Painel do Rio Doce alerta para um aumento de até 3,6°C em 60 anos na região afetada pela tragédia de Mariana


Relatório aponta que mudanças climáticas podem afetar o programa de recuperação da Bacia do Rio Doce. Região se tornou mais vulnerável depois do rompimento da barragem da Samarco em 2015. Obra da Fundação Renova no Rio Doce, em Santa Cruz do Escalvado
Antonio Carlos da Silva/Arquivo pessoal
Um estudo divulgado nesta terça-feira (21) pelo Painel do Rio Doce, coordenado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), alerta para mudanças climáticas severas na Bacia do Rio Doce, área que compreende os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Uma delas é a previsão de aumento de temperatura de 3ºC a 3,6ºC, até 2080.
A previsão é que o período de estiagem se prolongue e as inundações se tornem cada vez mais intensas. A região, que já sofria com a devastação das matas ciliares e do assoreamento do Rio Doce, se tornou mais vulnerável após ser castigada pelo “mar de rejeitos” provocado pelo rompimento da Barragem de Fundão, da mineradora Samarco, em 2015.
Criada para reparar os danos causados pela tragédia, a Fundação Renova desenvolve 42 programas ambientais e socioeconômicos que fazem parte do Termo de Transação e de Ajustamento de Conduta (TTAC), assinado pelo Ministério Público, União e governos de Minas Gerais e Espírito Santo. Mas o relatório aponta que 23 podem estar direta ou indiretamente ameaçados pelas mudanças climáticas.
Rejeitos de lama em Bento Rodrigues, distrito destruído pela lama da Samarco
Reprodução/TV Globo

Alguns deles tratam da retomada de atividades agrícolas e pesqueiras, da recuperação de nascentes e áreas de preservação permanente, além da conservação da biodiversidade.
“Nós estamos sugerindo uma série de ações que devem ser feitas logo para que a recuperação não seja afetada. Daí a necessidade de que a Renova e governos se envolvam nesse processo que deve acontecer debaixo para cima, com a participação efetiva dos atingidos”, disse o autor principal do estudo, Peter May.
Para a especialista em mudanças climáticas e membro do Painel do Rio Doce, Christianne Maroun, a maior urgência é o desenvolvimento de um plano de ação climática.
Enchente em Governador Valadares em fevereiro deste ano
Antônio Cândido/Prefeitura de Governador Valadares
“A nossa recomendação é que representantes dos governos, do Ministério Público, do Comitê da Bacia do Rio Doce e dos atingidos levem as mudanças climáticas em consideração e passem a avaliar medidas que podem ser muito positivas para a região como iniciativas de baixo carbono e a adoção de soluções baseadas na natureza que permitem uma maior resiliência na recuperação’, disse ela.
O estudo propõe ainda adoção de alternativas tecnológicas de restauração e ações preparatórias para adaptação à mudança climática.
Os temporais observados em fevereiro de 2020 no Vale do rio Doce, em Minas Gerais, já seriam sinais claros que as alterações estão acontecendo. Para o Espírito Santo, a previsão é de redução das chuvas, aumento da temperatura em até 2,1ºC até 2050 e elevação do nível do mar.
O G1 procurou a Fundação Renova, que realiza os programas de recuperação da Bacia do Rio Doce, e aguarda posicionamento.