Morto aos 96 anos, Nelson Sargento deixa CD de inéditas e gravação com Wilson Moreira


Nora e produtora do cantor, Lívea Mattos conta que ele era muito ativo e tem vasta obra para ser descoberta. Sambista morreu nesta quinta-feira (27), no Rio., depois de ser diagnosticado com Covid. Nelson Sargento foi um dos principais nomes do samba e da música popular brasileira
‘Um velho novo’. É que assim que Lívea Mattos descreve o sogro, Nelson Sargento, de 96 anos, que morreu nesta quinta-feira (27) por complicações da Covid. Apesar da idade avançada, ela conta que “seu” Nelson – como era chamado -, era uma pessoa lúcida, alegre e extremamente ativa.
“Estamos muito chocados e profundamente entristecidos. Vamos sentir muita falta da sua alegria e das suas sacadas geniais. Ele era muito ativo, fez dois shows no Japão em 2019, arrastou uma plateia atrás dele por lá. Foi a pessoa mais velha a se apresentar no Rock in Rio naquele mesmo ano. Ele fez show até fevereiro de 2020. Só parou por causa da pandemia”, diz Lívea, que era produtora do cantor, junto com o marido, Ronaldo Mattos – filho caçula de Sargento.
Nelson com o filho Ronaldo: piada com Milton Gonçalves
Reprodução/Rede social
Aliás, é de Ronaldo, uma das piadas que o sambista adorava contar.
“Ele sempre contava que o ator Milton Gonçalves falava que o Ronaldo era neto, cadê seu neto. Um dia, o Nelson resolveu corrigir: que neto, o que, Milton? Ele é meu filho! Aí o Milton devolveu: ah, se é filho não precisa nem dizer qual o nome que eu já sei qual é, é milagre”, lembra rindo a nora.
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Obra inédita
Lívea conta que, mesmo afastados dos palcos, Nelson não parava de criar. Ela diz que ele deixa um CD de músicas inéditas com Agenor de Oliveira, tem uma gravação recém-descoberta com Wilson Moreira – que morreu em 2018 – , e muitos registros de shows e momentos íntimos gravados.
“Além disso, ele não parava de escrever. Tinha um caderninho em que escrevia orações, que gostava muito. Ele rezava vários vezes ao dia. Eu só tenho a agradecer por ter convivido com ele, mas vai fazer muita falta”, diz Lívea.
Nelson durante sua passagem pelo Japão, em 2019
Reprodução/Redes sociais
“Seu Nelson” e Lívea: parceria em família e nos shows
Reprodução/Redes sociais
Autor de ‘Agoniza, mas não morre’
Nelson Sargento morreu nesta quinta-feira (27), aos 96 anos, o presidente de honra da Estação Primeira de Mangueira e autor de sucessos como “‘Agoniza, mas não morre”. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), ele morreu às 10h45, no Rio de Janeiro.
Sargento foi diagnosticado com o Covid na última sexta-feira (21), quando foi internado no Inca. Além da idade avançada, Nelson também sofreu com um câncer de próstata anos atrás.
Nelson Sargento durante ensaio fotográfico na Cidade das Artes, Rio de Janeiro, em setembro de 2014
Claudia Martini/Enquadrar/Estadão Conteúdo/Arquivo
Uma de suas últimas aparições em público foi em 12 de fevereiro, no Museu do Samba, em um manifesto em defesa do carnaval — cancelado este ano por causa da pandemia.
“Todos nós estamos um pouquinho tristes por não ter desfile, mas foi melhor assim. Temos que estar todos vacinados para fazermos um grande carnaval em 2022”, disse o compositor na ocasião.
Devido a pandemia, a família do sambista informou que não haverá velório e o corpo será cremado em cerimônia restrita.
No dia 26 de fevereiro, o compositor da Mangueira recebeu a segunda dose da vacina contra a Covid-19 em casa. A primeira dose, em um ato simbólico no dia 31 de janeiro, marcou o início da imunização de idosos.
Segundo os epidemiologistas, nenhuma vacina é 100% eficaz, mas as chances de uma pessoa vacinada ser infectada pelo vírus é muito menor do que a de quem não foi vacinado. A proteção máxima só é alcançada quando grande parte da população está imunizada e o vírus para de circular.
Nelson Sargento tomou a segunda dose da vacina contra a Covid-19 nesta sexta-feira (26)
Reprodução/ Redes sociais
“As pessoas têm muita dificuldade de entender qual é a função de uma vacina”, diz Natalia Pasternak, bióloga e divulgadora científica brasileira, fundadora e primeira presidente do Instituto Questão de Ciência. “Elas acham que a vacina é mágica. Ou seja, tomou a vacina, está protegido; não tomou, vai ficar doente. Não é assim que vacinas funcionam.”
O vídeo abaixo mostra homenagem que o artista recebeu em julho do ano passado, ao completar 96 anos.
Nelson Sargento ganha homenagem na porta de casa durante a quarentena