‘Nomadland’ do Brasil: como vivem os brasileiros que moram em carros, peruas e ônibus


G1 falou com famílias em SP vindas de outros estados. Sem emprego e sem poder pagar aluguel, situação complicou pós-pandemia. Vida sobre rodas está longe do glamour de motorhomes. VÍDEO: Moradores de veículos no centro de São Paulo contam suas histórias
Geraldo, Eliane, João, Nilcéia e Gilmar vivem no centro de São Paulo
Marcelo Brandt/G1
Um ônibus escolar modelo antigo, uma perua estilizada repleta de cobertores e um motorhome em reforma ocupam uma rua no centro de São Paulo. Eles são o veículo e a casa do reciclador João e seus 10 cachorros, do casal Geraldo e Eliane e da família Bráz, composta por Gilmar, Nilceia e seus seis filhos. Veja no vídeo acima.
A vida sobre rodas pode ser glamourosa em uma ponta, vivida por pessoas que “largam tudo” para fazer turismo de aventura.
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Mas na outra ponta, a residência sobre rodas é a única alternativa para quem não tem emprego e nem condições de pagar aluguel em grandes centros urbanos.
Essa realidade é o motor do filme “Nomadland”, favorito para vencer o Oscar 2021 neste domingo (25). Ele mostra idosos que vivem em veículos nos EUA. Sem emprego ou aposentadoria, eles saem em seus trailers em busca de trabalhos temporários e acabam criando uma rede de solidariedade.
Ainda não há estatística oficial sobre quantas pessoas moram em carros, peruas ou ônibus no Brasil, segundo as três secretarias nacionais que poderiam cuidar disso: Infraestrutura (que cuida de transportes), Desenvolvimento regional (habitação) e Cidadania (programas sociais do Governo Federal).
A única informação disponível é sobre a quantidade de motorhomes no Brasil: atualmente, há 17 mil veículos do tipo. Desde 2019, os veículos modificados precisam ter registro e licenciamento próprios e, para circular, precisam atender a uma série de exigências. Eles também estão enquadrados na maior alíquota de IPVA: 4% do valor do veículo.
Morar sobre rodas no Brasil
Kombi de Geraldo Pereira Gomes guarda alimentos e roupas
Marcelo Brandt/G1
O estilo de vida nômade, como o retratado no filme, não é comum por aqui. Quem mora sobre rodas nas capitais ou grandes centros roda mais pelas ruas da cidade, atrás de uma parada segura e de lugares movimentados para fazer bicos de reciclagem, vendas ou conserto.
Eles enfrentam as dificuldades de estar na rua, a insegurança e o barulho constantes da metrópole, o frio ou o calor intensos de dentro da lataria e os perrengues de cozinhar ou fazer higiene no espaço apertado dos veículos.
A qualidade dos carros varia demais. Conseguir morar em um super motorhome (ou motor-casa, na adaptação brasileira) costuma envolver degraus: primeiro, o carro; depois uma perua; daí um ônibus e, finalmente, o caminhão adaptado.
Foi assim com as famílias que o G1 ouviu no bairro do Brás, região central de São Paulo, lar de moradores de veículos que se conhecem e se ajudam, como vizinhos de longa data. Abaixo, eles contam como precisaram morar em seus veículos, o que fazem para driblar as dificuldades da rua e o que desejam para o futuro.
Gilmar e Nilcéia
Gilmar, Nilcéia, Giovane, Guilherme, Gustavo, Tiago, Cauê e Brian vivem em motorhome na zona leste de São Paulo
Marcelo Brandt/G1
O restaurador Gilmar Bráz realizou um sonho aos 50 anos: ter um motorhome para abrigar a esposa e os seis filhos do casal. Gilmar, Nilcéia, Giovane, Guilherme, Gustavo, Tiago, Cauê e Brian vivem, há seis meses, em um motorhome estacionado no Brás.
Antes disso, a família já morou em um ônibus, uma perua e uma barraca. “No começo, era fácil arrumar lugar para alugar. Eu tinha mulher e um filho só. Mas a família foi aumentando, chegou um tempo que ou eu pagava o aluguel ou dava alimento para os filhos”, conta.
