Nuvem de poeira ‘Godzilla’: quais os riscos à saúde gerados pelo fenômeno que chega às Américas


Nuvens de poeira originárias do deserto do Saara, no norte da África, geralmente afetam pessoas com problemas respiratórios crônicos; mas, neste ano, elas são mais uma preocupação em meio à pandemia de Covid-19. Enorme nuvem de poeira viaja do norte da África para a América e Europa
NOAA/BBC
Em sua jornada habitual de milhares de quilômetros do norte da África, partículas de poeira do deserto do Saara já chegaram nesta semana ao sudeste do México e a vários países do Caribe.
Todos os anos, mais de 100 milhões de toneladas de poeira são levadas do deserto pelo vento, de acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA, e grande parte chega à Europa e à América.
Segundo Olga Mayol, especialista do Instituto de Estudos de Ecossistemas Tropicais da Universidade de Porto Rico, a nuvem atual apresenta as maiores concentrações de partículas de poeira observadas na região no último meio século.
E, embora seja um fenômeno comum, que até tem efeitos benéficos em ecossistemas como o da Amazônia, este torna-se especialmente preocupante devido aos problemas respiratórios relacionados ao novo coronavírus.
Qual é o perigo?
Turista faz selfie sob nuvem de poeira do Saara que está sobre Cancun, no México, na quinta-feira (25)
Elizabeth Ruiz / AFP
Ao chegar ao território mexicano, o líder da estratégia do governo para a pandemia, Hugo López-Gatell, pediu na quarta-feira à população do sudeste do país que tome medidas de precaução.
“As partículas têm um tamanho entre 2,5 e 10 mícrons, que são as partículas respiráveis. Então, elas podem entrar pelo nariz e pela boca e alojar-se na traqueia, nos brônquios ou até alvéolos dos pulmões”, explicou o epidemiologista.
As nuvens de poeira geralmente afetam pessoas que já têm doenças respiratórias crônicas, como asma, enfisema ou bronquite crônica, que fazem parte da Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC).
E essas pessoas são mais vulneráveis ​​a complicações se pegarem o novo coronavírus.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) explica que o perigo desse fenômeno “reside no conteúdo de bactérias, vírus, esporos, ferro, mercúrio e pesticidas que a poeira carrega”.
É que os ventos no deserto do norte da África não só levantam a areia, mas coletam poluentes quando passam por áreas desmatadas da região, principalmente de países subsaarianos.
“Essas tempestades, quando são capazes de se concentrar e alcançar áreas povoadas na Europa e na América, podem provocar o aparecimento de alergias e crises asmáticas em muitas pessoas”, explica a OMS.
Pessoas com problemas respiratórios ou imunossupressão, que por sua vez são as mais vulneráveis ​​à covid-19, geralmente são as mais afetadas.
“Casos de ‘gripe’ persistente ou alergias sem causa aparente são frequentemente mencionados, o que pode ter sido causado pelo contato com partículas de origem biológica presentes nessas névoas”, diz a OMS.
Homem caminha perto do Castelo de Morro enquanto nuvem de poeira do Saara encobre a cidade de Havana, em Cuba, na quarta-feira (24)
Yamil Lage / AFP
O que é recomendado fazer?
Idealmente, evite a exposição prolongada à poeira do Saara. Portanto, a recomendação é permanecer em ambientes fechados quando essas nuvens estiverem presentes.
O maior cuidado deve ser tomado por pessoas que têm problemas como DPOC, bem como por idosos, mulheres grávidas e crianças, diz a OMS.
Ele recomenda o uso de protetores faciais, como máscaras ou um lenço de pano úmido que cubra completamente o nariz e a boca.
“Se você sentir uma sensação de que há um corpo estranho nos olhos, lave-os com água em abundância. É preferível usar água potável, fervida ou clorada. Lave as mãos antes de iniciar o procedimento”, acrescenta a OMS.
Também é importante cobrir as fontes de água (poços, contêineres ou lagoas) para evitar a contaminação. Umedeça o chão antes de varrer para evitar que a poeira seja lançada de volta no ar.

