Produtor conta como Ariana Grande e Billie Eilish foram parar em trilhas de novelas


Gerente de produção musical e sonoplastia de 2015 a 2020, Marcel Klemm explica bastidores e como seleção do repertório é feita nos últimos anos. G1 conta histórias das trilhas de novela. Marcel Klemm trabalhou como gerente de produção musical da Globo entre 2015 e 2020
Sergio Zalis/Globo
“A música está ali para ajudar a contar história. A gente faz novela, a gente não faz clipe”, diz Marcel Klemm sobre o trabalho de selecionar e produzir trilhas de novela.
Esqueça gostos pessoais ou estilos preferidos, quem trabalha com isso vai ouvir música de todos os lugares com o objetivo de achar a melhor para determinado contexto ou personagem.
Com base nessa premissa e diferente do trabalho de Guto Graça Mello e Mariozinho Rocha nas décadas anteriores, o número de músicas em uma novela não é tão restrito e fixo hoje em dia.
Fato comprovado pelas mais de 90 músicas da trilha de “Amor de Mãe”, número que ultrapassa o número das faixas dos dois CDs, que tem 15 cada. E contando, porque Klemm não via problema em acrescentar quantas forem necessárias.
A pesquisa para a novela dirigida por José Luiz Villamarim resultou em uma lista com 500 faixas, mas o produtor destaca que a quantidade depende de cada diretor. Ouça podcast com trechos da entrevista.
Nesta semana, o G1 revela os bastidores das trilhas sonoras das novelas, por meio do relato de diretores musicais que passaram pela emissora.
Na entrevista abaixo, Klemm fala sobre a rotina do trabalho, a diferença entre diretores e como Billie Eilish e Ariana Grande entraram na trilha de “A Dona do Pedaço”.
O produtor assumiu o lugar de Mariozinho Rocha em 2015, depois de trabalhar com o produtor veterano atendendo à Globo na Som Livre. Desse período, ele fala sobre os bastidores de “Avenida Brasil”.
G1 – Como é a rotina de quem trabalha com trilha de novela?
Marcel Klemm – Na verdade, ouvir música e ser apaixonado é característica principal, mas quando eu estava na Globo eu costumava dizer que somos contadores de história. A música está ali para ajudar a contar história. A gente faz novela, a gente não faz clipe. A música está a serviço da história dentro desse arco dramatúrgico da narrativa.
Dentro desse conceito o seu gosto pessoal para determinado gênero musical, ele fica nem em segundo plano, fica em último plano, porque você vai ouvir todos os estilos e tudo que for necessário para ajudar a contar aquela história.
G1 – Pode contar um pouco mais sobre o processo para chegar na trilha de ‘Amor de Mãe’? A pesquisa tinha mais de 500 músicas e na novela foram usadas mais de 90, números bem diferentes de décadas passadas.
Marcel Klemm – Sobre “Amor de Mãe” especificamente é um modelo de criação do [José Luiz] Villamarim, o diretor da novela. O Villa coloca a música para entrar no set durante o ensaio para dar o clima da cena e aquilo acaba entrando quase que por osmose. Ele é um diretor muito musical, mas é uma característica dele nessa novela.
Hits de trilha sonora da novela “Amor de mãe”
O Fred [Mayrink] é um diretor extremamente musical também, mas ele tem uma característica de usar menos música. Se você pegar a trilha de “Haja coração”, não passa de 20 e poucas músicas. É uma particularidade dentro de cada diretor dentro da criação artística daquilo.
Lista com 500 músicas, testes no set e playlist ideal: como é criada a trilha sonora das novelas
G1 – Tenho a impressão de que agora as músicas são mais gerais para núcleos ou temas, e não dedicadas exclusivamente a casais ou personagens isolados como antigamente. Faz sentido essa percepção?
Marcel Klemm – Depende. Têm novelas que faz total sentido o que você está falando, mas têm outras que não, ainda é a percepção antiga.
