Aprendizado, interação social e diversão ajudam a proteger o cérebro


Quem tem reserva cognitiva consegue lidar com as alterações que surgem com o envelhecimento e preservar a capacidade mental

A Doença de Alzheimer é um dos grandes fantasmas contemporâneos. Vai se “instalando” sorrateiramente 20 anos antes de se manifestar e um dos grandes desafios da ciência é buscar ferramentas não só para detectá-la em estágios iniciais como também para retardar seu desenvolvimento. Por enquanto, não há nada de concreto no horizonte, mas o assunto é prioridade nas pesquisas de ponta. O que surpreende médicos e cientistas é que algumas pessoas conseguem lidar com as alterações que surgem com o envelhecimento e preservar a capacidade do seu cérebro: esses felizardos têm a chamada reserva cognitiva.
Yaakov Stern, professor do Departamento de Neurologia e Psiquiatria da Universidade de Columbia
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Yaakov Stern é professor do Departamento de Neurologia e Psiquiatria da Universidade de Columbia, assim como do Taub Institute, ligado à instituição e dedicado à pesquisa da Doença de Alzheimer e do envelhecimento do cérebro. Referência mundial em reserva cognitiva, ele foi um dos convidados da 15ª. edição do Congresso do Cérebro, Comportamento e Emoções, realizado em Gramado entre 20 e 23 de junho. No evento, explicou que autópsias revelaram cérebros de idosos onde havia a patologia, ou seja, uma doença, mas sem manifestação clínica dessa lesão. Trocando em miúdos: pessoas com reserva cognitiva não apresentavam sintomas apesar de terem Alzheimer. Como isso era possível tornou-se sua principal linha de pesquisa.
O mais interessante – e que serve de aviso para todos – é que a vantagem biológica de uma genética favorável não determina 100% desse “bônus” dos indivíduos. Uma parte dessa reserva cognitiva pode ser construída. Por exemplo, quanto maior o nível de educação, menor o risco de desenvolver a doença. “Usamos a educação formal porque é mais fácil medir os anos de escolaridade”, afirmou Stern, “mas podemos incluir outros tipos de educação nesse espectro de aprendizado”. Outros fatores de proteção: quanto maior a complexidade da ocupação da pessoa, mais protegida ela estaria, assim como o seu nível de interação social. Stern acrescentou as atividades de lazer nesse pacote, mostrando que divertir-se é fundamental, e enfatizou a relevância de se engajar numa atividade e de se relacionar socialmente: “ter um propósito”, resumiu.
“Viver num ambiente de aprendizado contínuo é muito importante”, declarou, “e é possível continuar desenvolvendo a reserva cognitiva, isso faz parte das estratégias do envelhecimento ativo”. Bem-humorado, disse que, na vida adulta, deveríamos continuar seguindo os conselhos de nossas mães, fazendo exercício e mantendo uma dieta saudável. Contou inclusive que vem se dedicando a aulas de tai chi chuan, que trabalha não só o físico, mas também a mente – “ainda sou péssimo aluno”, reconheceu. E acrescentou que, como não há uma droga que previna ou retarde a marcha da doença, devemos nos dedicar a fortalecer nossa reserva cognitiva. Portanto, mãos à obra!

Romulo Fróes nega a canção no tempo experimental do ‘Disco das horas’


“Não vamos deixar melodias / … / Não vamos deixar que nos leiam / Nem vamos fazer com que creiam / Em nós”, avisa Romulo Fróes, em cadência não exatamente bonita de samba, em versos da composição intitulada Sexta hora. Sem a preocupação de deixar melodias grudadas na memória popular, o artista paulistano expande em O disco das horas (YB Music / Circus) o arco experimental de obra que sempre seguiu passos tortos no caminhar imprevisível.
Através d’O disco das horas, o cancioneiro autoral do artista ganha mais 12 títulos sequenciais em que cada música tem o nome de uma hora específica. É nesse tempo próprio que se move o álbum nascido em 15 de janeiro de 2017, dia em que Fróes recebeu e-mail do poeta Nuno Ramos com oito letras criadas para serem musicadas pelo compositor, revelado há 14 anos com o álbum Calado (2004).
A essas oito letras, vieram mais quatro e assim surgiu o repertório do conceitual O disco das horas, completado com uma 13ª música escrita por Nuno, mas excepcionalmente musicada por Clima.
Capa do álbum ‘O disco das horas’, de Romulo Fróes
Divulgação YB Music / Circus
Como Romulo Fróes ocupa atualmente na cena paulistana o lugar de desassossego que era preenchido na década de 1980 por compositores vanguardistas como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção (1949 – 2003), as 13 músicas do álbum soam fora da ordem mundial do que se convencionou chamar canção.
“E eu virei esse barro sonoro / Esse samba subterrâneo / Esse chão com canção”, se caracteriza o próprio Romulo em versos da Quinta hora, divididos com Juliana Perdigão, instrumentista e cantora adicional de músicas como a Segunda hora. Neste álbum produzido pelo próprio Romulo Fróes com Thiago França (nome fundamental para a construção da arquitetura erguida com vários instrumentos de sopros) e Cacá Lima, a canção é negada na forma e no discurso.
Romulo Fróes
Divulgação / Luan Cardoso
“Não temos hino”, sublinha Romulo em verso da Décima primeira hora, iniciada com o toque sobressalente do violão do artista até ir sendo encorpada com dissonâncias polifônicas. A poética afetiva das letras situa um casal imerso em território particular de gozo, alheio aos tremores e gemidos do mundo exterior.
Esse universo particular é embasado pelo “barro sonoro” urdido pela big-band formada pelos 10 músicos que tocam no disco. São instrumentistas do calibre indie contemporâneo de Rodrigo Campos (guitarra), Marcelo Cabral (baixo), Amílcar Rodrigues (flugelhorn e trompete), Pedro Gongom (bateria), Maria Beraldo (clarone), Allan Abbadia (trombone), Filipe Nader (saxofone) e Juliana Perdigão (clarone e clarinete), além de Romulo (violão) e de Thiago França (saxofone, flauta e regência).
O “barro sonoro” d’O disco das horas é parte tão indissociável do conceito do álbum que a voz de Romulo Fróes é ouvida somente quase aos dois minutos da primeira das 13 faixas / horas.
Romulo Fróes
Divulgação / Luan Cardoso
Mesmo para os padrões experimentais que regem a obra fonográfica de Romulo Fróes, O disco das horas se revela um dos álbuns mais difíceis e arrojados desse artista vocacionado mais para a composição do que para o canto. Não atinge o grau de excelência dos dois anteriores álbuns de estúdio do artista – Rei vadio – As canções de Nelson Cavaquinho (2016) e O meu nome é qualquer um (2016), ambos lançados há dois anos e ambos antológicos, sendo que o segundo foi composto e gravado com César Lacerda – mas cumpre a função de experimentar e buscar novas formas de canção.
Não, O disco das horas não irá deixar melodias e tampouco hinos, mas a inquietude de um artista que futuramente será mais ouvido e mais apreciado por gerações que ainda estão por vir. (Cotação: * * * 1/2)

Editoria de Arte / G1