Pesquisadores descobrem nova espécie de rã em milharal e batizam com nome da escritora Cora Coralina


Pseudopaludicola coracoralinae é uma das menores rãs do Brasil, com 1,5 cm, e tem canto intenso, que possibilitou achado. Estudo foi realizado pela Unicamp em parceria com Unesp de Rio Claro e Universidade Federal de Uberlândia. Rã descoberta como uma nova espécie por pesquisadores da Unicamp foi batizada em homenagem à escritora Cora Coralina.
Felipe Andrade/Arquivo pessoal
Uma rã de 1,5 cm, um canto intenso no milharal e um resgate da história da literatura brasileira. Pesquisadores da Unicamp, em Campinas (SP), descobriram uma nova espécie do anfíbio em uma plantação de milho no interior de Goiás, que serviu de inspiração para batizar o animal com o nome da poetisa Cora Coralina. A escritora descreveu sapos no mesmo ambiente em “Poema do Milho” e, segundo a família, gostava mesmo de apreciar a cantoria deles.
“São homenagens que mexem com a gente. Lá em Goiás, a casa dela fica à beira do Rio Vermelho. No rio, tem uma porção de sapos e eles cantam a noite inteira. É diferente de tudo o que é sapo. Ficam a noite inteira, e agora essa rãzinha no meio do milho. Acho formidável. Se ela estivesse viva, estaria com 130 anos e, no entanto, ainda é homenageada. É mais do que bacana”, contou ao G1 a filha de Cora, Vicência Bretas, de 90 anos.
A descoberta da Pseudopaludicola coracoralinae ocorreu na cidade de Palmeiras de Goiás, no interior do estado, e foi realizada em parceria com a Unesp de Rio Claro e a Universidade Federal de Uberlândia. A publicação do estudo na revista especializada em ciência da classificação de espécies, European Journal of Taxonomy, no dia 3 de julho, tornou o feito conhecido.
Apaixonado por anfíbios, Felipe Andrade idealizou a viagem em busca da nova espécie durante o doutorado em biologia animal pela Unicamp, concluído em outubro do ano passado.
“Comecei a rodar a região rural e cheguei no milharal. Dias antes caiu um temporal e formou essa poça no meio do milharal. Era o ambiente perfeito. O milharal estava na altura do joelho, a plantação era nova. Esses bichos gostam de ambientes abertos, não esperava encontrar no meio do milharal. […] É algo fantástico, é uma sensação ímpar”, conta Andrade.
Pesquisador da Unicamp, Felipe Andrade analisa informações genéticas da rã Pseudopaludicola coracoralinae.
Felipe Andrade/Arquivo pessoal
Junto com a colega Isabelle Haga e orientado por Luis Felipe Toledo, professor da Faculdade de Biologia e da pós-graduação em Campinas, os pesquisadores identificaram variações no canto dos machos e diferenças nas características moleculares que constataram a novidade.
“Era uma população de mais de 100 indivíduos (rãs). Originalmente era cerrado, mas naquele local o cerrado virou plantação. É uma espécie menos exigente do que outras espécies do cerrado, mais resistente à mudança de ambiente. É possível que ele ocorra em outras cidades”, afirma o orientador do estudo.
A Pseudopaludicola coracoralinae adulta tem o tamanho inferior a 2cm e está próxima dos menores anfíbios do Brasil, segundo Toledo.
“O que chama a atenção é o canto e você escuta de longe, apesar do bicho ser minúsculo. Está quase no limite do menor sapo que existe”, diz.
Ouça o canto da rã recém-descoberta pela Unicamp, que recebeu nome de Cora Coralina
“Até no canto existe sobreposição entre as espécies, mas a duração e as taxas de emissão das notas é que diferem. Então, você pode ter espécies que cantam mais rápido ou mais lento do que ele. Isso ajuda muito nesse grupo”, completa o orientador.
A nova rã é considerada uma espécie críptica, muito parecida com outras a olho nu e dependem de estudos genéticos para fazer a diferenciação.
Os pesquisadores Felipe Andrade e Isabelle Haga durante as buscas pela nova espécie de rã em Goiás.
Felipe Andrade/Arquivo pessoal
Resgate da poetisa
A localidade da descoberta, um milharal no interior de Goiás, motivou a homenagem à Cora Coralina. Felipe Andrade conta que queria dar o nome de uma mulher à nova espécie de rã.
“Pesquisei um pouco e vi que a Cora é uma pessoa do estado e do interior ainda, uma pessoa que cresceu no campo, veio pra São Paulo e depois retornou, porque gostava muito da região. A gente estuda Cora nas aulas de português, desde pequeno. Gosto muito da poesia dela, pela simplicidade com que ela conta a vida na área rual”, lembra.
Cora Coralina, na cidade de Goiás
Reprodução/Vitor Santana
De imediato, segundo ele, os coautores do estudo aceitaram a homenagem.
“Sua obra foi um divisor de águas para a poesia brasileira, amplamente reconhecida, um símbolo. Passou por muitas dificuldades na vida e, mesmo assim, conseguiu publicar a sua obra e unir as duas coisas: a poesia brasileira e a biodiversidade brasileira”, afirma Andrade.
Cora Coralina, como Ana Lins dos Guimarães Peixoto era conhecida, nasceu em 1889 e morreu em 1985, em Goiás. O gosto da escrita surgiu na adolescência, mas somente conseguiu publicar seu primeiro livro aos 75 anos de idade, em 1965, chamado “O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais”.
A obra de Cora foi mais reconhecida nos últimos anos de vida da escritora. Atualmente, segundo a filha Vicência Bretas, ela também foi homenageada em uma espécie de peixe, uma flor, uma estrada e, agora, a rã do milharal.
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