Onde ‘Professor Polvo’ aprendeu? Estudos de brasileira figuram no filme que levou o Oscar


Tatiana Leite é referência mundial e sua pesquisa aparece em cena de ‘Professor polvo’. Ela fala sobre características do molusco no filme e além dele: esperto, sonhador e canibal. Pesquisa de brasileira na tela do mergulhador Craig Foster em cena do filme ‘Professor Polvo’
Reprodução / Netflix
No filme “Professor Polvo”, que ganhou o Oscar de melhor documentário neste domingo (25), um mergulhador fica tão fascinado por um molusco que resolve pesquisar tudo sobre ele. Entre as referências que ele encontra – e aparecem na tela – está o nome da brasileira Tatiana Leite.
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Tatiana estuda polvos há 25 anos. Se o sul-africano ficou um ano atrás de um molusco, a professora do departamento de Zoologia e Ecologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) passou uma década só em Fernando de Noronha para fazer mestrado e doutorado sobre essas espécies.
A cientista potiguar falou com o G1 sobre suas impressões do filme e sobre características dos polvos além das que aparecem no documentário. Veja os principais pontos:
A inteligência e a capacidade dos polvos de criar relações com humanos não são exagero do filme. Ela passou por situações em que os polvos pareciam estudá-la. Tatiana já até desistiu de tirar um indivíduo do mar e coletá-lo para pesquisa por ele ter se aproximado demais dela.
Mas que aspecto do filme não é bem assim na realidade? Tatiana diz que a cena em que um suposto filhote da polvo fêmea é encontrado é altamente improvável.
E o que há além do filme? Em uma cena, Craig se pergunta se os polvos sonham. Tatiana acaba de participar de uma pesquisa que indica que eles são, sim, capazes de sonhar.
Mas os moluscos sonhadores também são motivo de pesadelo entre eles. Isso a Netflix não mostra: eles são altamente competitivos e podem praticar o canibalismo.
Em resumo, Tatiana acha que o filme faz um ótimo retrato desse mundo dos polvos, e que ele é importante para atrair a atenção para espécies marinhas que as pessoas viam como distantes (“nem as espécies terrestres a gente trata bem…”, Tatiana lamenta).
A pesquisadora brasileira Tatiana Leite, que estuda polvos há 25 anos
Arquivo / Projeto Cephalophoda
Doutora polva
A brasileira tem como mentora Jennifer Mather, pesquisadora da Universidade de Lethbridge, no Canadá. Jennifer foi consultora científica de “Professor Polvo”. “Ela foi a minha coorientadora no doutorado, passei um ano com ela no Canadá. Trabalhamos juntas em alguns artigos”, diz Tatiana.
“Ela é uma senhora de 74 anos que mergulha até hoje atrás de polvos. Eu segui essa linha dela e trouxe para o Brasil”, diz a brasileira. “Foi quando passei dez anos em Noronha. Lá aprendi a achar os rastros dos polvos para encontrá-los e me aproximar”, ela diz, descrevendo processo semelhante ao do filme.
“Inclusive Craig dooou fotografias da polva para pesquisas nossas sobre padrões corporais. A Jennifer está vindo para o Brasil daqui a um ano”, conta a parceira da UFSC. Tatiana é coordenadora do Projeto Cephalophoda, rede de pesquisadores sobre polvos no Brasil e no mundo.
Veja o trailer de ‘Professor polvo’
Polvo sonhador
A cena em que Craig se questiona se o polvo dorme e sonha marcou Tatiana, pois ela fez parte de uma grande pesquisa recente que indicou que o “polvo sonhador” é realidade.
A pesquisa tem como autora principal Sylvia Medeiros, e também tem participação do neurocientista Sidarta Ribeiro, ambos do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
“A pesquisa demostra pela primeira vez que o invertebrado é capaz de ter um sono ativo. O período do sono onde os vertebrados, numa analogia, tem os sonhos, e quando se concretizam aprendizados e memórias”, explica Tatiana.
Mas o que demonstra, na prática, a possibilidade do sonho do molusco? “Foram dois sinais importantes: ele entra em sono muito profundo, não reage a estímulos, nem a som nem a imagem. E ao mesmo tempo estava mudando de cor muito rapidamente, e a pupila se movendo rápido”, ela diz, explicando que são os mesmo sinais desse estágio de sono em humanos.
Tatiana Leite em pesquisa sobre polvos
Arquivo / Projeto Cephalophoda
Filhote ou fake?
Se, em alguns trechos, os polvos podem ser ainda mais surpreendentes do que no filme, em outra cena importante há uma hipótese improvável. O mergulhador acha um filhote de polvo e viaja na suposição de que ele pode ser filho da fêmea que ele acompanhou durante um ano.
“Essa espécie tem uma estratégia de dispersão dos ovos. Eles ficam na coluna de água de um a três meses. A chance de ele aparecer no mesmo lugar é muito baixa”, ela explica.
O polvo não é bobo – nem manso
“Professor Polvo” ganhou o Oscar de melhor documentário
Divulgação
Por fim, o filme não explora um lado sombrio dos incríveis polvos. “Nos meus estudos eu já vi canibalismo entre espécies diferente e indivíduos da mesma espécie, dos maiores com os menores”, diz Tatiana.
Os polvos são animais escaldados e parecem saber desse risco: “Eles começam em tocas próximas e depois se afastam um dos outros, para evitar o canibalismo, além das brigas de competição, machos brigando entre eles. Os dominantes podem atacar”, ela diz.
Até nas brigas os polvos têm um comportamento fascinante. “O interessante que a gente viu é que antes de se atacar existe uma briga de cores.” Os mais dominantes têm as cores mais escuras e ficam com essa coloração diante do outro, diz Tatiana.
Entre os projetos dos quais ela participa está a tentativa de demonstrar a autoconsciência dos polvos. Mas ela se importa com a consciência humana também: “Esse Oscar foi muito bom para sensibilizar as pessoas sobre o mar, e para fazer as pessoas olharem os seres diferentes da gente com empatia”.