Maioria dos jovens brasileiros diz se interessar por ciência, mas 90% não conhecem o nome de um cientista nacional


Duas mil pessoas foram ouvidas para trabalho pioneiro que busca compreender a interação dos jovens com temas de ciência e tecnologia no país. Programa é destinado a jovens cientistas de países emergentes para que desenvolvam suas habilidades científicas e profissionais.
Ares Soares/Unifor
Metade (51%) dos jovens brasileiros acredita que a situação das pesquisas científicas do país está atrasada, mas mesmo assim a maioria deles diz que se interessa pelo assunto. Esse é o resultado de um estudo apresentado nesta segunda-feira (24). Os pesquisadores ouviram mais de 2 mil pessoas – 93% não sabem dizer o nome de um cientista nacional.
Alguns resultados:
80% dos participantes disseram se interessar por assuntos relacionados ao meio ambiente;
74% em medicina e saúde;
67% em ciência e tecnologia;
87% sequer conhecem alguma instituição que se dedique a pesquisa;
Quase metade acham a ocupação atrativa, mesmo considerando “difícil” seguir a profissão;
48% dos participantes disseram que é “muito difícil” saber se um boato sobre ciência e tecnologia é verdadeiro ou falso.
A pesquisa é assinada por cientistas do Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (Fiocruz) e da Casa de Oswaldo Cruz. Para o desenvolvimento do estudo, foram ouvidas mais de 2 mil pessoas de 15 a 24 anos.
Quando questionados sobre como normalmente tiram dúvidas sobre assuntos relacionados a ciência e tecnologia, 43% dos jovens disseram que normalmente conversam com professores e amigos.
Apesar do interesse, a maioria dos participantes disse que busca ou recebe informações sobre ciência somente “de vez em quando” e que, na maioria das vezes, essas informações chegam por meio da internet ou da televisão – as pesquisas no Google e vídeos no Youtube são as principais formas de interação.
Ainda de acordo com os pesquisadores, houve uma mudança no “ecossistema de informações”, ou seja, as informações deixaram de ser “buscadas” e começaram a ser “encontradas” apenas com um clique. O levantamento também identificou que esses jovens passaram a “tropeçar” mais vezes nesses conteúdos.
Investimentos
Em meio a “bloqueios preventivos” em bolsas de pesquisa anunciadas pelo Capes em maio, 60% dos jovens ouvidos dizem que é importante aumentar os investimentos na pesquisa científica, e 69% acham que a ciência traz muitos benefícios para a sociedade.
Além disso, eles também apontam uma dificuldade em identificar a veracidade das informações relacionadas a ciência e tecnologia. Os jovens relatam “angústia e insegurança” e afirmam que “é cada vez mais difícil identificar o que é verdadeiro”.
“A confiança em conseguir identificar notícias falsas depende fortemente do grau de consumo de informação científica e dos hábitos culturais”, diz o artigo. Ou seja, os pesquisadores definiram que os jovens que vão a museus e eventos de ciências, por exemplo, identificam com mais facilidade uma notícia falsa.
“Não surpreendentemente, nossos dados mostram que a percepção de receber possíveis notícias falsas sobre C&T (Ciência e tecnologia) é maior entre jovens mais engajados politicamente, de maior escolaridade, e que consomem mais frequentemente informação científica”.

A vida de um médico especialista em eutanásia: ‘Não sinto que estou matando o paciente’


