Natiruts ergue pontes no álbum ‘Good vibration’ sem se distanciar do ponto de partida da banda


Grupo de reggae faz conexões no disco com artistas do mercado latino de língua hispânica. Capa do álbum ‘Good vibration’, da banda Natiruts
Thaís Mallon
Resenha de álbum
Título: Good vibration vol. 1
Artista: Natiruts
Edição: Sony Music
Cotação: * * * 1/2
♪ “No queremos muros / Nosotros somos puentes”. A sentença proferida por Yalitza Aparicio, atriz mexicana de origem indígena, na abertura de America vibra – primeira das nove músicas que compõem o repertório da parte inicial do 13º álbum da banda Natiruts, Good vibration – traduz o conceito e as intenções do disco lançado na sexta-feira, 28 de maio, com título em inglês.
Embora apareça na capa do disco sobre águas do Lago Paranoá, cartão postal de Brasília (DF), cidade natal da banda formada em 1996, Natiruts ergue pontes no álbum para tentar se espraiar pelo mercado latino-americano formado pelos países de língua hispânica – território desbravado por artistas brasileiros desde os anos 1960 e, mais recente, por estrelas do universo sertanejo e do funk.
O álbum Good vibration está repleto de colaborações da banda brasiliense com nomes do mercado latino, como já haviam apontado os singles America vibra (gravado com o jamaicano Ziggy Marley, além da já mencionada mexicana Yalitza Aparicio) e Todo bien (música bilíngue, em português e espanhol, que junta o Natiruts com o cantor porto-riquenho Pedro Capó em clima de bossa).
Em Rosas, por exemplo, a banda Natiruts – personificada nas fotos de divulgação pela dupla formada pelo vocalista e compositor Alexandre Carlo com o baixista Luís Maurício, fundador do grupo – se juntou com o cantor espanhol Macaco com a intenção de acoplar vibes da música flamenca nesse reggae formatado com acordes evocativos das harmonias da bossa nova.
Ainda que as pontes tenham sido erguidas, os elementos hispânicos soam diluídos nesse disco tão zen que até a batida do samba-reggae que embasa a música-título Good vibration – gravada pelo Natiruts com a cantora carioca Iza – se ajusta ao clima lounge da faixa.
E por falar em gênero musical da Bahia, Carlinhos Brown agrega boas vibrações e afetividade a Reggae amor. Já o cantor e compositor baiano Dja Luz é o autor de Ela, reggae sensual escolhido para promover o primeiro volume o disco Good vibration.
Natiruts com o cantor porto-riquenho Pedro Capó (à direita), um dos convidados do álbum ‘Good vibration’
Divulgação
Mote do cancioneiro do Natiruts, o romantismo light pontua Que bom você de volta II, faixa bilíngue que remete ao clima suave da bossa nova, sobretudo na parte em espanhol ouvida na voz de Debi Nova, cantora da Costa Rica.
Reggae de leve groove funkeado, De tanto sol potencializa as boas vibrações do disco com a reunião da Natiruts com o trio fluminense Melim. “A gente quer a energia do bem / Na Palestina ou em Jerusalém”, canta Alexandre Carlo na faixa com maior apelo pop do repertório dessa parte inicial do álbum Good vibration.
Reggae enquadrado na moldura da vertente mais pop do gênero jamaicano, Dia perfeito tem tudo para fazer a cabeça dos seguidores desse estilo, inclusive por promover o encontro do Natiruts com a banda paulistana Planta & Raiz.
Enfim, por mais que venha buscando a expansão de fronteiras musicais e mercadológicas, a banda Natiruts parece acomodada nessa boa vibração nacional adotada por grupos brasileiros de reggae, já distantes da ideologia social dos cantores que assentaram o gênero na Jamaica a partir do fim dos anos 1960.
Com pegada pautada pela leveza, o álbum Good vibration se desenrola na mesma temperatura amena e soa extremamente coerente com discos anteriores da banda brasiliense. É como se, a rigor, as pontes erguidas no álbum conduzissem o grupo ao ponto de partida do Natiruts.