Quase metade dos candidatos do Enem não tem computador em casa para acompanhar aulas online

Em meio à pandemia, exame foi mantido para novembro e estudantes mais pobres temem não estarem preparados; 2,3 milhões de inscritos não têm computador. Manter data do Enem pode dificultar acesso de jovens mais carentes, dizem especialistas
Sem o adiamento do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), os estudantes mais pobres temem não estar preparados para as provas. Um estudo exibido no Jornal Nacional desta quarta-feira (13) revela que mais de 2,3 milhões candidatos não têm computador em casa – quase a metade dos inscritos.
A pesquisa, realizada pela Casa Fluminense – organização que estuda a vida urbana nas periferias –, também apontou que a maioria dos estudantes frequenta escolas públicas e vive em estados do Norte e do Nordeste do país.
Por não ter como acessar a internet, grande parte deles teme não conseguir uma vaga em universidades públicas.
O levantamento também identificou que a maioria dos alunos sem acesso a computadores é do Maranhão.
“A gente tem um cenário de alunos que precisa compartilhar o seu quarto, o seu ambiente. [Eles] Não têm um ambiente silencioso para estudar, estão fazendo leituras e atividades escolares através de celulares, com toda limitação que isso impõe e, muitas vezes, têm que dividir seu horário do dia com atividades profissionais, com cuidados com família, com filhos e outras atividades necessárias para a sobrevivência, que ficam ainda mais desafiadores nesse ambiente de isolamento social”, explicou a antropóloga Yasmim Monteiro, da Casa Fluminense.
Provas em novembro
Com quase metade dos alunos sem acesso a computadores e, por enquanto, impossibilitados de realizar a prova presencial – devido à pandemia de Covid -19 –, ainda assim as provas do Enem estão marcadas para novembro. Universidades têm se manifestado pelo adiamento do exame.
Durante o período de crise sanitária, as aulas têm ocorrido online, mas o conteúdo não chega para todos.
“Na minha localidade não tem wi-fi então quando tento entrar em qualquer site pra saber os conteúdos eu não consigo , não carrega”, afirmou a estudante Carolyne Martins.
Carolyne faz parte de um grupo de alunos que não tem computador e precisa usar o celular para estudar.
“Minha maior dificuldade para estudar nessa quarentena está sendo o tamanho das letrinhas, porque me confunde muito, e no celular eu recebo muita notificação e eu não consigo”, explicou outra aluna, Lais Barbalho da Silva.
Além da dificuldade de acompanhar as aulas, Lais também não sabe até quando vai ter acesso à internet.
“Eu só tenho [internet] no celular. Por enquanto, ainda tenho wi-fi, mas minha mãe ainda não recebeu o auxílio, então tá um pouco difícil pra gente, pra poder ainda manter a internet dentro de casa”, lamentou a estudante.
A também estudante Ana tem usado o telefone celular da mãe para estudar, mas nem sempre consegue.
“Tem semana que minha mãe consegue botar o crédito, pra eu conseguir acessar. (…) Mas tem semanas que estou sem internet, sem crédito, não tenho dinheiro pra colocar e fico sem acessar”, detalhou.
Para Claudia Costin, especialista em educação, manter a data do Enem pode dificultar ainda mais o acesso dos mais pobres às universidades.
“Não é só a questão do online. (…) No papel, eles saem perdendo a frente dos alunos que vivem numa casa com livros, com pais que discutem temas da atualidade e computadores que não são compartilhados”, ponderou a especialista.
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