Produção de cafés especiais ajuda agricultor em tempos de preço baixo; mercado cresce no Brasil


Oferta de grãos ‘premium’ no país quase dobrou nos últimos 3 anos e foi de 5,2 milhões de para 9,4 milhões de saca. Colheita total foi recorde em 2018 e chegou a 61 milhões de sacas. Brasil consumiu 705 mil sacas de cafés especiais em 2018
Divulgação/SDR Bahia
Com os preços do café em baixa no mercado internacional devido à grande oferta no mundo todo, agricultores que investem na produção de cafés especiais conseguem uma espécie de seguro contra prejuízos. Esse mercado “premium” vem crescendo no Brasil e a maior cooperativa do país tem até um programa para incentivar os associados a entrarem na onda.
A produção de cafés especiais no país quase dobrou nos últimos três anos. Passou de 5,2 milhões de sacas em 2015 para 9,4 milhões de sacas no ano passado, das quais 90% foram exportadas. Os dados são da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA, na sigla em inglês), entidade que certifica o produto localmente.
E, se depender da demanda, o cultivo voltado para esse tipo de produto deve continuar em alta. Segundo estudo encomendado pela BSCA à Euromonitor, o consumo no Brasil foi de 705 mil sacas no ano passado, o que movimentou cerca R$ 2,6 bilhões. A projeção é que os números saltem para 1 milhão de sacas e R$ 4,7 milhões em 2021.
“Ainda é um nicho. Mas o que se vê, claramente, é que esses grãos especiais estão ganhando relevância importante e que ela vai aumentar”, diz Carmem Lúcia de Brito, presidente da associação.
Os cafés especiais corresponderam a apenas 15% da safra recorde de 61 milhões de sacas colhidas no país em 2018.
A colheita histórica ajudou a derrubar ainda mais as cotações da commodity, que já vinham em queda desde 2016, devido à grande oferta em todo o mundo. Em 1º de maio deste ano, os preços futuros na bolsa de Nova York estavam em US$ 0,93 por libra-peso, nível não atingido desde 2004 e muito abaixo do pico de US$ 2,99 por libra peso, registrado em 2011.
Os preços para os agricultores variam muito. De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), em maio os preços médios da saca da variedade arábica giraram em torno de R$ 380 a R$ 390, para o café tradicional. Já os especiais são vendidos a partir de R$ 800 a saca e podem ultrapassar os R$ 2.000, segundo Carmem.
A quantia recebida, por vezes não é suficiente para cobrir todos os custos de produção, que aumentam.
“Tem 3 coisas que o produtor pode fazer dentro da porteira dele (para melhorar a renda). Tentar gastar menos possível, aumentar a produtividade e melhorar a qualidade. Qualidade na xícara traz qualidade de vida”, diz Osvaldo Bachião Filho, vice-presidente da Cooxupé, a maior cooperativa de café do país, baseada no Sul de Minas Gerais.
O que faz um café especial
Cooperativas apostam na produção de cafés especiais
Divulgação/SDR Bahia
Um café classificado como especial é aquele que atinge no mínimo 83 pontos em uma escala definida pela Associação de Cafés Especiais (SCA), dos Estados Unidos, usada mundialmente. A régua vai até 100 e leva em conta aspectos como a doçura, acidez, aroma, corpo, e permanência do produto na boca.
Outro ponto na classificação é o tamanho do grão, selecionados por peneiras. Tem mais qualidade (e maior valor) os frutos mais graúdos, que não passam pelas malhas maiores. “O mercado só valoriza, só vai pagar como especial, acima da peneira 16”, explica Osvaldo Bachião Filho, da Cooxupé.
Como produzir um café especial
Produzir cafés especiais começa com o planejamento no campo. “A primeira coisa é ter a intenção de fazer um café especial, ter a consciência de que se faz como consequência de uma safra tradicional”, diz Flávio Borém, professor de engenharia agrícola da Universidade Federal de Lavras (UFLA), especialista no assunto há 20 anos.
Um dos primeiros cuidados, segundo Carmem Lucia, é com a terra. “Se eu tiver um solo sadio, terei plantas saudáveis e dando frutos de menor qualidade. É preciso roçar na hora certa, não usar herbicida a todo momento, colocar matéria orgânica”, diz. Além de presidente da BSCA, ela é também é produtora de café.
É preciso também mapear a qualidade do café produzido e definir exatamente de onde serão extraídos os lotes especiais, segundo Borém, e regular as máquinas para extrair o máximo possível de frutos cerejas, retirando no máximo 15% de verdes.
“A maturação é a chave (para um café de alta qualidade). Em um ano difícil como este, de maturação desuniforme (provocada por questões climáticas), tem que se ter ainda mais cuidado”.
Os processos não param depois da colheita. Para Borém, o produtor deve lançar de mão de todos métodos que evitem que o grão se altere depois que sai do pé, seja pelo ataque de micro-organismos ou fermentação.
“Qualidade é sinônimo de uniformidade. Além disso, quanto mais intacto o grão ficar por dentro, melhor”. É aí que entram as técnicas de secagem e armazenagem. Para o especialista, o principal gargalo para os produtores que não conseguem fazer cafés especiais são as tecnologias de secagem que permitam bons controles de temperatura e fluxo de ar no ar.
Tanto cuidado acaba aumentando o custo de produção. “Com certeza produzir café de qualidade custa mais, não é à toa que ele é especial”, diz Bachião, da Cooxupé. Borém diz, no entanto, que o valor agregado no produto supera os investimentos. “Muitas vezes, o agricultor já tem máquina, já tem infraestrutura, só precisa mudar a gestão”.
As plantações, porém, não conseguem gerar apenas cafés especiais. A proporção, na média, fica em torno de 20%, mas há agricultores que conseguem chegar a 50%, segundo Borém.
Incentivo de produção
De olho no crescimento do mercado de cafés especiais, a Cooxupé criou em 2009 uma subsidiária só para cuidar desse tipo de produto, a SMC.
Há três anos, criou um programa específico para identificar os grãos premium entre as toneladas que chegam à cooperativa pelos mais de 14 mil cooperados. Funcionários treinados identificam os lotes com grãos que entram na classificação de especiais e encaminham para a SMC, que faz a oferta ao produtor de acordo com a pontuação atingida.
“Sempre soubemos que havia esse café aqui, mas tínhamos a dificuldade de identificar”, diz Bachião.
Em 2016, primeiro ano do programa, a cooperativa identificou 10,5 mil sacas de cafés especiais entre toda a sua produção. Em 2017, o número saltou para 17,9 mil. Em 2018, foram 31,3 mil sacas — ainda pouco perto das 6,4 milhões de sacas recebidas no ano.
No ano passado, a SMC pagou, em média, de R$ 40 a R$ 150 a mais pela saca de cafés especiais em relação ao preço da commodity.
A Cooxupé também dá palestras sobre como produzir esse tipo de café aos cooperados. Este ano, vai começar a gratificar aqueles que conseguirem os melhores grãos, com um prêmio de até R$ 25 mil, que será entregue no fim do ano.
“A intenção é incentivar o nosso cooperado a produzir esse café, porque o movimento é forte no mundo todo e é importante que eles tenham conhecimento do que o consumidor quer”, diz Bachião.
Em 2018, a Cooxupé exportou diretamente 3,9 milhões de sacas de café e faturou R$ 3,7 bilhões.