavião, e aprimorei o motor e o escapamento. Em nenhum momento me cansei dessa vida badass de dirigir no apocalipse.

Alguns bugs e problemas

Falando na moto… aí reside um dos problemas de Days Gone. Em diversos momentos “pilotando minha nave”, percebi quedas grotescas de frame — testei em um PlayStation 4 padrão e em um PlayStation 4 Pro. No Pro, o contratempo é menor, mas não deixa de marcar presença na lista de chamada.

Os bugs causaram outros transtornos. Às vezes, o áudio mandou um abraço e foi embora, deixando momentos no completo silêncio. O som ambiente chegou a cair repentinamente e, não fosse o mapinha — que alerta quando o perigo se aproxima –, não perceberia a presença de Frenéticos e seu tão característico som. Claro, tudo isso pode ser solucionado em uma atualização “Day One”, mas caso permaneça… será um problema. Outro fator que muito me irritou foi a duração excessiva de telas de carregamento para iniciar as jogatinas — isso, provavelmente continuará igual.

Jogabilidade simples, trama e missões secundárias

A jogabilidade de Days Gone é bastante intuitiva, sem a necessidade de mil botões para mil comandos. Inclusive, remete a de The Last of Us, outro exclusivo da Sony. Basta saber mirar, atirar, se esquivar e correr (muito). Dentre os aprimoramentos disponíveis, optei por dar aquele up nas habilidades de combate à curta distância — uma delas, intitulada “na sola da bota”. A localização e dublagem estão impecáveis, com direito a palavrões e tudo.

Uma vez que o game é single-player e descarta o multiplayer, a trama também é um fator crucial e um dos pontos fortes. Nos apegamos a Deacon, compreendemos sua solidão e a busca por uma razão de existência em meio a um mundo devastado. Em missões secundárias, revisitamos o passado dele com Sarah e descobrimos mais da parte humana e sensível do personagem principal. Até o final, porém, teremos mais perguntas do que respostas sobre o que realmente aconteceu com o mundo.

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Há uma infinidade de afazeres em Days Gone, espalhados em uma campanha principal de, pelo menos, 30 horas de duração — algo que facilmente chega nas 50 ou 60 horas. Os acampamentos oferecem missões secundárias que, se cumpridas, aumentam a confiança entre os sobreviventes e nos possibilitam adquirir melhores materiais de mercadores. Levar carnes, peles e orelhas de Frenéticos também melhora essa relação com a comunidade. Ainda, temos zonas recheadas de ninhos de Frenéticos, esperando apenas que as limpemos.

Apesar dos sobreviventes “amigos”, muitos não vão com a sua cara. Os Rippers, por exemplo, acreditam que ser infectado é uma bênção, e esse fanatismo os torna tão perigosos quanto os Frenéticos. Incontáveis vezes, caí em armadilhas de Rippers, milicianos ou saqueadores locais. Andando à todo vapor e sem radar algum para me multar pela velocidade acima da média, cordas ou franco-atiradores me abateram e, ainda no chão, atordoado, fui atacado. Animais selvagens, como lobos ou ursos, também me causaram dor de cabeça e me derrubaram da moto. Como se os Frenéticos não fossem o suficiente…

Visual estonteante e mapa do tamanho ideal

Dá gosto de olhar para o mundo de Days Gone. Há certo charme em andar por um cenário apocalíptico, onde a vida é uma memória distante dos habitantes e a morte é algo iminente — longe de mim querer que isso aconteça, pois não sobreviveria por muito tempo. Por sorte, controlo alguém que faz a barba na faca e está mais do que preparado para os perrengues dos Dias Passados.

O visual está deslumbrante, e confesso que, vez ou outra, me peguei parado contemplando a natureza selvagem ao meu redor.

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Por ser um jogo de mundo aberto, o mapa é grande, mas as distâncias não são exorbitantes. Dá para andar por todas as regiões sem se entediar. O tamanho, eu diria, é ideal — um campo maior exigiria uma gasolina que não está ao nosso alcance.

Quem deve jogar este game?

Entusiastas de um mundo aberto rico e cheio de tarefas para além da campanha principal ou até mesmo fãs do apocalipse: Days Gone é feito para vários tipos de jogadores. Gosta da temática zumbi e quer ver uma nova faceta para os mortos-vivos? Ou, então, é fã de games que contem uma boa história do começo ao fim? Quer andar em um mundo pós-apocalíptico ou e ter a verdadeira sensação de ser um sobrevivente? Temperos não faltam para que o exclusivo de PS4 seja um dos títulos obrigatórios de 2019.