O encontro entre um mochileiro ‘desiludido’ e os Beatles na Índia


Experiência vivida pelo diretor Paul Saltzman em 1968 se transformou em documentário, lançado neste mês de setembro. Beatles viveram por quase três meses do ashram do guru Maharishi Mahesh Yogi em 68
Getty Images/ BBC
Em 1968, um mochileiro canadense encontrou por acaso os Beatles em um retiro espiritual na Índia.
Paul Saltzman tinha 23 anos e viajava pelo país quando soube que sua namorada em Montreal havia decidido acabar o relacionamento. Para tentar “curar o coração partido”, segundo ele, decidiu pegar um trem, um barco e um táxi até chegar ao ashram do guru Maharishi Mahesh Yogi, na cidade de Rishikesh.
A era hippie vivia seu auge e Yogi havia ficado conhecido depois de viajar o mundo para divulgar a meditação transcendental.
Chegando lá, o jovem descobriu que o local estava fechado pelas próximas semanas porque os Beatles passavam uma temporada lá.
Depois de horas de insistência, contudo, ele conseguiu convencer o funcionário do ashram a deixá-lo entrar.
Saltzman tirou essa foto quando Lennon e McCartney compunham Ob-La-Di, Ob-La-Da
Paul Saltzman/ BBC
Saltzman foi direto a uma sessão de uma hora de meditação e saiu se sentindo melhor. “A aflição pelo término tinha desaparecido. Saí caminhando pelo bosque pra conhecer o lugar”, disse ele por telefone.
Foi quando viu os Beatles pela primeira vez.
John Lennon, Paul McCartney, Ringo Starr e George Harrison usavam a vestimenta tradicional indiana e estavam sentados em torno de uma longa mesa perto de uma falésia. Algumas das esposas e namoradas estavam junto, assim como a atriz Mia Farrow, o cantor Mike Love, dos Beach Boys, e o músico Donovan.
Eles estavam no meio de um retiro que duraria três meses.
Saltzman perguntou se podia se juntar ao grupo — e McCartney puxou uma cadeira para ele.
“Eu sentei e gritei internamente: ‘Os Beatles!'”, diz o diretor, hoje com 78 anos.
Ringo deu a Saltzman (à esq.) uma câmera para que ele também gravasse cenas da banda
Paul Saltzman/ BBC
Quatro anos antes, em 1964, ele e outros 18 mil fãs assistiram a um show do quarteto de Liverpool em Toronto. Agora, por obra do acaso, ele estava em frente à banda mais famosa do mundo.
Na época, os Beatles colhiam os frutos do álbum icônico Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, lançado em 1967, e começavam a escrever as canções do próximo trabalho, que seria batizado de White Album — o único álbum duplo da banda, que dividiu a opinião dos críticos.
Segundo Saltzman, foi Lennon que quebrou o gelo logo depois de ele sentar.
“Você é americano?”, perguntou Lennon.
“Não, sou canadense.”
“Ah, ele é de uma das colônias”, brincou o artista.
A mesa caiu na gargalhada.
“Então você ainda cultua Sua Alteza Real?”, Lennon continuou.
Saltzman disse que, pessoalmente, não.
McCartney e Starr entraram na conversa.
“Bom, vocês ainda têm a rainha impressa no dinheiro… ”
“Nós a colocamos no nosso dinheiro, mas ela vive com vocês!”, respondeu.
Saltzman diz que George Harrison era ‘o mais calado’ do grupo
Paul Saltzman/BBC
O mochileiro conviveu por pouco mais de uma semana com os Beatles no retiro remoto às margens do Ganges. Eles meditaram juntos, cantaram, comeram pratos vegetarianos e conversaram.
Mais de 50 anos depois do encontro, Saltzman transformou a história em um documentário de 79 minutos: Meeting The Beatles in India (“Encontrando os Beatles na Índia”, em tradução livre). Narrado pelo ator Morgan Freeman e produzido por David Lynch, o filme traz imagens raras da banda feitas por Saltzman.
São lembranças dos músicos em seu auge, relaxados e descontraídos.
“Foi um encontro mágico. Eu amava a música deles. E não estava obcecado com a figura deles como celebridades da música. Eles também se comportaram de forma bem normal, sem estrelismo.”
Ele fotografou a banda com uma câmera Pentax barata em três ocasiões — 30 das 54 imagens que fez no ashram tinham os Beatles.
Saltzman voltou para casa e deixou os slides esquecidos em uma caixa de papelão por 32 anos, até que a filha o estimulou a fazer alguma coisa com eles. Foi quando, em 2005, ele lançou um livro em edição limitada com algumas das imagens.
No retiro, o baterista Ringo Starr o havia presenteado com sua câmera 16mm, que guardava cerca de 30 metros de filme, para que ele gravasse a banda, guardasse de recordação e talvez “ganhasse algum trocado”.
Mas os três minutos que ele filmou e levou consigo de volta para casa foram perdidos e nunca mais encontrados.
“Nunca pensei que faria alguma coisa com as fotos e a filmagem. Tentei chamar atenção dos Beatles para um projeto por 12 anos, mas eles nunca responderam e eu desisti.”
Saltzman conta que a banda escreveu entre 30 e 48 músicas enquanto estava no retiro indiano, muitas das quais incluídas no White Album: Back in the USSR, Happiness is a Warm Gun, Dear Prudence, Ob-La-Di, Ob-La-Da, Sexy Sadie, Helter Skelter e Revolution, entre outras.
Ob-La-Di, Ob-La-Da nasceu nos degraus da entrada de uma das cabanas em que a comitiva da banda viveu nesse período.
Saltzman encontrou Lennon e McCartney sentados em frente à casa dedilhando a melodia no violão.
‘Paul era o mais simpático e divertido’
Paul Saltzman/BBC
Ele correu para pegar sua câmera e tirou fotos dos dois com um Ringo pensativo ao lado.
O diretor se recorda de vê-los cantando os primeiros versos da música “várias vezes seguidas, rápido, devagar, se divertindo com o processo”. “Esse é o riff”, disse McCartney, “mas não temos letra ainda”.
Os Beatles ficaram na Índia por semanas (fora Ringo, que foi embora antes). Hoje abandonado, o ashram ainda atrai fãs da banda.
A experiência, diz Saltzman, mudou sua vida. No filme, ele recria alguns dos momentos com ilustrações, fotografias, imagens do local e entrevistas. O lançamento aconteceu na última semana — ainda não há data para estreia no Brasil.
“Lennon era o mais engraçado, com um humor irônico. Starr parecia calmo e centrado. George era o mais calado e o mais disponível para conversas mais sérias. E Paul era o mais simpático e divertido entre os membros da banda.”
“Estive com eles por apenas oito dias. Mas tudo foi mágico.”