Por onde anda o Orfeu de Vinicius? (II)

Volto a “Orfeu da Conceição”, a obra teatral em que Vinicius de Moraes transportou o mito de Orfeu para os morros cariocas, e repito o que disse no artigo anterior.
Primeiro, que o sucesso de “Hadestown” na Broadway não é uma primazia da talentosa autora-compositora Anaïs Mitchell. Mais de 60 anos antes dela, o musical de Vinicius já tinha trazido Orfeu para tempo e lugar mais próximos de nós.
Segundo, há pouco Vinicius em todas as adaptações que, inspiradas no da Conceição, o teatro e o cinema vêm fazendo há décadas. É claro que não me refiro ao musical de Anaïs. Acredito que sua fonte tenha sido outra, quem sabe até o mesmo Mario Meunier em que nosso poeta foi buscar informação sobre Orfeu, muito antes de “Lenda dourada dos deuses e heróis” ser traduzido por aqui.
“Orfeu da Conceição” subiu ao palco do Teatro Municipal carioca em setembro de 1956. Mesmo não fazendo sucesso com o público, foi um dos acontecimentos culturais do ano. O texto de Vinicius ganhara o primeiro prêmio em concurso do IV Centenário de São Paulo. Suas canções com Tom Jobim inauguravam uma parceria para a História. Havia, também, os cenários de Oscar Niemeyer, grande orquestra, elenco do Teatro Experimental do Negro, Haroldo Costa como Orfeu e Luiz Bonfá tocando violão pelo sambista.
Depois, qualidades e defeitos do espetáculo (qualidades e defeitos de Vinicius) nunca mais se repetiram. Não naquela atmosfera romântica, apaixonada, viniciana, com que a história se passava num morro inventado pelo poeta.
Houve tentativas. A de 2010, da qual o diretor Aderbal Freire Júnior tanto se orgulha, era honesta, bem feita, mas dava a impressão de querer homenagear Vinicius tornando tudo maior. Fazia desfilar, por exemplo, mais de 40 canções do poeta e parceiros onde, em 1956, no original, só havia cinco. É evidente que a maioria nada tinha a ver com o enredo.
O cinema foi o primeiro a embarcar na ideia de Vinicius, talvez porque, antes, ele tivesse pensado em seu Orfeu como filme. Foi o russo naturalizado francês, Sacha Gordine, quem adquiriu os direitos e produziu, para Marcel Camus dirigir, o premiadíssimo “Orphée noir”, de 1959. Gordine era um aristocrata, apresentava-se como “príncipe” e tinha na esperteza um de suas virtudes. Pretendendo ganhar dinheiro também como editor das músicas do filme, rejeitou tudo que Tom e Vinicius tinham escrito para o teatro e os fez, com Luiz Bonfá e Antônio Maria, criar trilha sonora inteiramente nova.
Há quem goste de “Orphée noir”. Há até quem o cite como primeiro Oscar do Brasil, embora fosse uma co-produção franco-italiana e tenha representado a França na disputa. Vinicius detestou. Não se viu nele, embora uma de suas melhores canções com Jobim, “A felicidade”, tenha sido feita para Orfeu, ou melhor, Agostinho dos Santos cantar no filme.
Outro filme, “Orfeu”, é brasileiro, de 1999, realizado pelo cineasta e acadêmico Cacá Diegues. Os créditos informam que ele se baseia na “obra de Vinicius de Moraes”, mas logo se vê que deve mais a Marcel Camus do que ao musical de 1956. O roteiro é de Diegues e quatro colaboradores (um dos quais novelista da Globo). O filme tem carnaval, escola de samba, Joãozinho Trinta, violência nos morros carioca, um Orfeu de tranças (Toni Garrido) e uma Eurídice muito bonita (Patrícia França), mas pouco Vinicius. Tem ainda muita música, feita por um punhado de gente, mas assinada com destaque por Caetano Veloso. Tem até o soneto de Corifeu, outros versos de Vinícius, “Valsa de Eurídice” e canções dele com Jobim, mas ainda assim não apaga a impressão de que seu modelo é o hollywoodiano “Orphée noir”.
Com este texto e o anterior, não pretendi provar nada. Só esclarecer que, em “Hanestown”, Anaïs Mitchell não acrescentou, como se disse, “novas cores” a uma história antiga. E que aquele megamusical que prometia levar nossos morros e nosso samba para a Broadway… sem Vinicius, é bom que não tenha acontecido.