O som de ‘Soul’: como foi criada a trilha sonora inovadora que é favorita ao Oscar


Podcast fala com Jon Batiste, estrela do jazz que compôs trilha da animação da Pixar com Trent Reznor. Trabalho se dividiu entre a Terra e o além, levou dois anos e teve improvisos; conheça. A trilha sonora de “Soul” é tão peculiar quanto a animação da Pixar. Suas músicas nasceram em dois universos paralelos. Um dos criadores, o jazzista Jon Batiste, é figura importante na história recente de Nova York na ficção e na vida real.
O podcast G1 Ouviu conta a história de Jon Batiste e da trilha-sonora que é apontada como favorita para o Oscar 2021. Ouça acima.
Jon Batiste tem 34 anos, nasceu na Louisiana e é um grande nome do novo jazz americano. Ele é o bicho papão das premiações de trilha em 2021. “Soul” já levou essa categoria no Globo de Ouro, no Critic’s Choice, no Bafta, entre outros.
Cena de ‘Soul’
Divulgação
Ele não é a única estrela da trilha. O trabalho tem duas partes: Jon fez a metade de jazz. O complemento new age foi criado por Trent Reznor, lider do Nine Inch Nails e bem ativo no cinema – já ganhou um Oscar por “A Rede Social” (2010).
O filme conta a história do Joe, um pianista de jazz que estava quase desistindo da carreira quando encontra a chance dos sonhos de tocar com uma estrela chamada Dorothea Williams. Mas antes disso ele cai num buraco ao atravessar a rua.
A trilha dupla reflete os dois universos do filme, entre o plano terreno e o sobrenatural – o jazz do Jon Batiste embala a vida na Terra e a new age do Trent Reznor toca no além.
Jon Batiste
Divulgação
Jon conta que o trabalho durou dois anos e não tinha um caminho pronto. Muitas vezes eles faziam a música antes de a cena ser escrita – e a partir da trilha eles animavam os personagens. Às vezes, adaptavam o som a ideias de animação.
Foi um trabalho de colaboração e improvisação, como no jazz.
O trilheiro fez ponta de roteirista. “Na primeira cena tem um diálogo que eu criei. Quando o Joe está falando com a banda da escola, eu escrevi aquilo como um jeito de mostrar como os meus professores falavam comigo”, ele conta.
O músico explica que, assim como no filme, o além e a Terra se misturavam um pouco. “A gente se falava e escutava a música um do outro; às vezes trabalhávamos juntos.’
Jazzista, astro de TV e ativista
A grande referência de Jon Batiste é Spike Lee. Ele trabalhou na trilha e atuou em “Verão em Red Hook”, de 2003. O músico cita outros dois filmes do cineasta como referências: “Mais e melhores blues”, de 1990, e “A hora do show,” de 2000 – ambos com interseção entre cinema e música.
A influência do Spike Lee tem tudo a ver com sua a história do músico e ativista. No ano passado, Jon entrou com tudo nos protestos antirracistas do Black Lives Matter Ele foi para a rua com instrumento musical na mão e virou líder de várias manifestações em Nova York.
Jon Batiste comanda protesto antirracista em Nova York em 2020
Reprodução / YouTube
Jon circula bem entre os artistas politicamente ativos nos EUA. Além de ser um dos principais músicos da nova cena do jazz, ele comanda a banda do talk show de Stephen Colbert, que se tornou um dos maiores críticos do governo Trump.
O músico aproveitou o reconhecimento com o programa, as trilhas e os discos para ajudar nos protestos. Até lançou uma música para as manifestações, “We Are”, que deu nome ao seu disco mais recente.
Dá para achar vídeos de Jon Batiste com alto-falante em uma mão, keytar na outra, puxando “Empire State of Mind” no protesto. “Em 2020 eu emergi como líder no meu país”, ele diz, sem falsa modéstia.
“Descobri que a música pode juntar as pessoas de um jeito que nada mais pode. A música e as artes são muito importantes, particularmente quando o país está tão dividido”, ele defende
Além de protestar, ele quer vir ao Brasil. “Eu fui convidado para tocar com o Hermeto Pascoal”, ele conta. Jon elogia o brasileiro e diz que o show vai acontecer quando a pandemia passar.
“Eu amo Caetano Veloso, amo Antônio Carlos Jobim, amo Anitta. Eu gosto de tudo isso”, diz o eclético jazzista.
Assista ao trailer de ‘Soul’