Pedro Ivo Frota faz ‘Carnavalha’ com pressão e delírios líricos do parceiro letrista Mauro Aguiar


Artista lança disco em 12 de fevereiro com repertório que parte da folia para seguir o bloco dos descontentes. Resenha de álbum
Título: Carnavalha
Artista: Pedro Ivo Frota
Edição: Cantores Del Mundo
Cotação: * * * *
♪ Fotografado por Walter Reis, o bate-bola exposto na capa do quinto álbum do cantor e compositor carioca Pedro Ivo Frota, Carnavalha, parecer encarnar folião mais fora-da-lei do que o bate-bola retratado em 1999 na capa do primeiro álbum da banda conterrânea Los Hermanos.
Em Carnavalha, disco programado para ir para rua na sexta-feira do cancelado Carnaval de 2021, 12 de fevereiro, Pedro Ivo Frota põe o bloco do eu sozinho na rua com som e fúria. É navalha na carne de Carnaval!
Na marcha solitária contra tiranias, o artista está em boa companhia – a começar pelo compositor Mauro Aguiar, parceiro letrista de Pedro Ivo nas seis faixas que compõem o repertório inédito e autoral deste disco que, a rigor, pode ser enquadrado no formato de EP, mas que é apresentado e entendido pelo artista como álbum. Um disco mais envenenado do que o antecessor Monolito (2017).
Em Carnavalha, disco lançado pelo selo indie Cantores Del Mundo, Pedro Ivo se junta com o power trio formado André Siqueira (guitarra), Bernardo Aguiar (percussão) e Ivo Senra (sintetizadores).
Além de pilotar os sintetizadores, fundamentais para o tom contemporâneo de Carnavalha, Ivo Senra assina a produção musical deste disco precedido pelo single Meiuca, lançado em 29 de janeiro com capa que expõe pintura da artista plástica Mariana Bonifatti.
Capa do single ‘Meiuca’, de Pedro Ivo Frota
Arte de Mariana Bonifatti
Em Meiuca, Pedro Ivo cai no samba esquema noise para dividir com o cantor e compositor Muato a interpretação de versos como “Meu fundo do poço / Pra enterrar meu osso colosso / Meu resto rosto insosso / Depois viro encosto / Meu posto”.
Parido do breu, o eu-lírico deste samba – malandro vindo do Cais do Valongo – se espreita pelas beiradas deste samba torto.
Disco idealizado para reforçar o coro dos descontentes, Carnavalha se escora tanto na sonoridade – por vezes evocativa de estética punk pós-moderna – como nos delírios líricos do letrista Mauro Aguiar, ouvidos já no abrasivo maracatu que abre e nomeia o disco, Carnavalha, ecoando o legado da Nação Zumbi.
Em outra incursão pelas ruas de Pernambuco, Pedro Ivo Frota arrisca passo menos tradicional para o frevo em Diabólido. Música menos imponente na folia do disco Carnavalha, Aceitação investe contra a intolerância religiosa – “Uma seita / Não aceita / Outra seita / E senta o pau / Em nome do Senhor” – no toque do ijexá.
Já Um dia você acerta reprocessa a levada do carimbó no tom pressuroso de Carnavalha enquanto o samba Bicho pau deixa no ar a sensação de que, por vezes, a sonoridade e as letras têm mais força no disco do que a música em si. Nem por isso o disco Carnavalha deixa de fazer sentido na distopia tropicalista do Brasil de 2021.