Na volta às aulas no DF, especialistas preveem sobrecarrega de professores e defasagem na aprendizagem: ‘Ensino híbrido é medida paliativa’


Na rede pública, professores estarão nas escolas a partir desta segunda-feira (2) e alunos voltam de forma escalonada, a partir de quinta (5), começando pela educação infantil. Leia entrevista com pesquisadoras da área ouvidas pelo G1. Sala de aula em escola no DF, em imagem de arquivo
TV Globo/Reprodução
Após um ano e meio de portas fechadas, as escolas públicas do Distrito Federal reabrem a partir desta segunda-feira (2). Por conta da pandemia de Covid-19, desde o ano passado as aulas eram remotas, e todo o ensino mediado pela tela do computador, tablet ou celular.
A retomada começa com o encontro pedagógico de professores, nesta segunda, quando será dado o “start” no segundo semestre letivo de 2021. A partir de quinta-feira (5), alunos da educação infantil, do ensino fundamental e médio voltam, gradativamente, às salas de aula.
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‘Ensino híbrido’: as dificuldades para o aprendizado com parte da turma online e a outra na sala de aula
As escolas públicas vão funcionar no modelo híbrido. A modalidade é um revezamento entre o ensino presencial e online, para diminuir o número de pessoas nas salas de aula e garantir o distanciamento social.
Em uma semana, metade dos estudantes de cada turma vai à escola presencialmente, enquanto os demais farão atividades remotas. Na semana seguinte, quem ficou em casa vai para o colégio e quem tinha aula presencial, faz as atividades remotamente.
Para entender as nuances do sistema híbrido, o G1 ouviu duas especialistas em educação, que responderam às mesmas perguntas (leia entrevista mais abaixo). Para a pedagoga Olga Freitas, mestre em neurociência do comportamento, professora da Universidade Católica de Brasília (UCB) e doutoranda em educação, o modelo de ensino alternado adotado no DF é uma “medida paliativa”.
“Vemos essa situação de ensino híbrido com alguma preocupação. Porque, de fato, a organização do trabalho pedagógico é incipiente. Do ponto de vista pedagógico, não é interessante, porque a aprendizagem é um fenômeno social que requer a interação dos pares, o que fica inviabilizado quando não se está totalmente no presencial”, diz Olga Freitas.
VÍDEO: Entenda o que é o ensino híbrido
A professora da faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), Edileuza Almeida, que também é uma das coordenadoras do Observatório de Educação Básica da UnB, chama a atenção para a sobrecarga que o ensino híbrido trará aos professores e para as possíveis defasagens no aprendizado para os alunos.
“Esse profissional vai ter que se dividir entre acompanhar metade da turma no presencial e a outra no remoto. Se o professor está mais sobrecarregado, isso pode interferir na qualidade de ensino”, diz Edileuza Almeida.
Veja pontos abordados na entrevista:
Impactos do ensino híbrido no aprendizado de estudantes e no trabalho dos professores
Qual o melhor caminho?
Risco da evasão escolar
Como minimizar as perdas na aprendizagem
Lições aprendidas
Leia a entrevista
G1 – O DF retoma essa semana as aulas presenciais na rede pública, com o modelo híbrido de ensino. Quais são os impactos no aprendizado de estudantes e no trabalho dos professores que essa alternância entre o remoto e o presencial pode trazer?
Edileuza Almeida – É importante compreender que as alternativas didático-pedagógicas estão sendo pensadas pela rede pública de ensino como alternativa para o momento emergencial, é uma situação inédita.
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Ao buscar na LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional], você não vai encontrar essa prerrogativa de ensino híbrido. A modalidade tem esse caráter de mesclar momentos presenciais e outros à distância, com uso de tecnologias, de aplicativos, plataformas ou atividades imprensas. Na rede pública do DF, isso está sendo proposto agora.
Edileuza Almeida é professora da faculdade de Educação da Universidade de Brasília e uma das coordenadoras do Observatório de Educação Básica da UnB
Arquivo pessoal
No trabalho do professor, vai representar uma sobrecarga. Professores já estavam trabalhando – e muito. Essa nova realidade tem exigido mais planejamento, mais atividades, que se aprenda a usar plataformas digitais.
“A nossa atividade docente foi mais intensificada com o ensino remoto. Não está claro se a alternância entre o remoto e presencial será simultaneamente. Se sim, isso vai representar mais tarefas, mais atribuições para os professores.”
