Mortes de políticos levantam teorias da conspiração até hoje

As mortes de personagens do mundo políticos brasileiro desde 1950 ocorreram de forma natural ou acidental. No entanto, o contexto em que elas aconteceram suscitam até hoje diversas teorias da conspiração. Veja nas próximas fotos alguns desses casos e as versões paralelas que sempre existiram 

Na madrugada de 24 de agosto de 1954, o presidente Getúlio Vargas foi encontrado agonizando em sua cama no Palácio do Catete, sede do governo no Rio. O político vinha sofrendo pressões da imprensa e dos militares para renunciar ou se afastar do cargo. A versão oficial é de que Getúlio tirou a própria vida ao atirar contra o peito. No entanto, algumas inconsistências levantaram suspeitas

O revólver foi encontrado perto do braço direito de Getúlio, mas o tiro havia sido pelo lado esquerdo. Alguns dizem se tratar de uma posição pouco comum em casos de suicídio. A carta de despedida também foi contestada pelo redator do presidente, que disse que se tratava de um manifesto de resistência. No entanto, nunca se provou que ele foi vítima de um crime

A internação de Tancredo Neves, primeiro presidente eleito no pós-ditadura, um dia antes da posse e a consequente morte, em 21 de abril de 1985, levantaram diversas teorias de que o político fora assassinado. No lugar dele, assumiu o vice, José Sarney, mais alinhado com os militares

A teoria ganhou ainda mais força quando o general Newton Cruz, chefe do SNI (Serviço Nacional de Informação) durante o regime, afirmou em entrevista no Roda Viva que havia sido procurado pelo candidato à presidência Paulo Maluf — que perdeu a disputa — para tramar um golpe contra Tancredo, caso este fosse vencedor das eleições. Na época, Maluf negou a acusação e processou o militar

Deposto pelo golpe de 1964, o ex-presidente João Goulart morreu em 1976, na Argentina. O político era cardíaco e tomava três remédios importados da França e, segundo suspeitas, foram adulterados em operação conjunta da CIA (Agência Central de Inteligência dos EUA) e dos governos brasileiro e argentino

O depoimento do uruguaio Mário Neira fez o Ministério Público investigar a morte de Jango há dez anos. O homem afirmava ter participado de uma operação para matar o ex-presidente. Apesar disso, o inquérito foi arquivado por falta de provas. A versão de Neira também foi apontada como “confusa e contraditória”

O ex-presidente Juscelino Kubitschek morreu em um acidente de carro entre São Paulo e o Rio de Janeiro durante a ditadura militar, em 1976, o que deixou muita gente intrigada por décadas. O caso, inclusive, foi investigado pela Comissão Nacional da Verdade. Um buraco no crânio do motorista de JK poderia indicar uma perfuração por arma de fogo

No entanto, os integrantes da Comissão Nacional da Verdade concluíram que se tratou de um acidente e descartaram a possibilidade de assassinato. JK fez oposição à ditadura, tendo inclusive que se exilar em Paris, Lisboa e Nova York e foi preso ao retornar, durante o governo do general Costa e Silva

A morte do ex-deputado federal Ulysses Guimarães aconteceu em meio ao processo de impeachment do então presidente Fernando Collor, em outubro de 1992. O político havia sido um dos principais ícones contra a ditadura no país. O helicóptero em que Ulysses, a mulher dele, Mora, o ex-senador Severo Gomes a mulher, Maria Henriqueta, e o piloto estavam caiu no mar em Angra dos Reis (RJ)

O único corpo que não foi encontrado foi o de Ulysses. Por ter sido peça central em toda a crise que terminou com o impeachment de Collor e frequentemente xingado nos bastidores pelo então presidente, muitos acreditam na possibilidade de um crime, o que nunca se comprovou

A corrida presidencial de 2014 mal havia começado e o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos se consolidava como terceiro colocado nas pesquisas. Em 13 de agosto, o jatinho em que ele e outras cinco pessoas estavam caiu em um bairro residencial de Santos, litoral de São Paulo

A principal teoria da conspiração não veio de boatos nas redes sociais, mas do próprio irmão de Eduardo Campos, o advogado Antonio Campos. Ele suspeita que a aeronave possa ter sido sabotada. A motivação para alguém praticar um atentado contra o candidato, porém, não foi apontada. Em janeiro de 2016, a Aeronáutica concluiu que os pilotos não tinham treinamento para o trajeto de desvio feito pelo avião e apontou também fadiga dos tripulantes 

Apesar de não ser político, Teori Zavascki era o responsável por processos no Supremo Tribunal Federal envolvendo parlamentares e ministros com foro privilegiado. O ministro relator da Lava Jato se preparava para dar continuidade ao acordo de delação premiada de executivos da construtora Odebrecht quando foi vítima de um acidente aéreo em Paraty, litoral do RJ, faltando poucos dias para o fim das férias dele. Morreram também outras quatro pessoas

Muitas pessoas acreditam até hoje que o ministro foi alvo de vingança de políticos, que se sentiam ameaçados pelo avanço das investigações. Na época do acidente, houve relatos de que o piloto havia sido cegado por laser e até que o avião pegou fogo antes de cair no mar, em 19 de janeiro de 2016. O filho do magistrado chegou a relatar supostas ameaças em redes sociais, mas nada se confirmou. As investigações indicam que o piloto perdeu a orientação devido ao mau tempo

Outro que não era político, mas atuou no meio durante alguns anos foi o empresário Paulo César Farias, o PC Farias. O ex-tesoureiro de Fernando Collor e a mulher, Suzana Marcolino, foram encontrados mortos na casa dele, na praia de Guaxuma (AL), mesmo com quatro seguranças na propriedade. A primeira versão da polícia não demorou a sair: a mulher havia atirado nele e se matado em seguida. PC Farias esteve no centro do escândalo de corrupção que terminou com o impeachment de Collor

O irmão de PC Farias, o ex-deputado federal Augusto Farias, chegou a ser indiciado como suspeito — ele foi à casa horas antes do crime. Mas o caso foi arquivado. A tese de duplo homicídio se manteve, mas até hoje sem que qualquer responsável tenha sido identificado. A possibilidade de o crime ter sido uma queima de arquivo continua a existir na cabeça de muita gente, uma vez que o empresário tinha conhecimento profundo de diversos esquemas de corrupção na política brasileira