Ele, a esposa e Giovane, o filho mais velho, nasceram no Paraná e se mudaram para São Paulo há mais de 15 anos. Sem emprego fixo, conciliar aluguel, contas e comida se tornou impossível. “Eu tive que escolher. Para não abandonar ninguém, fui lá na Santa Ifigênia, comprei uma barraquinha, montei numa praça e fui catar papelão.”
Gilmar faz de tudo um pouco: já foi pintor, pedreiro e reciclador. Com o que ganha dos bicos, conseguiu juntar dinheiro para comprar cada um dos veículos em que morou com a família. O primeiro deles foi uma perua, comprada depois de cinco anos dormindo em calçadas.
“Pedi para Deus me dar uma luz, porque não queria aquela vida. Ainda não tenho nada, mas para quem dormia num lugar que me doíam até os ossos de frio, aquela chuva, a barriga roncando de fome… Hoje eu tenho o motorcasa, colchãozinho pra deitar, cobertinha pra dormir, hoje é bem melhor.”
O motorhome era o “sonho” de Gilmar, mas ainda está longe de ser o motorhome dos sonhos dele. Ele conta que teve de arrancar todos os móveis porque a madeira estava podre. Agora, aos poucos, vai comprando o material que precisa para reformá-lo. O plano é construir uma cama para o casal e beliche para os filhos, reformar o banheiro e fazer uma cozinha.
Motorhome de Gilmar Bráz e família ainda precisa ser reformado, diz ele
Marcelo Brandt /G1
Também há um problema na lataria de cima, que não impede a água de entrar no veículo. Assim, só conseguem parar debaixo de ponte para evitar chuva. Por conta dessas avarias, conseguiu comprar o motorcasa com desconto. “O mínimo é de R$ 25, R$ 30 mil. É como se fosse um fusquinha e uma Ferrari. Têm alguns que custam mais de R$ 1 milhão. Mas quem me dera esse aqui valer R$ 1 milhão”, ele brinca.
A reforma vai ter que esperar. Com a pandemia e os comércios fechados, o movimento nas ruas diminuiu. E ele, que vive de vender a quem passa, se viu sem renda.
“Cadê o dinheiro pra terminar? Não tem. Comprei um pedaço de forro, comprei plaquinha que vai na parede, estou montando aos poucos. A gente mora dentro, é tudo apertado, não tem lugar nem pra caminhar. Não dá para vender as coisas, tem que se virar como pode, mas tá difícil.”
Gilmar é músico completo: canta, toca e compõe. Há pouco tempo, encontrou um guitarrista disposto a montar uma banda com ele. Juntos, passaram a ensaiar (com distância de 4 metros um do outro, ele diz), na calçada em frente ao motorhome. “Meu plano é registrar minhas 6 composições para começar a trabalhar com música. Até internacional eu canto.”
Geraldo e Eliane
Geraldo Pereira Gomes e Eliane da Silva dividem a vida e duas kombis na zona Leste de São Paulo
Marcelo Brandt/G1
Geraldo Pereira Gomes e Eliane Silva são um casal há 20 anos, mas cada um mora na sua perua, estacionadas uma à frente da outra. Geraldo customizou as duas: a sua é azul. A de Eliane, bege e vermelha, com detalhes em rosa por dentro.
A perua virou sua casa quando ficou desempregado, foi abandonado pela esposa e teve os filhos levados pela família de Belo Horizonte. “A gente chega de viagem pra cá e não tem condição. Começa a pagar aluguel, mas fica difícil”, conta.
“Na época, eu trabalhava de pedreiro, em construção civil. Aí fiquei desempregado, a idade começou a chegar também. Aí não tem dinheiro, né. O dinheiro que eu ganho é vendendo frutas na rua. Então fiquei nessa situação, morando nesse carro.”
Sem ruas movimentadas, ficou sem dinheiro para comprar frutas e se preparar para a reabertura gradual. Tem sobrevivido da reciclagem e da ajuda que recebe de grupos e ONGs, à espera do auxílio emergencial para reabastecer seu estoque e sair às ruas novamente.
Geraldo Pereira Gomes vive em sua kombi na zona leste de São Paulo
Marcelo Brandt/G1
Faz três meses que Geraldo e Eliane estacionaram no Brás – Geraldo dirige as duas peruas porque Eliane não sabe conduzir, explica. Ele diz que já perdeu as contas de quantos lugares passou e parou.
