‘O céu da meia-noite’ poderia ser extraordinário, mas se divide em dois filmes incompletos; G1 já viu


Produção dirigida e estrelada por George Clooney estreia nesta quinta-feira (10) em cinemas brasileiros. Estreia nesta quinta-feira (10) nos cinemas brasileiros uma produção excelente, dirigida e estrelada por George Clooney (“Boa noite e boa sorte”), sobre solidão e arrependimento.
No mesmo dia, chega uma outra história mais mediana e cheia de clichês sobre a tripulação de uma nave que é a última esperança da humanidade – também comandada pelo ator. Para a sorte de uma, e azar da outra, as duas histórias formam o mesmo filme.
“O céu da meia-noite” é a adaptação cinematográfica do livro “Good Morning, Midnight”, de Lily Brooks-Dalton. A produção brilha em grande parte de sua narrativa, e tem chances reais de receber indicações importantes ao Oscar em um ano sofrido para a indústria do cinema.
Assista ao trailer de ‘O céu da meia-noite’
Infelizmente, poderia ser extraordinária, mas sofre em seus momentos mais grandiosos, com um resultado final instável prejudicado pelas idas e vindas da trama.
O encontro de ‘O regresso’ e ‘Gravidade’
No filme, Clooney interpreta um cientista no Ártico em um futuro próximo, solitário durante uma catástrofe que dizimou a maior parte da população mundial.
Ele luta contra uma doença terminal e as forças da natureza para avisar a tripulação de uma nave espacial, prestes a retornar à Terra após a primeira viagem a uma lua habitável, que o planeta perdeu a luta pela sobrevivência.
Felicity Jones em cena de ‘O céu da meia-noite’
Divulgação
Com isso, o público acompanha os esforços do protagonista solitário no meio do gelo e da neve ao mesmo tempo em que assiste aos astronautas superarem seus últimos desafios na volta a um lar condenado – uma mistura de “O regresso” (2015) e “Gravidade” (2013).
Clooney só
Enquanto conta a história do cientista, “O céu da meia-noite” é uma reflexão maravilhosa sobre arrependimento, solidão e os efeitos trágicos que algumas escolhas da humanidade podem ter – algo que ressoa ainda mais forte durante a pandemia do mundo real.
Clooney entrega a atuação de sua vida como um homem amargurado por erros do passado e à beira da morte, mas que se apega à sobrevivência em uma situação desastrosa em sua última tentativa de redenção.
George Clooney e Caoilinn Springall em cena de ‘O céu da meia-noite’
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Sem o carisma do ator, que equilibra a natureza sombria do personagem com uma doçura profunda, é provável que suas cenas não tivessem a mesma força – a última delas está entre as mais bonitas de 2020.
O filme perde potência quando intercala sua luta, literal e metafórica, pelos esforços da tripulação da nave. As sequências não são ruins em si, mas depois de um tempo começam a parecer desnecessárias, obstáculos para o retorno da história que realmente vale a pena acompanhar.
O frio do espaço
Os astronautas são interpretados por um elenco maravilhoso, com nomes como David Oyelowo (“Selma: Uma luta pela igualdade”), Felicity Jones (“Rogue One: Uma História Star Wars”) e Demián Bichir (“Os oito odiados”).
Seu enredo, no entanto, sofre com situações previsíveis para qualquer um que já viu um filme do gênero.
Kyle Chandler em cena de ‘O céu da meia-noite’
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Se danos causados por detritos forem tão comuns quanto produções do tipo dão a entender, é de se admirar que alguma missão espacial tenha dado certo na história do mundo.
Não há no roteiro grandes surpresas ou sacadas surpreendentes, mas as cenas na Terra têm uma urgência e uma humanidade profundas – dignas de grandes filmes.
A sensibilidade até está presente em alguns momentos na nave, em especial no arco do piloto interpretado por Kyle Chandler (“Bloodline”), mas na maior parte do tempo apresenta passagens exploradas à exaustão.
Em um ano normal, “O céu da meia-noite” já contaria com pedigree suficiente para garantir presença no Oscar. Em uma indústria com poucos lançamentos por causa dos cinemas fechados, sua indicação é quase uma certeza.
Mas, ao se afastar de sua essência verdadeiramente humana, o filme perde a chance de ser algo extraordinário.
George Clooney em cena de ‘O céu da meia-noite’
Divulgação