‘O último duelo’ traz impressionante drama épico dirigido com maestria por Ridley Scott; g1 já viu


Superprodução de época tem elenco excelente, com destaque para Jodie Comer, da série ‘Killing Eve’. Matt Damon e Ben Affleck, dois dos atores, também assinam o roteiro. O diretor Ridley Scott estava devendo um bom trabalho desde que mandou Matt Damon para o planeta vermelho em “Perdido em Marte”, em 2015. Isso porque, já naquela época, seus trabalhos não tinham mais o mesmo vigor ou criatividade dos bons tempos de “Gladiador”, “O Gângster” ou do clássico “Blade Runner”.
Mas parece que Scott pagou as suas dívidas que tinha com o bom cinema ao rodar “O Último Duelo”. A estreia no Brasil é nesta quinta-feira (14).
Assista ao trailer do filme “O último duelo”
Ambientada na França do século 19 e inspirada em uma história real, a trama é centrada (inicialmente) em Jean de Carrouges (Matt Damon). Ele é um cavaleiro da Normandia, norte da França, que tem como amigo o escudeiro Jacques Le Gris (Adam Driver, o Kylo Ren dos últimos filmes da saga “Star Wars”).
Só que, aos poucos, os dois vão se afastando porque Le Gris cai nas graças do Conde Pierre d’Alençon (Ben Affleck, de “Argo”), primo do rei da França, e ganha cada mais espaço na corte.
Porém, a amizade realmente termina quando, ao voltar de uma missão na Escócia, Jean é informado pela esposa, Marguerite (Jodie Comer, da série “Killing Eve”) de que Le Gris invadiu seu castelo e a estuprou.
O escudeiro nega a acusação e, devido à insistência de Marguerite em não se calar, o cavaleiro decide desafiar o ex-amigo a lutarem num duelo até a morte. Caso ele vença, tudo será relevado. Mas se perder, sua esposa sofrerá graves consequências.
Adam Driver vive Jacques Le Gris em “O Último Duelo”
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A verdade (não) está lá fora
O que salta aos olhos em “O Último Duelo” é a maneira que foi escolhida para contar a história, de forma instigante e incrivelmente hipnótica.
O roteiro, escrito por Nicole Holofcener (“Poderia me Perdoar?”) e os astros Matt Damon e Ben Affleck (que já ganharam um Oscar como roteiristas de “Gênio Indomável”), é inspirado no livro de Eric Jager.
São três atos para discutir a verdade do que acontece, seja pelos olhos de Jean, de Jacques e de Marguerite. Fica a questão: será que estariam mostrando tudo como de fato aconteceu?
“O Último Duelo”, de Ridley Scott, possui cenas épicas e grandiosas
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A partir dessa proposta, Scott se esbalda, mostrando ser um excelente diretor de atores. Ele recria cenas várias vezes, mas com detalhes que fazem a diferença em relação à história.
Por isso, ele faz com que seu elenco se esforce para tornar coerentes as mudanças na narrativa e demonstrar o que seus personagens realmente sentiram em determinados momentos.
Assim, um deles pode não estar sendo totalmente honesto ou simplesmente vendo a situação da forma que mais lhe agrade.
Isso gera um fascinante exercício de interpretação para o público. Quem for ver o filme não deve nem sentir as 2 horas e 33 minutos do filme, diante de uma experiência pouco vista nas produções atuais.
Épico durante pandemia
Outra coisa que impressiona em “O Último Duelo” está no fato de que, assim como “Cry Macho”, a produção ter sido feita durante a pandemia.
Mesmo com as dificuldades impostas pela Covid-19, há brilho na reconstituição da época e nos figurinos que retrataram bem o período da trama, com belíssimas locações da Irlanda se passando pela França do século XIV.
Vale destacar ainda as muito bem filmadas cenas de batalhas, principalmente a luta entre os dois ex-parceiros, que dão título ao filme. Neste aspecto, Scott só reforça as suas qualidades em dirigir cenas do tipo, como já mostrara em “Gladiador” e “Falcão Negro em Perigo”.
Atriz rouba filme de astros
Jodie Comer vive Marguerite de Carrouges em “O Último Duelo”
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Mas o que realmente torna “O Último Duelo” um filme impressionante é a qualidade das interpretações de todo o elenco. Matt Damon e Adam Driver se saem muito bem com seus papéis e não caem nas armadilhas das ambiguidades de seus personagens.
Até mesmo Ben Affleck, que tem dificuldades em interpretar tipos vilanescos, consegue sobressair com o seu conde ganancioso e amoral. O visual dele pode confundir um espectador mais distraído.
Porém, o grande nome do filme é mesmo Jodie Comer. Aos poucos, ela vai roubando o filme para si e se torna a verdadeira protagonista da trama.
Ben Affleck numa cena do filme “O Último Duelo”
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A partir do momento que a história se volta para suas questões, principalmente em relação às suas tentativas de ser ouvida e respeitada sobre a violência que declara ter sofrido, é impossível não reconhecer o incrível trabalho da atriz.
Ela cria uma real empatia e faz com que o público seja seu cúmplice, desejando que nada de mal lhe aconteça, ainda mais num período em que as mulheres eram tão diminuídas.
Com “O Último Duelo”, Ridley Scott volta a empolgar como cineasta. Ao mesmo tempo, ele levanta discussões que não perderam a atualidade, tanto para homens como para mulheres, como chegou a fazer com “Thelma e Louise” (1991).
O filme se revela uma grata surpresa e tem tudo para se consagrar como um dos melhores de 2021. E, quem sabe, ser lembrado nas premiações. Na parte técnica, mais provavelmente, mas talvez até na parte artística.