A gente teve músicas no passado que marcaram muito, falando em novelas de 20, 30 anos atrás. Talvez a última música que tenha marcado desse jeito seja a música que era tema do Leleco, em “Avenida Brasil”, “Assim vc mata o papai”. E estamos falando de 8 anos.
Leleco (Marcos Caruso) e Tessália (Debora Nascimento) em cena de “Avenida Brasil”
João Cotta/G1
Acaba que a gente tem essa percepção por conta dessa memória afetiva. Você tende a achar que o agora não está tão marcado, mas o processo de concepção é marcando a música em 90% das vezes.
G1 – ‘Avenida Brasil’ foi um grande sucesso de público e a trilha tinha músicas que estouraram. Você acompanhou esse processo de alguma forma?
Marcel Klemm – Eu trabalhava na Som Livre atendendo à Globo, ao Mariozinho Rocha. “Assim você mata o papai” não ia nem estar na Av Brasil, estava pré-selecionada para outra novela das 18h, que ia ao ar no mesmo período.
O Mariozinho me ligou falando que precisava de uma música para o Bruno Gissoni, que ia ser um jogador e ia ser meio mulherengo. Acabou que no final nem foi isso tudo, a novela foi para outros caminhos e a música entrou ali para aquele personagem.
Acho que ela tocou uma vez com esse personagem e o João Emanuel desdobrou a história do Leleco para ele se apaixonar pela personagem da Debora Nascimento. Só que não tinha música para isso. Um dia a gente estava no Centro de Pós-produção da Globo e o sonoplasta falou que precisava de uma música para a história do Leleco. A gente falou da música do Iran que não estava sendo usada. A música estourou ali.
G1 – Músicas que estão tocando muito, são hits do momento costumam ter preferência para entrar na trilha? Você costumava procurar coisas mais desconhecidas?
Marcel Klemm – A gente não olha nada do que está bombando. Não é pretensão da Globo pautar, pelo menos no período que eu tive lá, nunca recebi essa ordem de tentar pautar o mercado ou ser pautado por ele.
É evidente que se a música mais tocada no Brasil encaixar perfeitamente com o personagem, ótimo. Você vai ter um buzz muito maior, mas a gente não olhava isso para o processo de escolha e nem esperava que acontecesse o contrário.
Agatha Moreira sugeriu a música ‘7 Rings’, da Ariana Grande, para ser tema de Josiane em ‘A Dona do Pedaço’
Globo/João Miguel Júnior
G1 – Pergunto porque fiquei surpresa quando ouvi ‘Bad Guy’ e ‘7 Rings’ em ‘A Dona do Pedaço’. Eram músicas que estavam fazendo muito sucesso em 2019, mas certamente muitas pessoas que assistiam à novela não sabiam quem era Billie Eilish ou Ariana Grande.
Marcel Klemm – “7 Rings” foi uma música que quem trouxe foi a Agatha Moreira, por exemplo. Ela falou em uma reunião com a Amora [Mautner, diretora artística da novela] que adorava essa música. A Amora me ligou e perguntou o que eu achava. Eu falei que já estava na lista que ia apresentar. E se a Agatha já falou que gosta, ela também tinha curtido a ideia estava dentro.
Essa parte [de apresentar músicas e artistas para o público gigante de uma novela] talvez seja a parte mais maneira do trabalho. Era muito gratificante quando eu via uma música até então desconhecida entrava em uma trilha e passava a bombar, começava a tocar na rádio. Era super gratificante, mas de novo isso nunca foi um objetivo. Era satisfação pessoal.
G1 – Para terminar, Marcel qual era o maior desafio de fazer trilha de novela?
Marcel Klemm – Escolher música para outro, na verdade dois outros: a audiência que está em casa e vai ouvir e um personagem que você não conhece e que você só sabe dele por uma definição no papel. Do momento que você escolhe, a música só toma forma com o personagem uns quatro, cinco, seis meses depois. Então esse processo de escolher música para o outro talvez seja o mais difícil.
VÍDEOS: Semana Pop explica temas do entretenimento