Por onde anda o Orfeu de Vinicius? (I)

Com casa cheia e resenhas sempre generosas, o musical “Hadestown” acaba de entrar em seu segundo ano em cartaz na Broadway. Fato raro na história do teatro, tudo nele –– texto, música e letra – é obra de uma mesma criatura, Anaïs Mitchell, americana de 38 anos cujo êxito, segundo um dos críticos, deve-se à sua habilidade para acrescentar “novas cores a uma estória antiga”.
Anaïs é um talento. Cantando, acompanhando-se na guitarra, no piano e, mais que tudo, compondo, já foi apontada como sucessora de Bob Dylan, Leonard Cohen e outros nomes da folk music de seu país. Mesmo que haja exagero nisso, ela vive seu grande momento agora, com o sucesso de “Hadestown”.
O musical é o resultado de dez anos de trabalho. Em 2006 e 2007, Anaïs contou a mesma estória antiga em leitura de textos, nem todos musicados, em palcos de seu Vermont natal. Em 2010, ela produziu com elenco semi-amador um disco com a história devidamente contextualizada, começo, meio e fim. Título: “Hadestown”. Deu certo, vendeu bem e animou Anaïs a contratar uma diretora, Rachel Chauvkin, para ajudá-la a fazer do disco, e mais 14 canções, um musical de teatro.
À estreia, dois meses em cartaz off-Broadway, seguiram-se produções em Alberta, no Canadá, e em Londres. Em 17 de abril do ano passado, a Broadway. Em maio, “Hadestown” levou 14 dos 18 Tonys a que concorreu, incluindo o de melhor musical e o de melhores música & letra originais.
Mas a que “novas cores a uma velha estória” o crítico se refere quando fala do musical de Anaïs Mitchell? A estória é a do mito grego de Orfeu, o que desce ao Inferno para resgatar sua amada Eurídice. As novas cores: a da mudança da ação e dos personagens para a década de 30, a da pós-apocalíptica era da Grande Depressão nos Estados Unidos.
Você já viu este filme? Eu também. A época em que o Orfeu de Anaïs vive sua tragédia pode ser outra, mas a estória é a mesma. Poetas, romancistas, pintores, dramaturgos, cineastas, todos já revisitaram Orfeu de alguma maneira. Em 1949, Jean Cocteau o trouxe para o século XX num filme que Jacques Demy tentou (mas não conseguiu) melhorar. E em 1858, Jacques Offenbach, com libreto de Hector Crémieux e Ludovic Halévy, fez dele sua primeira opereta.
Com tudo isso, não sabemos de quem tenha dado novas, novíssimas e belas cores, à estória antiga, tão bem quanto o nosso poeta musical Vinicius de Moraes. Seu “Orfeu da Conceição”, que subiu ao palco do Municipal em 1956, tem um encanto que nunca mais se repetiu. Orfeu é convertido de poeta em sambista. Seu mundo, em morro carioca. O inferno, para onde Eurídice é levada morta, em Clube dos Maiorais. Tudo isso vivido por admirável elenco de artistas negros.
Ainda há o que falar sobre “Orfeu da Conceição”, mas fica para a próxima vez. Por ora, uma pergunta: para onde foi o projeto de levar o musical de Vinicius para a Broadway, como foi amplamente anunciado lá se vão cinco anos?
Na época, falou-se até de uma ganhadora do Pulitzer, Lynn Nottage, para cuidar do texto. De um diretor famoso, George C. Wolfe, para fazer as coisas funcionarem. E de uma equipe de produtores já contratada. Mas o tempo passou, Anaïs Mitchell pôs seu Orfeu em cena, não se falou mais em Vinicius e os morros cariocas não chegaram à Broadway.
Ou talvez não tenha sido bem assim. Porque “Orfeu da Conceição”, o de 1956, o verdadeiro, o de Vinicius de Moraes, jamais interessou ao teatro de fora, americano ou não. O que queriam importar, há cinco anos, seria uma versão para o palco da adaptação franco-italiana feita para o cinema em 1959 – “Orfeu Negro”. Fez sucesso, ganhou Palma de Ouro, Globo de Ouro, Oscar, mas não tinha o encanto de “Orfeu da Conceição” e, como veremos, tinha pouco Vinicius.