O risco de desumanizar o paciente com demência



O geriatra Allen Power diz que, ao receber o diagnóstico, a pessoa passa a ter todas as suas manifestações associadas à doença
O lado sombrio do bônus da longevidade é o aumento do número de casos de demência. Atualmente, cerca de 50 milhões de pessoas no mundo sofrem com a doença, mas a expectativa é de que esse total triplique até 2050. O quadro não é diferente no Brasil, onde 55 mil novos casos são diagnosticados todo ano – os atuais 1.4 milhão de brasileiros com a enfermidade serão cerca de 6 milhões em 2050.
Por isso é tão importante o trabalho do geriatra norte-americano Allen Power. Autor de best-sellers sobre o tema, como “Dementia beyond disease” e “Dementia beyond drugs” (respectivamente, “Demência além da doença” e “Demência além das drogas”), ele se dedica ao que chama de “missão”: ser um educador com o objetivo de transformar os modelos de abordagem e tratamento existentes. Sua trajetória paralela como músico e compositor acabou se fundindo com a atividade médica: tem inclusive uma canção, intitulada “If you don´t mind” (“Se você não se importa”), dedicada à autonomia dos idosos.
O geriatra e músico Allen Power, autor dos best-sellers “Dementia beyond disease” e “Dementia beyond drugs”
Divulgação
Os argumentos de Allen Power jogam uma luz potente sobre o processo de desumanização a que os pacientes com demência são submetidos. “Por que achamos que resolvemos tudo com medicação?”, provoca. E vai além: “imagine uma pessoa que queira deixar um local por qualquer motivo que seja. Talvez porque tenha um compromisso, queira se exercitar ou mesmo porque não lhe agrada ficar ali. Qual é a reação deste indivíduo ao se deparar com uma porta trancada? Não pensamos nisso, mas é o que normalmente fazemos com um paciente com demência. Trata-se de uma solução que funciona, por exemplo, para a equipe de profissionais de uma instituição de saúde, mas não para o doente. Na verdade, só aumenta seu estresse e ansiedade”.
Na sua opinião, ao receber um diagnóstico de demência, a pessoa passa a ter todas as suas manifestações associadas à doença: “na minha experiência, quase sempre a angústia do paciente está relacionada a outros fatores, como necessidades não atendidas ou alterações no seu entorno. A demência afeta a capacidade de comunicação, mas raramente é a causa desse estresse. Todos nós nos zangamos, ficamos tristes, frustrados ou ansiosos, mas indivíduos com demência ‘apresentam comportamentos’. Em vez de buscarmos as causas reais, optamos por medicamentos para controlar esse ‘comportamento'”.
O geriatra enfatiza que, mesmo num estado de declínio cognitivo, as pessoas necessitam de um ambiente acolhedor que as ajude a ter algum tipo de engajamento ou senso de propósito. “O modelo adotado nas instituições falha porque esvazia a identidade, as conexões”, afirma. Ele alerta para a urgência de repensarmos esse padrão, sob pena de ele se tornar uma das grandes vergonhas da medicina moderna.