Pesquisa liderada por brasileiro usa bactérias do intestino para diagnosticar câncer

 Publicado na revista Nature Medicine, estudo mapeou em amostras de sete países diferentes 16 micro-organismos que têm relação com a doença

Publicado na revista Nature Medicine, estudo mapeou em amostras de sete países diferentes 16 micro-organismos que têm relação com a doença
Getty Images/ BBC NEWS BRASIL

Nosso intestino é povoado por trilhões de micro-organismos, entre bactérias, fungos e vírus – a chamada microbiota intestinal.

Essa população de inquilinos que vive no nosso corpo tem uma variabilidade grande – as espécies mudam de acordo com os hábitos alimentares e o estilo de vida de cada ser humano. Justamente por isso, esses micro-organismos podem ser um indicador importante do nosso estado de saúde.

Uma pesquisa publicada nesta segunda-feira na revista Nature Medicine mapeou 16 bactérias da microbiota que estavam presentes em amostras fecais de pessoas de sete países e três continentes diferentes e que têm relação com o câncer colorretal, que atinge cerca de 36 mil brasileiros por ano e causa quase 17 mil mortes anualmente no país.

O estudo, conduzido por cientistas do A.C. Camargo Cancer Center, da Universidade de São Paulo e da Universidade de Trento, na Itália, abre caminho para o desenvolvimento de métodos para o diagnóstico precoce da doença.

Ajuda no diagnóstico

Atualmente, a principal forma de detecção do câncer colorretal é a pesquisa de sangue oculto nas fezes. Caso exames apontem a presença de pequenos sangramentos no intestino, isso pode servir de ponto de partida para uma investigação mais meticulosa por meio de uma colonoscopia, por exemplo.

 

No Brasil, pesquisa foi conduzida por cientistas da USP e do A.C. Camargo Cancer Center; na imagem, grupo orientado pelo professor João Carlos Setubal

No Brasil, pesquisa foi conduzida por cientistas da USP e do A.C. Camargo Cancer Center; na imagem, grupo orientado pelo professor João Carlos Setubal
Marcos Santos/USP /BBC NEWS BRASIL

Com a descoberta dos cientistas, por sua vez, a simples presença das bactérias, de seus genes ou metabólitos na amostra fecal já acenderia o sinal amarelo de que há algo errado com o paciente.

“Descobrimos que o microbioma é um forte preditor da doença”, disse à BBC News Brasil Andrew Thomas, doutor em Bioinformática pela USP (Universidade de São Paulo) e um dos principais autores do estudo.

Foram avaliadas as bactérias e suas assinaturas metabólicas, ou seja, genes, metabólitos e tudo aquilo que é subproduto da atividade desses micro-organismos no nosso intestino.

Nesse sentido, Thomas destaca a presença nas amostras de pessoas com câncer de genes que codificam uma enzima microbiana presente em várias espécies de bactérias que degradam a colina, nutriente contido na carne e no ovo, por exemplo.

Essa enzima transforma a colina em trimetilamina (TMA) e, durante o processo, produz um metabólito já conhecidamente associado a doenças cardiovasculares como aterosclerose e ao câncer de cólon e reto.

Relação com alimentação

O biólogo destaca que ainda não foi estabelecida uma possível relação de causalidade entre a atividade das bactérias no organismo e o aparecimento das doenças, mas apenas uma correlação – sejam elas causa ou consequência, a presença dos micro-organismos e suas “pegadas” metabólicas são um indicativo da presença das patologias.

 

Estudo também contou a participação de cientistas da Universidade de Trento, na Itália

Estudo também contou a participação de cientistas da Universidade de Trento, na Itália


Arquivo pessoal /BBC NEWS BRASIL

Uma pesquisa mais aprofundada nesse sentido pode esclarecer a natureza da relação entre alimentação e o desenvolvimento do câncer.

De qualquer forma, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) coloca o consumo de carnes processadas – como salsicha, mortadela e presunto – e a ingestão excessiva como carne vermelha – acima de 500 gramas de carne cozida por semana – como fatores que aumentam o risco para o câncer de intestino.

Também contribuem o sobrepeso e a dieta não saudável – pobre em frutas, vegetais e em alimentos ricos em fibras.

Na pesquisa divulgada hoje foram avaliados dados de 969 amostras fecais de pessoas com ou sem câncer de Alemanha, França, Itália, China, Japão, Canadá e Estados Unidos.

Ela faz parte do doutorado que Thomas concluiu em 2018. No Brasil, ele foi orientado pelo biólogo Emmanuel Dias-Neto, do Centro Internacional de Pesquisas (Cipe) no A.C. Camargo Cancer Center, e pelo engenheiro João Carlos Setubal, Professor de Bioquímica da USP.

Na Universidade de Trento, ele trabalhou com o bioinformata Nicola Segata.

Também especialista em bioinformática, Thomas usa técnicas computacionais – como o aprendizado de máquinas – para analisar bancos de dados biológicos que dificilmente seriam processados sem essas tecnologias.

Seu objetivo para o futuro é aprofundar o estudo para que a análise da microbiota permita a prevenção do câncer de cólon e reto, e não apenas a detecção precoce. Ou seja, para que a assinatura metabólica dos micro-organismos que colonizam o intestino permita a identificação em estágio inicial de pólipos – pequenas protuberâncias que podem evoluir e se tornarem tumores malignos.

“O câncer colorretal se desenvolve de forma lenta e silenciosa. Se a gente conseguir pegar os pólipos em estágio inicial, vai ser possível prevenir a doença.”