Noite de Oscar delineada por apelos por justiça racial e contra a intolerância


Condenação do ex-policial Chauvin pelo assassinato de George Floyd não alivia os discursos de premiados. Peter Spears, Frances McDormand, Chloe Zhao, Mollye Asher e Dan Janvey celebram prêmios de “Nomadland” no Oscar 2021
AP Photo/Chris Pizzello
Se o ex-policial Derek Chauvin não tivesse sido condenado em três acusações pela morte de George Floyd, a atriz Regina King teria declinado do convite para apresentar o Oscar e se juntaria aos protestos que provavelmente estariam varrendo os EUA contra a sentença e ofuscando a cerimônia.
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Num ano embaçado pelo luto da Covid-19, mas também coroado pelo rápido veredicto sobre a violência de um policial branco contra um negro desarmado, os apelos por justiça racial e contra a intolerância delinearam a festa.
“Eu sei que muitos de vocês em casa querem pegar o controle remoto quando sentem que Hollywood está pregando para vocês. Mas, como mãe de um filho negro, eu conheço o medo com que tantos vivem. Fama e fortuna não mudam isso”, resumiu a atriz e diretora de “Uma noite em Miami”,ao abrir o 93º Oscar em Los Angeles.
Curiosamente, conforme observou a crítica de cinema Ann Hornaday, do “Washington Post”, o filme mais importante de 2020 foi o capturado pelo celular da adolescente Darnella Frazier: por exibir os angustiantes 9 minutos e 29 segundos em que Floyd era asfixiado pelo joelho de Chauvin, não deixou dúvidas sobre a violência desproporcional cometida pelo policial.
Embora celebrada como marco contra a impunidade, a condenação de Chauvin não aliviou os discursos dos premiados. Um dos diretores de “Two distant strangers”, que levou o Oscar de melhor curta, Travon Free desfiou estatísticas: três mortos diariamente pela polícia nos EUA equivalem a mil por ano, “e as vítimas são desproporcionalmente negras”.
Inspirado pelo assassinato de Floyd e os protestos desencadeados nos EUA, o curta-metragem vencedor é uma espécie de Dia da Marmota para um homem negro. Ele é morto por um policial branco e se vê preso a um loop temporal, revivendo repetidamente a cena.
“A coisa mais desprezível é ser indiferente à dor de outras pessoas. Peço a vocês que não sejam indiferentes à nossa dor”, apelou o cineasta.
Rotulada como um grito de guerra, outra mensagem poderosa veio do ator, cineasta, produtor e filantropo Tyler Perry, homenageado pela academia com o Prêmio Humanitário Jean Hersholt. “Recusem o ódio. É aí que a cura acontece, é onde a conversa começa e a mudança ocorre. Isso acontece no meio.” Em tempos de divisão, a comovente rejeição ao discurso de ódio –seja imigrante, negro, asiático ou policial –reverberou.
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