Obra de Roberto Carlos sintetiza a alma de um Brasil conservador, sentimental e contraditório


♪ ANÁLISE – Roberto Carlos chega hoje aos 80 anos com obra indestrutível na memória musical brasileira. Poucos compositores no Brasil e no mundo são donos de cancioneiro do qual se pode tirar – sem esforço – 80 músicas cantaroláveis pelo público. No caso de Roberto, um público que viveu nos anos 1960, 1970 e 1980 – décadas em que os lançamentos dos álbuns anuais do cantor mobilizavam a audiência nacional.
Antes da pandemia, os shows feitos em ginásios lotados pelo Brasil e em vários países atestaram que, mesmo sem a evidência obtida nos áureos tempos, o artista continua popular e segue conectado com o público que lhe permanece fiel. Um feito, já que poucos cantores atravessam seis décadas de carreira em plena atividade, sob os holofotes, com casas cheias.
Se a tradição de lançamentos de álbuns anuais com repertório inédito foi encerrada em 1997, a agenda de shows continuou movimentada até a paralisação do universo pop mediante a proibição de espetáculos com público presencial.
Para muitos, Roberto Carlos ainda é o Rei. Como então explicar o que soa inexplicável à luz da razão? Em ensaio de 1979, o compositor José Miguel Wisnik já acusou o despreparo da crítica musical para analisar Roberto Carlos.
A sentença fazia sentido naquela época, em que, mesmo enfileirando sucessos nas paradas, ou talvez por isso mesmo, Roberto Carlos tinha a obra minimizada pelas elites culturais, nichos dos críticos. Talvez ainda faça sentido hoje, 19 de abril de 2021, dia do 80º aniversário do artista de origem capixaba e dimensão internacional.
Roberto Carlos, em foto de 1961, ano do renegado primeiro álbum, ‘Louco por você’
Arquivo Nacional
É difícil falar de Roberto Carlos sem falar dos vícios e virtudes do Brasil. Porque, se é possível explicar Roberto Carlos, talvez seja pela análise da obra, síntese da alma de um Brasil tão conservador quanto sentimental. Um Brasil tão moralista quanto impregnado de sensualidade. Um Brasil de fé professada em cultos de diversos credos, mas oficialmente católico. Um Brasil em tese liberal que pode se posicionar a favor de retrocessos. Um Brasil contraditório.
As canções de Roberto tocam o coração do povo – e aí talvez resida parte do desprezo destinado a essas canções pelas elites culturais de um Brasil rachado pelo apartheid social. Com alta dose de preconceito social, houve quem tenha chegado a caracterizar, ao discorrer sobre disco dos anos 1970, o público consumidor da música de Roberto Carlos como “Zé ninguém”.
Em um Brasil que nega cotidianamente a chance de todo mundo ser alguém, um grande cantor popular como Roberto Carlos talvez represente uma ameaça às soberanias das elites culturais. Porque ele está aí, firme e forte, entronizado na preferência popular do brasileiro que o acompanhou na segunda metade do século XX.
Nos anos 1960, Roberto Carlos simbolizou a rebeldia juvenil propagada por rocks de motores alavancados por automóveis possantes, dirigidos na alta velocidade das paixões primaveris. No reino do iê-iê-iê, Roberto comandou de agosto de 1965 a janeiro de 1968 a Jovem Guarda, movimento pop pretensamente contestador, mas desde o início encampado pelo sistema.
O então Rei da juventude ajudou a mudar o comportamento de jovens tachados de “alienados” por ouvirem rock e a música pop exportada para o Brasil pelo mundo então dominado pelos Beatles.
Mesmo no reinado da rebeldia juvenil, os códigos da moralidade jamais foram aviltados por Roberto, encarnação do bom moço de olhar invariavelmente triste estampado nas capas dos discos. Sem a fama de mau alimentada por Erasmo Carlos, parceiro na composição da maior parte da grande obra, Roberto personificava o amante apaixonado que, sensível, sofria por amor.
Finda a Jovem Guarda, Roberto orquestrou transição inteligente para o mundo adulto. A partir de 1969, o cantor flertou com o soul e o funk em momentos inspirados da discografia, mas, acima de tudo, investiu nas baladas românticas, tônica da discografia dos anos 1970.
Nesta década, o romantismo do repertório de Roberto Carlos ficou progressivamente mais sensual – mas sem jamais afrontar a moral e bons costumes defendidos pelos súditos, conservadores como o Rei que idolatram com inabalável fervor – e passou a conviver com manifestações da fé católica, com canções em defesas do meio ambiente e com algumas incursões pelo repertório de compositores associados a MPB, sobretudo do simpatizante Caetano Veloso.
Sim, os discos de Roberto pareceram seguir uma fórmula a partir de 1971 – ano do álbum definidor da imagem adulta do artista – mas nem por isso deixaram de apresentar grandes canções. Apontar decadência nessa fase da obra do cantor é a maior injustiça praticada contra a obra fonográfica de Roberto na década de 1970.
Até 1982, era fácil identificar algumas boas músicas em cada álbum do artista. Não raro, havia uma ou duas grandes canções. O declínio na composição desse cancioneiro ficou evidente somente a partir da segunda metade dos anos 1980 e foi amplificado nos irregulares álbuns da década seguinte. Ainda assim, sempre houve, aqui e ali, lampejos da inspiração singular de outrora.
Roberto Carlos tem carreira pautada pela extrema coerência no trato de temas como amor, sexo e religião
Zé Paulo Cardeal / TV Globo
Sem se abalar com os ataques, justos ou injustos, Roberto Carlos seguiu impávido pela estrada que pavimentou com extrema coerência ao tratar de temas como amor, sexo e religião. O conservadorismo tão denunciado pelos detratores talvez tenha sido o combustível que impediu o cantor de perder a direção nessa estrada.
Mesmo tendo perdido a conexão com as gerações do Brasil do século XXI, Roberto Carlos é a voz de um Brasil que se acomoda no berço das tradições. Voz excepcional, diga-se, pois, não fosse o grande compositor que é, Roberto Carlos poderia ter se firmado somente como cantor de afinação e emissão exemplares.
E o fato é que qualquer (tentativa de) explicação soa pequena diante da grandeza da obra de Roberto Carlos. Talvez esse cancioneiro dialogue com o inconsciente coletivo do Brasil, talvez a força resida tão somente no poder aliciante de melodias letradas com versos entendidos por gente de todas as classes sociais.
Seja como for, a obra de Roberto Carlos está para sempre entranhada na memória e na história do Brasil.