Mudança no hábito alimentar: a primeira, de muitas, que podemos adotar para viver melhor


Vegetais e outros nutrientes importantes para a saúde são deixados de lado, e os paladares já se acostumaram ao gosto das comidas calóricas.
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A crise institucional, política, econômica, na qual estamos mergulhados no Brasil e no resto do mundo, aqui na cidade do Rio de Janeiro tem contornos nítidos. Um deles é o aumento visível de pessoas que passaram a ter as ruas como única opção de moradia. Basta virar uma esquina, seja na Zona Sul, Centro, Norte, que se vai topar com algum pedaço de papelão estendido servindo de base para um corpo cansado.
Outro sinal bem claro é a quantidade de pessoas que vendem quentinhas pelas ruas. Também em qualquer região é possível encontrar este tipo de negócio informal que tem garantido a sobrevivência de muita gente que ficou desempregada. Ao mesmo tempo, porém, vem contribuindo para acirrar a crise nos pequenos restaurantes que vendem comida a preços populares. É difícil competir, já que o negociante instalado oficialmente precisa pagar impostos, salários, tarifas… A vida segue dura para todos, e a esperança tem sido evocada em cada esquina. Um estado pilhado, uma cidade cujo próprio prefeito chama de esculhambada.
A mudança nos hábitos alimentares pode ser a primeira de muitas outras que os novos tempos estão exigindo de nós.
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A questão das quentinhas me veio à lembrança por conta de uma pesquisa que acaba de ser publicada e que mostra que, em 2017, uma em cada cinco mortes (11 milhões de pessoas) foram associadas a uma dieta pobre. Em geral, o compartimento de isopor em que são servidas tais refeições tem o que mais agrada ao consumidor: arroz, feijão, macarrão, farofa e um pedaço de carne ou dois. Vegetais e outros nutrientes importantes para a saúde são deixados de lado, e os paladares já se acostumaram ao gosto das comidas calóricas. É assim também nas lanchonetes que vendem salgados e lanches a preços populares. Muita farinha, pouco recheio e uma bebida açucarada para completar. Um hábito que pode – e deve – ser mudado.
Segundo a pesquisa, o que é menos consumido em todo o mundo são as nozes e as sementes, o leite e os grãos integrais. Já as bebidas açucaradas, a carne processada e o sódio estão sempre à mesa de quem consegue escapar da crise maior, a da falta total de alimentos, que hoje vitima cerca de 800 milhões de pessoas.  Em média, o mundo consumiu apenas 12% da quantidade recomendada de nozes e sementes (cerca de 3g de consumo médio por dia, em comparação com 21g por dia) e bebeu cerca de dez vezes a quantidade recomendada de bebidas açucaradas (média de 49g, em comparação com 3g recomendado), mostraram os pesquisadores.
A causa das mortes de quem se alimenta mal foi associada à ingestão excessiva de sódio.
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A causa das mortes de quem se alimenta mal foi associada à ingestão excessiva de sódio que, como se sabe, tem à vontade nos alimentos processados, tanto para preservá-los quanto para dar-lhes algum sabor. E como é comum ver pessoas nas ruas comendo biscoitos para aplacar a fome!
A pesquisa, encomendada pela Fundação Bill & Melinda Gates, foi feita em 195 países e a proporção de mortes relacionadas com a dieta em 2017 foi mais alta no Uzbequistão e mais baixa em Israel. O Reino Unido ficou em 23º lugar, os Estados Unidos em 43º, a China em 140º e a Índia em 118º.
Aqui no Brasil, o maior problema visto pelos pesquisadores é o baixo consumo de grãos integrais, e nisto estamos acompanhados pelos Estados Unidos, India, Paquistão, Nigeria, Russia, Egito, Alemanha, Irã e Turquia. Arroz (integral), aveia, linhaça, chia, centeio, quinoa, gergelim são alguns grãos que estão faltando à nossa mesa. Ricos em fibras e nutrientes, eles deveriam fazer parte de toda refeição e poderiam livrar muita gente de diversos males, mas são pouco conhecidos pela grande maioria dos brasileiros. Sim, temos o feijão e ele é ótimo em ferro, magnésio, fibras e outros nutrientes. Mas, pelo que vimos no estudo apresentado esta semana, ele anda precisando de ajuda para, de fato, fornecer saúde aos brasileiros.
Aqui no Brasil, o maior problema visto pelos pesquisadores é o baixo consumo de grãos integrais.
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Regionalmente, a alta ingestão de sódio (acima de 3g por dia) foi o principal risco alimentar para morte e doenças na China, no Japão e na Tailândia. 
A conclusão dos pesquisadores é que os governos precisam agir, com intervenções no sistema alimentar para que as dietas possam ser reequilibradas em todo o mundo. Eles ressaltam que tiveram dificuldades de fazer o estudo porque há lacunas em dados nacionais representativos em nível individual para a ingestão de alimentos e nutrientes em todo o mundo e admitem que, por conta disso,  a evidência epistemológica não é tão forte quanto a evidência que liga outros fatores de risco importantes (como o tabaco e a hipertensão) a problemas de saúde.
“No entanto, a maioria das associações de dieta e saúde é apoiada por estudos randomizados (que se baseiam na comparação) de curto prazo com fatores de risco para doença como os resultados”, dizem.
Fazer uma alimentação mais saudável, mesmo que para isso seja necessário pesquisar mais preços e qualidades, é um caminho que leva a mais saúde
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Estamos em tempos difíceis e que exigem de nós, sobretudo, mais cuidados com nossa saúde. A pesquisa reaviva a necessidade de se rever não só hábitos alimentares como a lista de compras do dia a dia. Fazer uma alimentação mais saudável, mesmo que para isso seja necessário pesquisar mais preços e qualidades, é um caminho que leva a mais saúde, e disso não há dúvidas. Neste sentido, quanto mais informações, melhor. É o que esta era, que nos exige tanto, anda fornecendo com desenvoltura.
Sugiro, como reflexão sobre o tema, o documentário “Em defesa da comida”, baseado no livro homônimo de Michael Polland. Entre outras questões, ele trata da obesidade, que já é considerada uma doença pela Organização Mundial de Saúde. Nos Estados Unidos, nos últimos trinta anos, a obesidade infantil mais que dobrou.
A mudança nos hábitos alimentares pode ser a primeira de muitas outras que os novos tempos estão exigindo de nós.
Amélia Gonzalez
Arte/G1