Reclinar ou não reclinar a poltrona? Eis a questão

Reclinar ou não reclinar a poltrona no avião ou no ônibus é para muitas pessoas a linha divisória entre civilização e barbárie. Quem, afinal, nunca antipatizou um pouquinho que seja com a pessoa da frente ao perceber a poltrona avançando na sua direção?
Não existe nenhum regulamento a respeito, por isso a controvérsia. Ou até pior. Nos últimos anos, vários incidentes foram registrados em voos no exterior depois de tentativas de reclinar a poltrona. Em três casos nos Estados Unidos, a discussão foi tanta que os pilotos fizeram um pouso de emergência.
Casos violentos, felizmente, são raros, mas não quer dizer que não falta ressentimento, principalmente nas redes sociais. Mas é mesmo imoral reclinar a poltrona e obter um pouco de espaço à custa de outra pessoa?
Para as empresas, o espaço da poltrona pertence a quem viaja nela. Mas esse espaço vem encolhendo. Em 1985, a Consumers Union, organização que defende consumidores americanos, mediu a distância entre as poltronas entre 83 e 91 cm nas principais companhias do país. Hoje vai de 73 e 83 cm.
A poltrona costuma reclinar entre 5 e 10 cm. Obter um espaço a mais nessas condições faria parte do direito não escrito de se reclinar. Mas esse é um jogo de soma zero. O passageiro da frente ganhou espaço à custa de quem viaja atrás.
Mesmo se pensarmos que se alguém à minha frente se reclina eu também posso me reclinar, isso não vale para quem viaja na última poltrona, que não é reclinável. Esses passageiros apenas vão perder espaço.
Além do mais, fora as brigas, os passageiros na poltrona de trás estão reagindo. Um inusitado dispositivo, o Knee Defender, que impede a poltrona da frente de se deitar, já levou um voo a ser desviado depois que um passageiro travou a poltrona da frente e a passageira, tentando reclinar, não gostou.
Como resolver? Em um artigo de 2017 no site Evonomics, dois professores de Direito, Christopher Buccafusco e Christopher Jon Sprigman, propõem usar a economia comportamental. A solução estaria em determinar o que vale mais, o prazer de reclinar ou o desagrado de ter menos espaço.
Em uma pesquisa online, eles pediram que as pessoas imaginassem que viajavam em um voo de seis horas. A companhia aérea havia adotado uma nova regra: a pessoa viajando atrás poderia oferecer uma quantia à pessoa da frente para não reclinar a poltrona.
Quanto vale não reclinar a poltrona?
Poltrona da frente US$ 41
Poltrona de trás US$ 18
Nas poltronas da frente, as pessoas queriam receber em média US$ 41 para não reclinar. Mas quem viajava atrás estava disposto a pagar apenas US$ 18. Uma prova de que reclinar é mais importante? Vamos ao segundo teste.
Desta vez os pesquisadores mudaram as regras. Reclinar não era mais um direito assegurado e quem quisesse um pouco mais de espaço deveria pagar ao passageiro da poltrona de trás pelo incômodo.
Quanto vale reclinar a poltrona?
Poltrona da frente US$ 12
Poltrona de trás US$ 39
Os passageiros da poltrona da frente aceitaram pagar US$ 12 para poder reclinar. Porém quem viajava no banco de trás exigiu uma compensação de US$ 39. Ou seja, pelas quantias exigidas, os dois grupos valorizavam igual o seu espaço.
E nos dois casos os passageiros se sentiam perdendo algo: o direito a reclinar ou mais espaço entre as poltronas, exigindo uma recompensa mais alta. Para os pesquisadores, a aversão à perda explica os resultados. Como demonstra Daniel Kahneman em sua teoria prospectiva, não gostamos de perder alguma coisa.
Mas a solução pode estar vindo das próprias companhias aéreas. Em 2018, a British Arways se juntou a Spirit, Allegiant, Norwegian e Ryanair no grupo de empresas que tomou a decisão menos controversa. Em vez de apontar quem tem ou não razão, seus próximos aviões terão poltronas que não reclinam.