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‘Sou vitorioso’, um dos funks mais tocados do ano, conta a história real de Lele JP


Letra autobiográfica descreve pobreza, fuga do crime e superação da vida difícil em favela de SP. ‘Funk consciente’ é cantado por MC evangélico de 18 anos; ouça história em podcast. Na nova geração do funk consciente de São Paulo, a música que foi mais longe em 2020 até agora é “Sou vitorioso”. A letra conta boa parte da história real da vida de Alessandro Venâncio Silva, de 18 anos, o Lele JP.
Ouça acima, no podcast G1 Ouviu, a história de Lele JP e da nova leva de MCs que cantam sobre a realidade das favelas de SP.
A parceria com o veterano Neguinho do Kaxeta saiu no final de 2019 e chegou ao 6º lugar nas paradas semanais do YouTube no Brasil.
Várias vidas aos 18 anos
A série “Sintonia”, do diretor de funk Kondzilla, mostra a relação de três jovens da periferia de SP com o funk, as drogas e a igreja evangélica. Lele viveu na pele, ao mesmo tempo, os mesmos dramas dos três personagens.
Lele JP no clipe de ‘Sou vitorioso’
Divulgação
“A gente revolucionou a parada”, ele diz sobre esse novo funk consciente. “Deus colocou os moleques para mudar isso daí.”
Lele passou a infância frequentando a Igreja Evangélica Vales das Bênçãos, do Jardim Peri, Zona Norte. Aos 12 anos, se apaixonou pelo funk e começou a cantar com amigos.
A tal revolução não foi fácil na vida dele. “Fui pai dos 15 para os 16 anos. Não podia depender da minha mãe e do meu pai, porque eles já carregavam uma responsabilidade imensa. Já cuidavam dos meus sobrinhos, de mim, dos meus sete irmãos”, ele conta
O pai adolescente se viu sem saída. “Para um moleque de comunidade, não tem muita opção”, diz Lele. Ele conta que foi procurar trabalho “na boca”. “Fiquei sem chão e minha filha ia nascer. Eu tive que me envolver na ‘vida loca’. Meu maior medo era me prender naquilo.”
Saída pelo funk
A saída para o caminho que ele não queria foi pelo funk, conta Lele. “Um empresário viu um vídeo meu, gostou, e me trouxe para perto”, ele conta.
O hit “Sou vitorioso” conta os três capítulos: a dificuldade (“A marmita era 15 / Não tinha um real no bolso”), a escolha errada (“Os menor sem opção / Solução é ir pra boca”) e a superação (“O jogo virou / Deus abençoou / Todos têm o livre arbítrio / Eu escolhi ser cantor”).
“Muitas pessoas hoje estão com um ponto de interrogação: o que eu vou fazer? Essa música é um testemunho de que Deus é a solução. E serve como inspiração”, diz Lele.
A filha dele, Ana Clara, já tem 2 anos. Na semana passada nasceu o segundo filho, Ravi.
“Comunidade não é um lugar muito visto. Poucos sabem o que se passa ali. O que precisa é projeto social. Oportunidade para a molecada”, conclui o cantor de “Sou vitorioso”.
MC Lele JP com a filha, Ana Clara
Reprodução / Instagram do cantor
No coração da comunidade
“Sou vitorioso” foi abraçada na cena do funk e é um fenômeno na periferia. Mas não chegou à classe média como outros hits de funk. Ela é muito ouvida no YouTube, plataforma gratuita, mas não se destaca no Spotify, por exemplo, serviço de streaming pago.
“Muitas pessoas estão se identificando pois passaram por isso. E muitas pessoas no momento estão com um ponto de interrogação. O que eu vou fazer? Essa música é um testemunho de vida. Creio que ela está tendo essa proporção por isso”, diz Lele.
Lele saiu do JP, o Jardim Peri, e agora mora sozinho em Pirituba. “Tudo isso é novidade. Nem sempre tenho minha mãe e meu pai para ficar aconselhando. Então estou batendo cabeça e aprendendo.”
‘Forrest Gump’ consciente
A letra autobiográfica de “Sou vitorioso” também exalta o parceiro da própria faixa: “O Lele era mente / Se espelhava no Kaxeta / No funk linha de frente”.
Neguinho do Kaxeta, 34 anos, é uma espécie de versão funkeira de Forrest Gump – o personagem de Tom Hanks que virou uma testemunha ambulante da história dos EUA.
Kaxeta viveu a primeira fase do funk consciente de SP, na Baixada Santista, no início dos anos 2000. Fez sucesso na onda seguinte, da ostentação, com versos sobre luxo. E também seguiu na fase anterior, das letras sexuais. Agora, volta ao consciente como referência para os novinhos.
“O funk consciente está na raiz da periferia, e acho que as pessoas estavam sentindo falta disso”, opina. “Essa molecada vai ficar, porque tá fazendo um funk que a periferia gosta. Mas eu sempre passo para eles que para ter a moto, tem que trabalhar”, diz o professor consciente.
Lele JP e Neguinho do Kaxeta em gravação de DVD
Reprodução / Instagram / Lele JP

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