Orquestra do Mundo acerta o passo contemporâneo do frevo


‘Big-band’ lança disco produzido por Pupillo com elenco que inclui Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Céu, Duda Beat, Otto e Tulipa Ruiz. Capa do álbum da Orquestra Frevo do Mundo
Divulgação
Resenha de álbum
Título: Orquestra Frevo do Mundo
Artistas: Orquestra Frevo do Mundo – com Almério, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Céu, Duda Beat, Henrique Albino, Roberto Barreto, Siba e Tulipa Ruiz
Gravadora: Edição independente
Cotação: * * * 1/2
♪ Nem tudo é frevo no repertório selecionado para o disco lançado pela Orquestra Frevo do Mundo neste mês de fevereiro. Mas tudo vira frevo sob a batuta de Pupillo, produtor e idealizador (com Marcelo Soares) desse disco feito para reapresentar o ritmo dominante do Carnaval de Pernambuco em passo pop que possa extrapolar o circuito da folia após o fim da temporada de festa.
Composta por Otto com Dengue e lançada em esquema noise no primeiro álbum solo de Otto, Samba pra burro (1998), a Ciranda de maluco – por exemplo – ganha o tom frenético do frevo em gravação feita pelo mesmo Otto com direito a solo da guitarra baiana de Roberto Barreto, músico da BaianaSystem. A ciranda de Otto cai no frevo transitando com naturalidade na ponte que liga Recife (PE) e Olinda (PE) a Salvador (BA) no período carnavalesco.
A abordagem da Ciranda de maluco sobressai entre os oito fonogramas inéditos que compõem o álbum Orquestra Frevo do Mundo, gravado com elenco estelar. Ela é tarja preta (Arnaldo Antunes, Betão Aguiar, Luê, Felipe Cordeiro e Manoel Cordeiro, 2013) também se destaca na reciclagem feita por Arnaldo Antunes com a energia do frevo e sem a conexão original com os sons do norte do Brasil evidenciada na gravação original feita pelo mesmo Arnaldo para o álbum Já é (2013).
Otto sobressai no disco com regravação da ‘Ciranda de maluco’, música que lançou em álbum solo de 1998
José de Holanda/ Divulgação
Nem todas as faixas soam tão inventivas. Por mais que a disposição dos sopros da Orquestra nos arranjos exponha certas particularidade da big-band formada com músicos do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Pernambuco, é difícil seguir Bloco do prazer (Moraes Moreira e Fausto Nilo, 1979) na voz de Duda Beat sem lembrar da gravação mais famosa do frevo, feita por Gal Costa em 1982 com antológico arranjo inevitavelmente evocado no registro da Orquestra.
Embora encorpada com peso roqueiro, a pegada original de Frevo mulher (Zé Ramalho, 1979) também se mantém quase intacta na gravação feita com Tulipa Ruiz em registro vocal menos caloroso do que o habitualmente posto nesse contagiante frevo lançado na voz de Amelinha há 41 anos e quase sempre rebobinado nos shows de Elba Ramalho.
Céu e Caetano Veloso conseguem sustentar a extroversão d’A filha da Chiquita Bacana (Caetano Veloso, 1975) sem atenuar a sensação de que Céu não era a intérprete mais indicada para dividir a interpretação da marcha-frevo por ser cantora sem aptidão para animar bailes e blocos.
Tulipa Ruiz é a intérprete de ‘Frevo mulher’, ouvida no disco com pegada similar à da gravação original
Divulgação / One RPM Studios
Siba também parece sem energia para fazer desabrochar toda a beleza do frevo-canção Linda flor da madrugada (Capiba, 1941). Já Almério faz de Vida boa (Fábio Trummer, 2006), frevo lançado pela banda Eddie, plataforma para a veiculação de oportuno discurso militante.
Expoente da nova geração de músicos pernambucanos, Henrique Albino – instrumentista polivalente ligado tanto ao frevo quanto ao jazz – dá o toque exuberante de Último dia (Levino Ferreira, 1951) no arremate do disco, mostrando que o frevo pode ser tanto de Pernambuco como do mundo quando se acerta um passo contemporâneo que preserva as tradições do gênero enquanto segue adiante.