Para ganhar dinheiro com mais tranquilidade na Bolsa, abrace uma árvore


Empresas que fazem parte do Índice de Sustentabilidade da Bovespa se saíram melhor em períodos de crise. Com a queda de rendimento da renda fixa, muita gente quer entrar nesse mundo cheio de possibilidades, promessas de enriquecimento e tantas decepções da renda variável. E, no primeiro passo, se depara com um desafio que parece intransponível: se quiser aplicar na Bolsa, que ação escolher? 396 empresas negociam na B3, a Bolsa brasileira. Para muitos, esse primeiro passo é tão frustrante quanto jogar Mario Bros e não conseguir passar da primeira fase. Melhor dizer que é jogo pra criança do que reconhecer o fracasso.
Não é um problema só dos iniciantes. O pessoal da Bolsa deu um nome chique para essa dúvida cruel: “stock picking”, a arte e a ciência de escolher as ações que vão torná-lo mega-hiper-blaster-milionário. Ou não… É um desafio, em que mesmo muitos analistas, gestores de fundos, especialistas em geral muitas vezes fracassam.
Aí é que entram os abraçadores de árvores, aquele jeito pouco lisonjeiro de chamar aquele povo que vive falando em respeito à natureza, limpeza de rios, compostagem de lixo orgânico, sustentabilidade. Se você for um deles, calma! Os números dizem que você pode ter razão.
Em 2005, a B3 criou um índice que mede o desempenho de empresas que se comprometem com economia sustentável. É o ISE, atualmente composto por 28 ações. Nesses 13 anos, as empresas do ISE renderam 213% enquanto o Ibovespa, que reúne os pesos pesados da Bolsa, rendeu 201%. A diferença não é grande. Mas quem investiu nas empresas listadas no ISE sofreu menos. Veja os gráficos abaixo. Eles contam uma história.
Ibovespa X ISE
Igor Estrella/Arte G1
O trecho destacado (janeiro de 2010 e maio de 2015) mostra, no Ibovespa, os claros sinais de deterioração da economia brasileira nesse período. O Ibovespa caiu (entre 7 de janeiro de 2010 e 5 de maio de 2015) 26%. Já o ISE subiu 35%.
Fazer esse tipo de comparação é sempre um risco. Dependendo do período que se escolhe, o resultado será diferente. Se pegarmos o período seguinte, quando o Ibovespa chegou ao fundo poço, veremos que o desempenho do principal índice da B3 é melhor, porque a Bolsa estava cheia de pechinchas. Mas uma coisa é certa: as empresas do ISE tiveram desempenho melhor na crise. Quem investiu nelas dormiu melhor. Já é um lucro…
Essa análise de olhômetro dos gráficos está em linha com um estudo feito pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, chamado “O Impacto da Sustentabilidade Corporativa nos Processos e Performances Organizacionais” comparou o desempenho das maiores empresas globais listadas em Bolsas de Valores entre 1992 e 2010, levando em conta suas políticas de sustentabilidade.
A pesquisa dividiu as empresas em dois grupos: as de alta sustentabilidade (que adotam mais de 10 políticas de sustentabilidade e começaram a se preocupar com o assunto ainda nos anos 1990) e as de baixa sustentabilidade (que aplicam menos de 4 políticas e começaram o processo nos anos 2000).
Algumas conclusões: o patrimônio das empresas de alta sustentabilidade cresceu 30% a mais do que as de baixa sustentabilidade, a rentabilidade cresceu o dobro e – como no exemplo dos gráficos – o desempenho foi melhor nos momentos de crise.
Sonia Favaretto, diretora de Sustentabilidade e Comunicação da B3, acredita que esse resultado é motivado por alguns fatores.
“As empresas que se preocupam com sustentabilidade tendem a ter melhor governança, tentam se antecipar às questões regulatórias. Cumprir a lei é básico, todo mundo tem que fazer, mas as empresas do ISE já estão preocupadas com o passo seguinte. Elas tentam saber qual o próximo movimento de mercado e querem se antecipar, querem descobrir que variável ambiental pode ter relação com produto novo que estão lançando. Assim, elas acabam se diferenciando frente ao investidor”.
Um artigo clássico dos professores americanos Michael Porter e Mark Kramer, publicado na Harvard Business Review em 2006 e chamado “Estratégia e Sociedade: A Conexão entre Vantagem Competitiva e Responsabilidade Social Corporativa”, mostra que as empresas que investem em responsabilidade social e sustentabilidade conseguem evitar dores de cabeça e prejuízos (lembra de Brumadinho?), passam a ter melhor imagem com público (o que ajuda muito na hora de vender um produto), têm mais facilidade para se expandir globalmente (porque estão preparadas para qualquer exigência regulatória, enquanto a concorrência precisa se adaptar) e estão mais propensas a lançar novos e empolgantes produtos. Ou seja, bom para quem for sócio delas.
Mas fica um alerta: não há aqui nenhuma recomendação de investimento. Só uma dica: investir em ações é como um casamento. No começo tem paixão, há várias decepções, reatamentos, momentos de alegria. E você só vai saber se acertou depois de alguns anos. Analise todas as possibilidades. E não descarte aquele rapaz ou aquela menina que vive falando em salvar o planeta. Ele pode estar certo. Pense bem antes de dizer “sim”.
(Observação: Nem tudo é perfeito. A Vale fazia parte do ISE até ser excluída depois do rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, em 2015. Voltou em janeiro de 2019, menos de um mês antes do rompimento da barragem de Brumadinho. E foi excluída de novo.)