Para o aprendizado do estudante, o processo ensino-aprendizagem é um caminho de mão dupla. Se o professor estiver dividido entre dois modelos de ensino, pode ter menos energia e menos tempo para o presencial, por exemplo.
Olga Freitas é pedagoga, com mestrado em neurociência do comportamento e doutoranda em educação
Arquivo pessoal
Olga Freitas – Sentiremos esses impactos e ainda vamos ter um problema seríssimo, de como vai acontecer o escalonamento presencial. Os professores podem ficar bastante sobrecarregados com o trabalho remoto e o presencial.
“Nunca antes uma atividade híbrida foi pensada para formação continuada de professores. Políticas de novas tecnologias nunca foram efetivadas. Muitos deles [profissionais] precisaram investir do próprio bolso para comprar equipamentos.”
A pandemia trouxe o adoecimento de profissionais da educação e isso pode vir também para o modelo híbrido.
“O mesmo professor vai precisar se desdobrar em duas modalidades, presencial e a distancia. Sanar dúvidas… Esse tipo de trabalho vai trazer sobrecarga. Além do que, a formação continuada de professores nunca dialogou com a fluência das novas tecnologias.”
G1 – Como vocês apontaram, juntar as modalidades online e presencial pode comprometer parte da aprendizagem e sobrecarregar ainda mais os docentes. Qual é o melhor caminho a seguir nesse momento? Uma retomada integral dos alunos nas escolas ou buscar avanços no ensino remoto?
Edileuza Almeida – O melhor caminho é ter toda a população vacinada. Inclusive estudantes, para que possamos retornar ao presencial integralmente e desenvolvermos nosso trabalho. Mas sabemos que as políticas não foram pensadas e não houve esforço dos governantes, principalmente do governo federal.
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Olga Freitas – Professores também desejam retornar às atividades presencialmente, mas não sem os cuidados necessários. A alternativa é a cobertura vacinal completa.
Professores estão sendo vacinados, são cerca de 30 mil na ativa [no DF], mas precisamos entender que a escola é composta por outros profissionais, e por estudantes – que não estão necessariamente vacinados, e muitos alunos vão para escola de transporte público ou a pé.
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Além disso, algumas escolas não passaram por reformas estruturais. Algumas não têm água nas torneiras, ou até mesmo torneiras, o que não dá para garantir o funcionamento seguro das aulas.
“Nesse cenário, em primeiro lugar, tem que preservar a vida. O retorno seguro deve ocorrer com medidas sanitárias. Enquanto não é possível, o ideal é que professores e estudantes mantenham condições necessárias para aprendizagem no ensino em casa, aprendendo da melhor forma possível.”
G1 – Com a presença alternada na sala de aula, há chances de aumentar a evasão escolar?
Edileuza Almeida – Dados indicam que houve aumento da evasão escolar durante a pandemia. Alguns [estudantes] tiveram que trabalhar, outras famílias não tinham acesso à internet. Principalmente no ensino médio e na alfabetização.
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Olga Freitas – Esse é um problema gravíssimo [evasão].
“Foram dois fatores que colaboraram para a evasão escolar acontecer: falta de acesso às atividades remotas somada à ausência de condições materiais e o desemprego.”
Muitos jovens, sobretudo nas periferias, são os que estão sustentando a família. Não é muito difícil de enxergar isso. Perceba o aumento de jovens e crianças nos semáforos, pedindo dinheiro e vendendo.
“Esse é um problema não só escolar, mas social. Então, é provável que tenha, sim, um aumento da evasão escolar.”
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Arte/G1
G1 – Apesar da volta às salas de aula, ainda não se fala muito em mudanças pedagógicas. Mas, sabemos que, no DF, a carga horária será reduzida. Quais impactos na aprendizagem que esse momento de pandemia pode causar? Haverá lacunas de ensino consideradas irreversíveis?
Edileuza Almeida – Foi quase um semestre sem aulas e, depois, o retorno remoto. Claro que está causando lacunas, principalmente na alfabetização de crianças de seis, sete anos, que estavam começando na educação.
“Lacunas irreversíveis? Não acredito. Essa defasagem poderá ser revertida. Não será a curto prazo, mas a longo e médio prazo. Eu acredito no potencial dos educadores.”
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O professor é um dos protagonistas para desenvolver esse processo de ensino, garantindo que alunos aprendam. Mas, para buscar reverter as lacunas, vamos precisar de um esforço coletivo: da sociedade, de governos, universidades, pesquisadores, famílias e sindicatos.
Olga Freitas – É precoce falar em impactos irreversíveis.
