RETROSPECTIVA 2020 – Lives mostram que, mesmo em casa, o show sempre continua


♪ RETROSPECTIVA 2020 – Sem saber, Zélia Duncan fez história na noite de 13 de março quando, ao saber que as portas do Teatro Rival estavam sendo fechadas ao público do Rio de Janeiro (RJ) por decreto expedido naquela noite, a cantora decidiu fazer o show sem plateia e transmitiu a apresentação pela internet.
Começou naquele instante a onda de lives, principal marco musical de 2020. Janelas que conectaram o universo pop e os artistas a um mundo acuado e entristecido pelo isolamento social, as lives mostraram que o show tem que continuar e que sempre continua, mesmo sendo feito de casa, com poucos recursos, como foi tendência em um primeiro momento.
Nesse ambiente mais caseiro, Teresa Cristina reinou por fazer lives diárias e temáticas, sempre à noite, muitas vezes entrando pelas madrugadas com muita música e muito conversa jogada dentro das nossas cabeças com o incrível manancial cultural da artista.
Convidados ilustres como Caetano Veloso, Chico Buarque e Marisa Monte apareceram por lá, mas, na live e na casa de Teresa, todo mundo é vip e todo mundo é bamba.
E por falar em Chico Buarque, o artista foi um dos poucos nomes que jamais fizeram live em atitude coerente com quem nunca se sentiu plenamente confortável no palco. Maria Bethânia tampouco descortinou o palco da casa para os seguidores. Assim como Marisa Monte.
Em que pesem essas três sentidas ausências, todo mundo – ou melhor, quase todo mundo – fez. Caetano Veloso estreou no formato com toda a pompa, em 7 de agosto, dia do 78º aniversário do cantor, com show feito de casa e transmitido com exclusividade pela plataforma Globoplay.
Naquele momento, as lives já começavam a se profissionalizar, tendência do segundo semestre. Aos poucos, as apresentações passaram a ser transmitidas diretamente dos palcos de casas de shows com o rigor técnico dos grandes espetáculos, caso da apresentação de Arnaldo Antunes com o pianista Vitor Araújo em 3 de outubro diretamente do palco do teatro do Sesc Pompeia (SP).
Vitor Araújo e Arnaldo Antunes em cena no show ‘O real resiste’, transmitido em outubro
Reprodução / Vídeo
Contudo, com ou sem cenário e luz, o espírito permaneceu o mesmo: apresentar um show sem plateia para um público virtual, situado potencialmente em todas as partes do mundo, em conexão universal. Nesse formato, os astros sertanejos mobilizaram milhões de espectadores, mas houve lives de artistas de todos os gêneros.
E todos, aos poucos, ficaram literal e figurativamente em casa com a realização de lives. Atração fixa das noites de domingo, Simone – por exemplo – se beneficiou desse aconchego virtual e teve a imagem suavizada. Já Gal Costa pareceu desconfortável com as surpresas preparadas pela direção equivocada da única live da cantora, feita em setembro.
Contudo, a música falou mais alto. E as lives passaram a ser, também, um meio de sobrevivência pela cobrança de ingressos solidários que ajudaram artistas menos abastados a enfrentar um ano em que o universo pop parou de gerar renda porque não havia shows.
O surgimento das vacinas deixa entrever luz em 2021, mas, ainda assim, as lives ainda tenderão a ser uma realidade no próximo ano – sobretudo no primeiro semestre – diante da ameaça de novas ondas de infecção pelo covid-19.
Seja do feito que for, nada apagará o papel histórico das lives em 2020 em onda iniciada por Zélia Duncan na noite de 13 de março.