Paulo Sérgio Valle, letrista de ‘Evidências’ e ‘Samba de verão’, chega aos 80 anos com obra eclética


Compositor carioca escreve, com fluência, versos para melodias de parceiros de universos musicais distintos. Paulo Sérgio Valle é o letrista de canções popularizadas por Alcione, Fafá de Belém, Ivete Sangalo, José Augusto e Maria Bethânia
Tarso Ghelli / Divulgação
♪ MEMÓRIA – Nascido em 6 de agosto de 1940, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), Paulo Sérgio Kostenbader Valle chega aos 80 anos como um dos compositores mais bem-sucedidos da história da música brasileira.
Contudo, desde os anos 1960, o público costuma cantar as músicas que têm versos deste letrista e escritor carioca sem associar o nome e o rosto do artista à obra.
Irmão de Marcos Valle, o carioca Paulo Sérgio é o típico caso de compositor letrista que, por criar nos bastidores sem ir ao microfone apresentar as próprias criações, corre o risco de passar despercebido na multidão.
Quem é do meio musical jamais cometeria essa injustiça. Afinal, são cerca de 900 músicas letradas por Paulo Sérgio. Bastaria o compositor ter escrito os versos de Samba de verão (1964) – sucesso planetário da parceria com o irmão Marcos Valle que se tornou uma das mais perfeitas traduções do clima sal, céu, sol, sul da bossa nova – para ter posto o nome em lugar de honra na história da música popular do Brasil.
Só que Paulo Sérgio também surfou em outras ondas. Com o irmão Marcos Valle, fez o sofrido samba-canção Preciso aprender a ser só (1965), seguiu a toada do engajamento político com a canção de festival Viola enluarada (1968), propagou a filosofia hippie no samba Com mais de 30 (1970), sentenciou que negro é lindo no soul Black is beautiful (1971) e, em outra fase da parceria, poetizou a sofrência em Paixão antiga (1988), sucesso da fase mais melosa da discografia de Tim Maia (1942 – 1998).
Sim, a partir da década de 1980, Paulo Sérgio Valle soube se adequar ao tom radiofônico das canções sentimentais produzidas em escala industrial para atender demanda das gravadoras para abastecer os repertórios dos artistas mais rentáveis dos elencos das companhias.
Nessa seara mais populista, Evidências (1989) – parceria com José Augusto – virou hit blockbuster quando foi gravada pela dupla Chitãozinho & Xororó em 1990 e, ao longo dos últimos 30 anos, se tornou standard da canção brasileira, indo parar nas vozes de intérpretes dissociados do universo sertanejo.
Maria Bethânia, por exemplo, incluiu Evidências no roteiro do show Claros breus (2019), quarenta anos após a cantora ter transformado jingle de motel feito pelo compositor, Cheiro de amor (Jota Moraes, Ribeiro, Duda Mendonça e Paulo Sérgio Valle, 1979) em um dos sucessos do álbum Mel (1979).
Sem pré-conceitos musicais, Paulo Sérgio Valle fez versos para músicas de Michael Sullivan (Abandonada, sucesso de Fafá de Belém em 1996), Herbert Vianna (Se eu não te amasse tanto assim e A lua Q eu te dei, baladas lançadas por Ivete Sangalo em 1999 e em 2000, respectivamente) e Chico Roque, com quem assinou Essa tal liberdade – sucesso lançado em 1994 pelo grupo de pagode Só pra Contrariar – e Você me vira a cabeça (você me tira do sério), hit de Alcione a partir 2001.
A lista de parceiros também inclui Ed Wilson (1945 – 2010) com Prêntice (1956 – 2005) – parceiros de Paulo Sérgio em Aguenta coração (1990), um dos maiores sucessos de José Augusto, parceiro do letrista em hits como Sábado (1987) e a já mencionada canção Evidências – e Mauro Motta (Escancarando de vez, 1991), sucesso de Elymar Santos quando o cantor seguia a linha pop erótica do repertório de Wando (1945 – 2012).
Enfim, poucos compositores letristas conseguiram transitar com a fluência de Paulo Sérgio Valle por universos musicais tão distintos, com parceiros nem sempre capacitados para criar melodias com o requinte da obra construída pelo artista com o irmão Marcos Valle.
E hoje, 6 de agosto de 2020, dia do 80º aniversário do poeta popular, Paulo Sérgio Kostenbader Valle pode comemorar o feito obtido por time seleto de compositores brasileiros: ter dezenas de músicas na boca do povo, mesmo que esse povo nem sempre ligue o nome à obra.