“É preciso investir em políticas educacionais sérias, com proposta e recursos pedagógicos inovadores, com formação intensa, antenada com o novo cenário educacional, além de medidas que garantam o acesso e a permanência com êxito nas escolas.”
Essas crianças e jovens serão os futuros médicos, engenheiros, policiais. Uma nova geração com defasagem muito grave na construção do conhecimento.
Se não houver um olhar sério para essa população, com foco na educação em anos iniciais, vamos ter, sim, problemas de pessoas não letradas, mal alfabetizadas, com pouca capacidade de refletir e tecer uma crítica sobre determinado conteúdo para criar o próprio posicionamento.
“Se o cidadão não consegue refletir sobre sua realidade, não consegue intervir. É uma questão até de soberania nacional.”
Escola Classe 15 de Ceilândia, Brasília (DF), em imagem de arquivo
Divulgação
G1 – Então, de modo prático, como minimizar as perdas no aprendizado?
Edileuza Almeida – O Estado tem uma responsabilidade muito grande, é quem fomenta e implementa políticas públicas. Precisamos pensar nos impactos que a pandemia está causando e sobre o que ainda vai repercutir no pós-pandemia.
“Não temos como fugir das políticas públicas: será preciso ter financiamentos, mais recursos financeiros para reverter a situação. Melhorar a estrutura física das escolas e investir na formação dos professores.”
Para que os professores pudessem trabalhar nas tecnologias digitais, foi preciso uma formação emergencial urgente. Os planos nacional e distrital de educação têm várias metas.
“Se as estratégias de ensino tivessem sido implementadas desde 2014, os professores estariam preparados.”
Também é preciso focar nos projetos e discussões dentro das escolas, o que cada colégio pode fazer, considerando as diferentes realidades. A avaliação diagnóstica e o planejamento curricular vão indicar as lacunas.
“Isso tem que ser um trabalho de rede, respeitando os projetos de cada escola. Não podem haver ações isoladas, senão algumas escolas podem não conseguir cumprir [as metas], e haverá alunos com dificuldades. Ninguém pode ficar para trás.”
Olga Freitas – O primeiro passo é potencializar as habilidades que as crianças já têm e nos despir de preconceitos sociais.
“Nós precisamos pensar a formação inicial de professores, com estudo mais aprofundado da neurociência, da relação com a tecnologia, alinhada à educação. Estudantes têm habilidades que precisam ser potencializadas.”
Também é preciso considerar que vamos lidar com crianças muito impactadas com a pandemia. Jovens que perderam entes queridos, o contato com colegas, o afeto.
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Getty Images
“As escolas precisam fazer um diagnóstico de aprendizagem para saber o que ficou perdido e precisa ser recuperado. O colégio precisa ser um espaço mais afetivo, acolhedor. A alternativa é usar metodologias ativas, que colocam o estudante em situação de protagonismo, seja à distancia ou no ambiente presencial.”
G1 – Para finalizar, podem citar duas lições para a área da educação que podemos tirar desse contexto de pandemia?
Edileuza Almeida -Temos muitas lições a tirar. Uma delas é que educação tem que ser prioridade.
Até para podermos controlar a proliferação do vírus, precisamos da educação. Porque, hoje, as pessoas estão com a postura de negação da vacina? Por falta de educação [informação].
E outra coisa: garantir direitos dos estudantes depende de um projeto coletivo, de sociedade. Estamos sentindo como é importante a articulação da escola com a comunidade, com as famílias.
“Temos visto escolas que criaram mecanismos de comunicação com a família, usando aplicativos, reuniões online. Essa lição é o princípio da gestão democrática: a participação da comunidade na escola é uma lição que temos levar para nossa vida.”
Olga Freitas – Romper com o que está posto para potencializar o que já existe. Principalmente por meio das tecnologias.
“Esse momento é uma grande janela de oportunidade para a educação entrar de vez na era tecnológica. Para decifrar [a tecnologia], não apenas utilizá-la.”
Professor é uma das dez profissões do futuro. Vivemos a era das aprendizagens, com foco em como se aprender e como se planejar para ensinar.
“O professor do futuro será aquele que pensa conteúdos diferenciados, que descentraliza conhecimentos e problematiza contextos da vida real. Também que dialoga com diferentes linguagens.”
O outro aprendizado desse período é que o povo brasileiro é muito solidário, muito humano, sensível e empático. Nunca vivemos tanto retrocessos, um apagão da ciência, mas vimos exemplos de pessoas que sentem a dor do outro e são capazes de exercer a alteridade. Isso é fantástico.
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