Psoríase, a doença crônica que afasta pacientes da “vida normal” no Brasil


Ainda sem cura, a doença inflamatória de pele atinge mais de 5 milhões de brasileiros. Um dos sintomas da doença é a forte coceira na pele
B. BOISSONNET / BSIP
Ainda sem cura e na corrida por aprovação de medicamentos adequados, a psoríase é uma doença crônica e inflamatória de pele que já atinge mais de cinco milhões de brasileiros em uma curva crescente ano a ano, mas o que vem preocupando pesquisadores e médicos são os impactos causados por ela, como outras complicações metabólicas e até mesmo o preconceito.
Pacientes reclamam do isolamento que sofrem devido à aparência da enfermidade, que causa coceiras, descamação e lesões na pele. No entanto, a preocupação da comunidade médica tem sido maior em relação à artrite e à sídrome metabólica, consequentes da falta de tratamento da psoríase.
“Se o paciente for tratado – e hoje temos vários tratamentos efetivos – ele não terá lesão de pele. Ter o controle da psoríase significa que os pacientes podem ter uma vida normal, sem serem isolados ou estigmatizados e irão esquecer que têm a doença”, afirmou à Efe a médica Cacilda da Silva Souza, responsável pelo Ambulatório de Psoríase do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.
A médica conta que muitas pessoas com a doença faltam ao trabalho, ou não conseguem um posto no mercado por causa das lesões na pele e passam por um “isolamento social destrutivo”, o que pode ser somado às complicações da psoríase.
Estudo brasileiro
Souza coordenou um estudo brasileiro publicado no Journal of Dermatology, em novembro de 2018, que mostra que 50 % dos pacientes com psoríase apresentam também síndrome metabólica e 41,8 % têm sinais e sintomas de artrite psoriásica.
De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, a síndrome metabólica se caracteriza pela presença de ao menos três complicações como obesidade, hipertensão arterial, glicemia, triglicerídeos e colesterol alterados, que são os principais fatores de risco para doenças cardiovasculares.
A pesquisa Beyond, patrocinada pela biofarmacêutica AbbVie,também identificou que os pacientes deixam de realizar tarefas diárias, o que impactou na qualidade de vida, como apontaram 66,4 % dos pacientes observados.
Psoríase causa escamas espessas e secas no couro cabelo
Divulgação
Foram acompanhados 293 pacientes das regiões Norte, Sudeste e Sul do Brasil, com diagnóstico de psoríase moderada a grave, sendo 51,9 % homens com idade média de 52 anos, dos quais 31,4 % estavam empregados à época, 35,8 % consumiam pelo menos uma dose de álcool por semana e 33,4 % eram sedentários.
Os pacientes foram observados entre abril de 2014 e maio de 2015 por dermatologistas e reumatologistas em três visitas, com intervalo médio de 30 dias entre cada uma.
De acordo com a médica, estes sinais são estimulantes para pesquisadores, médicos e indústria a fim de acelerar a busca por novas medicações e tratamentos para amenizar os impactos da psoríase.
“Devemos atentar para o diagnóstico precoce e o tratamento adequado da artrite psoriásica, como também às morbidades que compreendem a síndrome metabólica. O estudo enfatiza a importância do cuidado global ao paciente com psoríase e a relevância da cooperação entre dermatologistas e demais especialistas para as medidas de prevenção e tratamentos efetivos”, acrescentou.
Ainda não são totalmente conhecidas as razões da associação da psoríase com a síndrome metabólica; mas sabe-se que o risco pode ser de até cinco vezes maior entre os pacientes com psoríase do que entre os pacientes sem a doença, dependendo das características da população estudada.
Já a artrite psoriásica surge em associação às manifestações cutâneas da psoríase e pode afetar qualquer articulação do corpo, tanto as das extremidades como a coluna vertebral.
Especialistas e pesquisadores têm tentado impulsionar pesquisas clínicas que testem medicamentos e apresentem dados contundentes para possibilitar tratamentos a esta doença crônica.
Tratamento no Brasil
No último dia 27, a Anvisa aprovou o risanquizumabe para o tratamento da psoríase em pacientes adultos com níveis moderado ou grave, candidatos à fototerapia ou ao tratamento sistêmico.
Estudos clínicos com a medicação identificaram que mais de 80% dos pacientes tiveram resposta positiva ao tratamento em 52 semanas de uso do remédio, diminuindo as lesões na pele, o que poderá ajudar no conforto e na inclusão dos pacientes no mercado de trabalho.
“A partir do desenvolvimento dessas medicações houve um entendimento maior sobre essa doença e, consequentemente, aumentou o acesso ao tratamento e às novas opções de medicamentos, o que beneficia os pacientes. O cenário futuro é bastante positivo aos diagnosticados no Brasil”, acrescentou Souza.
Ela explica que foram necessários quase 20 anos de pesquisa para alcançar as aprovações que estão acontecendo no Brasil para a psoríase, o que vai resultar em dimunição de preconceito com os pacientes, porque os remédios são especialmente para conter as lesões na pele, melhorando a aparência.
Desde 2018, o Brasil está em segundo lugar no ranking das nações onde os pacientes relatam maior impacto da doença, atrás apenas da Arábia Saudita, segundo dados do estudo pela Hall and Partners e denominado Closer Together e realizado pela consultoria Hall and Partners.
De acordo com essa pesquisa divulgada ano passado, 72 % dos pacientes brasileiros mencionaram que a expectativa de tratamento foi atingida apenas parcialmente; 62 % relataram alto impacto da doença na vida social e 67 % desejavam voltar a ter uma vida normal.
“O desconhecimento é o que estigmatiza a doença, gerando o preconceito. Por ser uma doença de pele, as manchas ficam evidenciadas e muitas pessoas tem medo de contágio e contaminação, o que reforça o isolamento social”, explicou à Efe o dermatologista Ricardo Romiti, responsável pelo Ambulatório de Psoríase do Hospital das Clínicas da USP (HC-FMUSP).
Para combater o desconhecimento, Romiti destacou o aumento de alternativas para tratamento, como os medicamentos biológicos que proporcionam maior segurança aos pacientes por serem seletivos para grupos da doenças e apresentarem menores efeitos colaterais.
No Brasil, a aprovação desses agentes tem acontecido e propiciado a presença dos tratamentos imunológicos no Sistema Único de Saúde (SUS), como destacou o dermatologista. EFE