“Não tenho onde parar. O carro vai pra lá, pra cá, todo lugar, não tem onde parar. Então tô aqui, tô ali, igual cigano. Eu não sou cigano, mas a gente que não tem moradia, a gente sai e vai pra outro lugar.”
Mas as mudanças se tornaram menos constantes por causa do preço da gasolina. E também para fugir da mira constante de guardas e policiais. Em março, a prefeitura pediu que as famílias que ocupavam a rua do centro saíssem de lá em um prazo curtíssimo. “Depois que os jornais começaram a vir aqui, eles nos deixaram em paz”, conta.
Para Geraldo, morar em seu veículo é uma alternativa temporária. “A gente está aqui por enquanto, até melhorar a vida e comprar um terreno. A gente é trabalhador, não faz nada de errado.”
João
João Andrade Correia divide seu ônibus com dez cachorros que adotou na zona leste de São Paulo
Marcelo Brandt/G1
João Andrade Correia nasceu no Ceará, cresceu no Rio de Janeiro, e se mudou para São Paulo em busca de trabalho. “Trabalhei na área de hotelaria. Depois, a situação foi mudando, foi mudando a política, entrou a informática. Quando Fernando Collor deu o golpe, perdi meu dinheiro e minha rotina começou a ficar no zero. Foi só pra ir pagando as contas”.
Quando isso aconteceu, ele precisou vender o que tinha e morar de aluguel. Com cada vez menos trabalhos, conheceu a reciclagem. Faz 25 anos que ele trabalha com isso e conta que aprendeu muito sobre materiais pelo ofício. Antes da entrevista, ele explica as diferenças dos vários tipos de metal. Hoje, seu foco é a reciclagem eletrônica e ele fala empolgado sobre as possibilidades desses materiais.
Seu único ressentimento é com a fiscalização. “Era para eu estar melhor de vida. Não estou melhor de vida por culpa dos governantes. Se eu contar, só a prefeitura já me pegou mais de R$ 80 mil de mercadoria minha. Eu já perdi as contas de quantas vezes eles me tomaram tanto na parte do trabalho quanto na parte de doação. As pessoas doam coisa boa, coisa de valor. Então essas coisas eles levam”, ele diz.
“E aí você fica sem, tem que pegar tudo outra vez com o saquinho nas costas, carregando pra lá, carregando pra cá, você vai reciclando, juntando um dinheirinho de novo.”
O ônibus escolar em que mora hoje foi comprado com esse dinheirinho suado e com ajuda de doações. Ele morava em uma perua, mas ela ficou pequena demais para ele e os dez cachorros resgatados das ruas. “Tudo começou com o Popó, ele era de uma família que precisou doá-lo por causa do latido alto. Aí foram chegando o Bill, a Nega, a Madonna…”, ele enumera.
Faz três anos que João vive no ônibus, adaptado para ele e seus companheiros. “As cadeiras foram tiradas, né, porque ele está na linha do motorhome. Tem cama, estante”, explica. Antes desse, ele morava em um “busão” antigo, que sempre dava problema para ligar. “Cada vez que ia ligar, tinha que chamar o mecânico. E cada vez que vinha, gastava R$ 500, R$ 600.”
João já rodou por ruas e praças da cidade, sempre enfrentando resistência do poder público. “‘Parece que vigiar a gente é um hobby deles. Tanta coisa pra fazer na cidade de São Paulo. A limpeza mesmo… Muitas vezes eu que limpo fezes e urina na rua. A gente que trabalha na rua é colocado no mesmo rol de ladrão, é tratado da mesma forma. É um estado racista e preconceituoso.”
Informado sobre tudo que acontece no Brasil, ele diz que passa as manhãs ouvindo notícias na CBN e música na Alpha FM. “O país está abandonado, as pessoas não têm educação”, diz. Mas mantém a fé. O que deseja é um canto seguro e sossegado para parar, longe “do barulho e da perturbação que tiram a atenção e o sossego da gente”. Quer também assistência pública para cuidar plenamente dos animais resgatados.
João Andrade Correia mora em um ônibus na rua Domingos Paiva, no Brás
Marcelo Brandt/G1
Procurada pelo G1, a prefeitura de São Paulo respondeu: “A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) informa que por meio do Serviço Especializado de Abordagem Social (SEAS) realiza busca ativa para abordar pessoas em situação de rua e oferece acolhimento nos equipamentos da rede socioassistencial. Importante ressaltar que o aceite é voluntário.”
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