Pesquisador do Inpa é alvo de ataque xenófobo em audiência pública sobre a BR-319 no Amazonas


Cientista norte-americano Phillip Fearnside tem vasto estudo publicado sobre a Amazônia e foi atacado após falar dos impactos que a construção da BR-319 causaria na região No AM, pesquisador é alvo de ataque xenófobo em audiência pública sobre a BR-319. Reprodução/Youtube
O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) Phillip Fearnside foi alvo de ataques xenófobos durante uma audiência pública sobre o licenciamento da BR-319, realizada na noite de segunda-feira (27).
Os ataques aconteceram após Fearnside ler um discurso em que fazia críticas à realização das obras na rodovia. O pesquisador, que é norte-americano e mora há mais de 40 anos em Manaus, também é vencedor do Prêmio Nobel da Paz e tem vasto estudo publicado sobre desmatamento na Amazônia e impactos ambientais na região.
Durante a audiência, o representante do Movimento Conservador Amazonense, Sérgio Kruke, afirmou que não aceitaria interferência externa nas decisões, usando termos xenófobos, se referindo ao discurso de Fearnside. (Assista ao vídeo acima).
“A gente não pode aceitar interferência externa. Como pode vir um cara dos Estados Unidos aqui. O cara vem de lá dizer o que eu vou fazer na minha casa? Essa casa é nossa! Se a gente quiser derrubar todas essas árvores, a gente derruba. É nossa e não é de mais ninguém. Não é de europeu, americano, nem asiático”, disse Kruke.
Em entrevista ao g1, Fearnside comentou o episódio e disse que recebeu diversos ataques verbais durante o discurso sobre a BR-319, na segunda-feira.
“No momento em que estava fazendo esse discurso, também recebi ataques de outras pessoas que estavam lá na plateia. É importante não ser intimidado por isso, e é bom também relembrar a Constituição que proíbe qualquer tipo de discriminação, com base na raça, cor ou gênero. O mais importante não é esse episódio em si, mas o assunto sobre a BR-319”, diz.
Phippip durante audiência pública na segunda-feira (27)
Reprodução/Youtube
Durante o discurso, o pesquisador fez críticas sobre a forma com que a BR-319 e questões ambientais estão sendo tratadas no Brasil. Segundo ele, o país apresenta uma deficiência na tomada de decisões, tanto que as audiências a respeito do licenciamento da BR-319 estão ocorrendo agora, após anos de impasses.
“O projeto BR-319 avançou ao ponto de realizar audiências públicas, apesar de múltiplas camadas de ilegalidade. A mais reveladora é a falta de consulta a qualquer um dos povos indígenas impactados pela rodovia”, disse o pesquisador.
“Os impactos da BR-319 vão muito além do que é considerado no Estudo de Impacto Ambiental, que se concentra na faixa ao longo do próprio traçado da rodovia. No entanto, o EIA contém trechos ocasionais que tocam neste impacto mais amplo, e os funcionários do IBAMA, portanto, não podem alegar que não foram avisados”, disse Phillip.
Tumulto em audiências públicas
As audiências públicas a respeito do licenciamento da BR-319 estão acontecendo entre 27 de setembro e 1º de outubro, sob forte tumulto, suspensão e revogação de decisões judiciais.
Na segunda-feira, horas antes do primeiro dia de audiência, a Justiça Federal suspendeu a realização do evento, acatando um pedido do Ministério Público Federal (MPF), que alegou que os estudos de impactos ambientais estão incompletos e levam riscos à saúde, diante de aglomerações por conta da pandemia de Covid-19.
A decisão foi revogada no mesmo dia, após a Justiça considerar que o impedimento das audiências pudessem gerar “grave lesão à ordem, à saúde, segurança e economias públicas”.
BR-319
A rodovia federal BR-319, inaugurada em 1976, é a única rodovia que liga Manaus ao restante do País. Em seus 800 quilômetros de extensão, a rodovia acumula crateras, atoleiros em período de chuva e péssimas condições de tráfego.
BR-319: Rodovia que liga Manaus a Porto Velho está praticamente intrafegável há mais de 30 anos
Em sua extensão, somente os trechos próximos às capitais Porto Velho e Manaus são asfaltados.

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