O doutor Yves de Locht realiza eutanásias na Bélgica, um dos poucos países no mundo onde o procedimento é legal; a BBC acompanhou o médico em três dos casos que atendeu. O médico Yves de Locht já realizou mais de 100 eutanásias e diz que os procedimentos lhe causam grande impacto pessoal e emocional
BBC
“Injetamos isso nas veias do paciente e, em menos de um minuto, ele se vai, cai adormecido e depois morre. Sem sofrimento, sem dor,” diz o doutor Yves de Locht, enquanto segura entre os dedos um pequeno frasco com um líquido.
De Locht realiza eutanásias na Bélgica, país com uma das políticas mais liberais sobre o tema.
A eutanásia ativa, ou morte assistida por intervenção deliberada, é legal no país e em apenas alguns outros: Holanda, Luxemburgo, Canadá e Colômbia, enquanto alguns estados dos Estados Unidos permitem certos tipos de morte assistida.
Na Bélgica, o procedimento foi legalizado em 2002 e, em média, é aplicado a seis pessoas por dia. No ano passado, médicos belgas puseram fim a 2.357 vidas com a eutanásia.
O doutor Locht – que realizou mais de 100 eutanásias – recebe constantemente pedidos de pacientes que querem morrer.
Mas por motivos pessoais e emocionais, ele diz que só pode fazer uma por mês.
“É um ato importante e difícil que tem um grande impacto emocional”, admite. “Eu não chamo de matar um paciente. Ele encurtou sua agonia, seu sofrimento. Eu lhe forneço o cuidado final.”
A BBC acompanhou o médico durante os atendimentos a três pacientes que pediram sua intervenção.
Alain: ‘Quando perder a capacidade de me comunicar e me movimentar’
Alain tem Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), uma condição que enfraquece todos os músculos gradualmente.
Em média, os pacientes com ELA morrem entre três e cinco anos após serem diagnosticados. Cerca de 25%, segundo o Ministério da Saúde do Brasil, sobrevivem por mais de cinco anos depois do diagnóstico.
Ele viajou 700 quilômetros com os dois filhos – saindo da França, onde a eutanásia é ilegal – para conseguir que o ajudem a encerrar a própria vida quando sua situação piorar.
A chegada ao consultório é de ambulância, a única maneira em que Alain poderia ser transportado, diz De Locht.
O médico quer ter certeza de que o pedido é feito pela vontade do paciente e pergunta sobre quando ele vai tomar a decisão.
“Eu acho que quando perder a capacidade de me comunicar e me mover”, responde Alain.
De Locht explica a ele que a intervenção será feita em um pequeno quarto do hospital onde poderão estar um ou dois membros da família.
Cabe a Alain decidir se quer que os filhos o acompanhem em suas últimas horas, mas eles também têm a opção de querer ou não estar presentes.
Segundo o médico, Alain cumpre as três condições básicas para pedir a eutanásia: “Ele tem uma doença incurável e um sofrimento que não pode ser aliviado”, diz ele, e “fez uma solicitação por escrito. Tenho o documento aqui”.
Alain voltou para casa com a esperança de poder pedir a eutanásia a qualquer momento. No entanto, ele morreu pouco depois, em fevereiro, de complicações respiratórias.
“Devemos aceitar que não podemos curar tudo”, diz o o doutor De Locht à BBC. “Quando não podemos curar, nosso papel é tentar aliviar o paciente, atenuar sua dor. Então, quando chego até o final continuo fazendo meu trabalho como médico.”
Louise: ‘Eu não quero acabar em um lugar com cheiro de urina’
Louise tem 79 anos e está em bom estado de saúde. Ela é paciente do doutor De Locht e, embora a eutanásia não esteja “na agenda” imediata, ela quer ter certeza de que a opção estará disponível caso seja necessária.
“Eu acho que você tem de enfrentar a morte e, se puder, esperá-la de pé”, diz. “É algo que afeta a todos nós, porque todos nós vamos morrer, mas eu tenho o direito de exigir qualidade ao final da minha vida.”
Louise argumenta que a eutanásia é uma maneira mais humana e mais eficiente de acabar com a vida. “Eu não quero acabar em um lugar com cheiro de urina”, exclama.
Ela sabe, no entanto, que por ora sua solicitação será negada.
“É difícil dizer ‘não'”, diz o o doutor De Locht. “Somos obrigados a escolher, frente à quantidade de solicitações, então sempre pego os pacientes mais graves.”
Ainda que tenha realizado mais de 100 eutanásias, ele teve de recusar algumas e nem sempre por razões médicas.
“Por razões afetivas, de nenhuma forma eu praticaria a eutanásia a pessoas que conheço muito bem ou a membros da família”, admite ele.
Michel: ‘Não é o câncer que me leva, sou eu quem decide’
Michel estava ‘absolutamente decidido’ a seguir adiante com o procedimento, mas sua mulher gostaria de ter mais tempo com ele
BBC
Uma noite antes de fazer a eutanásia, o doutor De Locht visita o paciente, Michel, que espera com sua esposa.
Michel, de 82 anos, é ex-chefe de polícia e tem câncer terminal na mandíbula. Ele tem se alimentado por meio de um tubo gástrico há quase um ano.
De Locht o cumprimenta e pergunta se ele mudou de ideia.
“Não há perigo (de mudança de ideia)”, responde Michel com a voz rouca.
Ele diz que depois de se consultar com o médico em Bruxelas pela primeira vez, sentiu como se tivesse retirado o peso que sentia nos ombros. “Isso me transformou. Eu pensei que finalmente havia uma saída.”
Sua dor é tão insuportável que ele passou a pensar em suicídio, mas não deu o passo final porque queria partir “com dignidade”.
Para sua mulher Isabelle, tem sido difícil aceitar isso e ela sente que seria melhor esperar.
“No início ele me disse: ‘Eu vou lutar até o fim, vou fazer todo o esforço para tentar melhorar'”, diz Isabelle, mas ela reconhece que nenhum dos intensos tratamentos a que foi submetido funcionou.
“Chegou o momento de ele acabar com a própria vida, porque já não é mais a sua vida”, diz ela, com resignação. “Ele me disse: ‘Eu me sinto como um cachorro amarrado’. É um pouco desumano.”
Michel estava satisfeito por ter deixado tudo em ordem para a família antes de partir. “Não é o câncer que me leva, sou eu quem decide.”
Às 10 horas da manhã de 23 de abril, depois de passar a noite acordado com a mulher e os filhos, ele morreu em paz.
Foi um momento de recolhimento para o doutor De Locht.
“A imagem da mulher e dos filhos dele chorando vai continuar comigo por uns dias. É algo que realmente me impacta agora.”