‘Motor dessa banda’: Baterista da Cachorro Grande lembra de elogio que recebeu de Charlie Watts, do Rolling Stones


Banda gaúcha abriu o show dos britânicos em 2016, no Estádio Beira-Rio, em Porto Alegre. Gabriel Boizinho recorda de conversa com o ídolo, dicas roubadas e até a emoção de compartilhar o instrumento. Baterista da Cachorro Grande lembra encontro com Charlie Watts em 2016
“Nosso equipamento estava no corredor, enquanto eles passavam o som, e a minha bateria etava montada. Ele sentou e fez um som nela. Tenho essa bateria até hoje, vou ter para o resto da vida. E dá pra colocar que eu também toquei na bateria dele. Bota que eu toquei, mas só encostei”, brinca.
A morte de Charlie Watts, nesta terça-feira (24), aos 80 anos, fez Gabriel Boizinho relembrar a noite mais memorável da carreira como baterista da Cachorro Grande. A banda abria o show do Rolling Stones, em Porto Alegre, no Estádio Beira-Rio, em 2 de março de 2016.
Quando deixou o palco, Watts foi em sua direção cumprimentá-lo. O baterista britânico não viu a apresentação, mas ouviu, e disse ao brasileiro:
“Tu é o motor dessa banda. A minha tradução foi ‘o motor disso tudo’. Isso marcou minha vida”, recorda, emocionado, Boizinho.
FOTOS: relembre a carreira de Charlie Watts
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Por contrato, os músicos brasileiros não poderiam interagir com os ídolos, nem tampouco assistir à passagem de som. Porém, alguns encontros incidentais como este marcaram aquela noite.
Boizinho lembra que ficou observando o roadie ajustar a bateria e “roubou” dicas de afinação. A mesma bateria Gretsch que ele usa e o jogo único de peles pela turnê inteira foram coisas que o impressionaram.
Mas não mais do que quando o próprio Watts tocou em sua bateria.
“Nosso equipamento tava no corredor, enquanto eles passavam o som, e a minha bateria tava montada. Ele sentou e fez um som nela. Tenho essa bateria até hoje, vou ter para o resto da vida. E dá pra colocar que eu também toquei na bateria dele. Bota que eu toquei, mas só encostei”, brinca.
Rolling Stones em Porto Alegre, em 2016
Duda Bairros/Divulgação
Traçar qualquer paralelo em sonoridade entre Stones e Cachorro Grande é desnecessário. A influência dos britânicos na banda gaúcha é evidente. “O Truque do Ovo”, por exemplo, é uma música em que a batida ecoa os ensinamentos de Watts a uma geração inteira de bateristas.
“A batida seca no lugar certo da caixa. Quando comecei a ouvir Rolling Stones, há milhões de anos, me apavorava. Como comecei ouvindo metal, aquela coisa quadrada, escutava ele e as baterias não são iguais. Uma vez ele bate em um lugar, outra vez ele bate em outro. Aquilo me impressionou. Depois eu fui perceber que isso é o sentimento. Ele não toca forte, mas toca no lugar certo, e isso ressoa de uma maneira absurda”, diz.
Se é possível que alguém nunca tenha ouvido Rolling Stones, Boizinho sugere para um não iniciado na banda que escute “Gimme Shelter”, obra que, para ele, resume a genialidade de Watts.
“O que é o auge do músico? Para mim, é escutar duas notas e saber que é ele. O Charlie Watts é assim. Eu escuto duas notas e sei que é ele na bateria. Isso é identidade”, define.
Gabriel Boizinho postou no Instagram a foto do encontro com o ídolo Charlie Watts no show em 2016
Instagram/Reprodução
Futuro solo e volta da banda
A Cachorro Grande como banda terminou há dois anos. No entanto, nesse intervalo, os integrantes já lançaram trabalhos próprios. Beto Bruno gravou três discos, Marcelo Gross outros três, Rodolfo Krieger lançou um.
Boizinho revela que também tem um disco com 10 faixas finalizado, à espera do fim da pandemia para lançá-lo e retornar aos palcos, em princípio, em 2022. No álbum “Não Pise nos Sonhos” ele grava todos os instrumentos e canta em composições próprias.
“Este disco são as músicas da minha vida toda. Tenho música de 18 anos de idade. Não dá pra dizer que são sobras da Cachorro Grande. Algumas chegaram a ser gravadas, mas não entraram em discos por ser uma coisa muito peculiar minha. Todas têm significado, foram feitas para alguém”, diz.
Segundo ele, o afastamento entre os integrantes fez bem e a amizade continua. O luto pela morte de Charlie Watts, inclusive, foi compartilhado por todos.
“Eu preferi sair da banda porque estava sendo mais do mesmo. Queria evoluir um pouco. Quem sabe no momento propício a gente não volte a fazer alguma coisa juntos?”, provoca.
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