Novo ‘crediário’ no cartão de crédito exige atenção do consumidor; veja simulações


Bancos passaram a oferecer compras parceladas no cartão, com juros; novidade traz transparência, mas prazos mais longos podem elevar o custo da compra. Cartões de crédito
Reprodução/ EPTV
O consumidor que fizer compras parceladas pelo cartão de crédito com juros – modalidade lançada esta semana pelos bancos –, poderá escolher prazos mais longos que os oferecidos no crediário tradicional. Para educadores financeiros, a linha dará mais transparência à relação de consumo, mas eles alertam que o maior número de prestações eleva o custo total.
Bancos passam a oferecer crediário no cartão de crédito
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Os principais bancos passaram a oferecer a nova forma de parcelamento, no momento da compra, por meio das “maquininhas” do cartão de crédito. A intenção é substituir o antigo “10 vezes sem juros” oferecido pelos lojistas, com a promessa de prazos maiores e estímulo a descontos.
Simulações
Uma simulação feita pela Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade) a pedido do G1 mostra que uma compra de R$ 1.000 no cartão, parcelada entre 12 e 36 vezes – prazos mínimo e máximo fornecidos pelos bancos – gera um custo adicional que varia entre R$ 65,48 e R$ 193,76, respectivamente, se os juros forem de 0,99% ao mês (os mais baixos anunciados).
Mas se as taxas forem as mais altas, de 3,99% ao mês, a compra no valor de R$ 1.000 parcelada nestes mesmos prazos fica de R$ 277,88 a R$ 901,16 mais cara – um acréscimo de até 90% no custo total (veja abaixo todas as simulações).
Compra de R$ 1.000,00 parcelada no cartão*
* Cálculo feito com base nos valores fornecidos pelos bancos: taxas de 0,99% a 3,99%/até 24 vezes (Bradesco) e a partir de 1,99%/até 36 vezes (Santander) – os demais bancos não forneceram os valores. Itaú, BB e Votorantim oferecem prazo de até 24 meses.
‘Parcela sem juros não existe’
Para o educador financeiro André Massaro, o consumidor será favorecido ao saber o quanto de fato estará pagando pela dívida – já que, segundo ele, não existe compra parcelada sem juros.
“Quando um comerciante faz o preço sem juros, está na verdade embutindo todo o custo financeiro nas parcelas”, explica. “O fato de não ter juros não significa que eles não estão lá, significa que estão escondidos”.
O diretor de relações institucionais e mídia da Proteste, Henrique Lian, diz ver uma “agenda pelo fim do parcelamento sem juros” na modalidade, embora o argumento dos bancos seja de uma alternativa mais barata ao crédito [em relação a outras linhas] e com uma possível tendência de quedas de juros.
Prestação menor tem prazo mais longo
A maior armadilha para o consumidor que parcela as compras é a impressão de estar pagando menos ao ver que o valor da prestação é baixo.
Na verdade, diz o educador financeiro e fundador da Academia do Dinheiro, Mauro Calil, quanto maior o número de prestações, mais juros se paga pela dívida. “Dá a impressão de que a parcela cabe no bolso, mas a conta final sempre vai ser maior”.
Calil acredita que a cultura dos parcelamentos mais longos pode incentivar o maior endividamento, mas não se deve encarar o cartão de crédito como o vilão do consumo, e sim a falta de educação financeira.
Massaro concorda que, se bem utilizado, o cartão pode ser uma ferramenta de controle financeiro, já que, se feita com consciência, a compra parcelada é muito melhor que entrar no rotativo do cartão, com juros muito maiores. “O problema não é o instrumento, é quem usa o instrumento”.
Veja os principais pontos do financiamento com juros no cartão:
Alternativa ao crediário dos lojistas, com juros;
Promessa de prazos mais longos (opção de mais parcelas);
3 opções de parcelamento disponíveis;
Contratação no momento da compra, pelas “maquininhas”;
Lojista transfere o risco de crédito para o banco;
Comércio recebe os recursos em até 5 dias;
Incentivo nos descontos à vista
Para Lian, da Proteste, a expectativa é de que a nova forma de crédito estimule a cultura dos descontos no pagamento à vista. “O consumidor vai ter que ficar muito mais atento e o varejo vai ter que se precaver, porque a pressão por descontos vai crescer”, diz.
Na visão de Massaro, os comerciantes que oferecem o parcelamento sem juros não costumam aceitar descontos no pagamento à vista, alegando que o preço já está baixo. “Na verdade, quem paga à vista acaba subsidiando essas parcelas”, diz o educador financeiro.
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Comércio transfere o risco do crédito
Os lojistas que trabalharem com o crediário no cartão vão transferir o risco do crédito para os bancos e receber o valor da compra de forma antecipada.
Hoje, há um prazo de 30 dias para o lojista receber o pagamento das compras no crédito, parceladas ou não. Pela nova modalidade, o comércio receberá os recursos em até 5 dias.
“Essa modalidade pode se tornar uma opção viável principalmente para os varejistas menores que não trabalham com compras parceladas”, aponta Massaro.
Dicas para usar bem o cartão de crédito
Se bem utilizado, o cartão pode ser um aliado no planejamento financeiro. Veja, abaixo, dicas de especialistas em finanças pessoais para fazer bom uso dessa ferramenta:
Não confundir crédito com renda: O limite da fatura não é uma receita extra, como muita gente pensa. Tudo o que for gasto no cartão em um mês deve ser descontado dos ganhos do consumidor no mês seguinte.
Comprar itens básicos no débito ou em dinheiro: O cartão de crédito deve ser priorizado para despesas extraordinárias, enquanto os gastos fixos devem, de preferência, ser pagos com a renda mensal.
Evitar pagar o valor mínimo da fatura: Se o consumidor tem recursos para pagar o valor total da fatura, deve sempre fazer esta escolha. Pagar o mínimo de 15% leva aos juros do crédito rotativo, os mais altos do mercado, que mesmo limitados a 30 dias obrigam a quitação no mês seguinte ou um parcelamento, também com juros altos.
Definir um limite de gastos por mês: Às vezes, o limite da fatura não é suficiente para manter o controle das finanças. Defina um percentual da renda que você pode gastar com o cartão e, se o valor ultrapassar esse teto, procure reduzir ou cortar as compras no crédito até o mês seguinte.
Ter no máximo 2 cartões de crédito: Possuir muitos cartões eleva as cobranças com taxas de anuidade e outras tarifas, além de aumentar o risco de descontrole. Geralmente, uma pessoa precisa de, no máximo, dois cartões.
Aproveitar os programas de fidelidade: Muitos cartões oferecem prêmios como descontos em shows, meia entrada em cinemas, vinho no restaurante e resgate de pontos por produtos, por exemplo. Ao escolher o cartão de uma operadora, é bom avaliar se ele oferece vantagens que serão de fato aproveitadas ou se é melhor contratar outro produto.