Pianista Amilton Godoy acerta contas com Tom Jobim e Camargo Guarnieri no álbum com que festeja 80 anos


Fundador do Zimbo Trio, músico sintetiza a luminosa trajetória nas nove faixas de disco em que toca temas de Gilberto Gil, George Gershwin e Ravel. ♪ Pianista paulista de formação erudita que se eternizou na música brasileira ao fundar o Zimbo Trio em 1964 com o baixista Luís Chaves (1931 – 2007) e o baterista Rubinho Barsotti (1932 – 2020), fazendo nome e ganhando fama na era do samba-jazz, Amilton Godoy acerta contas aos 80 anos.
Nascido em 2 de março de 1941, o músico lança álbum intitulado justamente 80 anos para celebrar as oito décadas de vida e resolver pendências artísticas.
Como conta em texto escrito para a contracapa interna da edição em CD do álbum, cuja capa expõe arte de Rodrigo Sommer, Godoy chegou a ser praticamente intimado por Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994) a gravar Bebel, tema da lavra soberana do compositor carioca, apresentado pelo autor há 44 anos no álbum Passarim (1987).
Da mesma forma, o compositor, pianista e regente paulista Camargo Guarnieri (1907 – 1993) – um dos expoentes da música erudita do Brasil – sempre cobrou de Godoy um registro fonográfico de Ponteio 49, peça de caráter romântico, apresentada pelo autor em 1959.
Pois Godoy salda ambas as dívidas entre as nove faixas de 80 anos, disco gravado pelo pianista com os músicos Edu Ribeiro (bateria), Gabriel Grossi (harmônica), Sidiel Vieira (contrabaixo) e Tico d’Godoy (saxofone).
No caso da dívida com Jobim, o saldo fica mais do que positivo, pois, além de Bebel, o pianista também registra Passarim, tema-título do álbum de 1987 em que Jobim apresentou Bebel.
Capa do álbum ’80 anos’, do pianista Amiton Godoy
Arte de Rodrigo Sommer
A rigor, o acerto de contas de Amilton Godoy se estende por todo o disco, de forma mais ou menos explícita. A seleção do repertório do álbum 80 anos sintetiza a caminhada luminosa deste músico que sempre transitou com habilidade pelas searas do jazz, da música erudita e do samba-jazz que lhe deu projeção no embalo da revolução feita pela Bossa Nova em 1958.
A fluência do pianista salta aos ouvidos nas gravações de Scheherazade (1888) – tema do compositor russo Nikolai Rimsky-Korsakov (1844 – 1907) – e de Pavane pour une Infante défunte (1899), peça criada para piano solo pelo compositor francês Maurice Ravel (1875 – 1937).
“Cada faixa é a lembrança de um amigo ou do forte imaginário musical que pautou minha trajetória”, resume Godoy no texto reproduzido no CD 80 anos.
A memória afetiva guiou o pianista na recordação de Canção de amor (Chocolate e Elano de Paula, 1950) – samba-canção que, no arco afetivo do disco, simboliza a reminiscência da amizade de Godoy com a cantora Elizeth Cardoso (1920 – 1990) – e no resgate do elétrico Frevo rasgado (Gilberto Gil e Bruno Ferreira, 1968), música que Godoy já gravara com o Zimbo Trio em disco lançado em 1978, dez anos após o registro original do frevo pelo coautor Gilberto Gil.
A seleção do álbum 80 anos é completada por Rio vermelho (Milton Nascimento, Danilo Caymmi e Ronaldo Bastos, 1968) e por Rhapsody in blue (George Gershwin, 1924), tema que Godoy já tocou com orquestras em diversos países, mas que reapresenta no álbum 80 anos em registro de piano solo, evocando a orquestração no toque do instrumento que lhe deu livre trânsito no mundo da música.