Morte de MC Kevin potencializa efeito emocional do balanço existencial do artista no álbum ‘Passado & presente’


Entre batidas de funk e trap, o disco póstumo apresenta músicas biográficas em que o cantor reflete sobre a vida e escancara a realidade social das quebradas. Capa do álbum ‘Passado & presente’, de MC Kevin
Divulgação
Resenha de álbum
Título: Passado & presente
Artista: MC Kevin
Edição: Revolução Records
Cotação: * * * 1/2
♪ É inegável o salto qualitativo dado pelo cantor e compositor paulista Kevin Nascimento Bueno (29 de abril de 1998 – 16 de maio de 2021) entre o primeiro álbum do funkeiro – MC Kevin, disco imaturo gravado em 2015 e lançado em fevereiro de 2016 com repertório de alta voltagem erótica que fez o jogo do mercado ao versar basicamente sobre o prazer do sexo – e o atual Passado & presente, álbum reflexivo que, apresentado nesta sexta-feira, 21 de maio, se tornou inesperada e tragicamente póstumo com a morte de Kevin na noite do último domingo, aos breves 23 anos.
Entre um álbum e outro, houve singles virais, como O menino encantou a quebrada (2017) e Cavalo de Troia (2018), e houve EP ainda recente, Fênix (2021), lançado em fevereiro.
E parece ter havido, também e sobretudo, maior compreensão do artista a respeito da importância do salto que Kevin dera na própria vida ao descartar o trabalho como traficante de drogas – caminho errado que a realidade nua e crua oferece para meninos das quebradas sem perspectiva social – para investir no funk.
Leia: Passado & Presente: MC Kevin deixou álbum reflexivo e intenso.
“Eu prefiro correr do perigo para cantar”, pondera MC Kevin em verso de Opção, em discurso corroborado por MC PH, convidado da faixa.
Primeiro lançamento da gravadora aberta por Kevin, Revolução Records, o álbum Passado & Presente soa conceitual. Entre batidas de funk e trap, mistura que já vinha se tornando tendência na discografia do MC, em sintonia com o ritmo do momento, Kevin faz balanço existencial em músicas biográficas como 1 milhão de sonhos (gravada com Pedro Lotto), Inspiração (com MC Ryan SP) e Alma pura (faixa formatada com adesões de Vulgo FK, EoBronks e Wall Hein).
MC Kevin tem o álbum póstumo ‘Passado & presente’ lançado nesta sexta-feira, 21 de maio
Divulgação / Revolução Records / WMD
Por bater nessa mesma tecla, o álbum por vezes até se torna repetitivo, mas essa linearidade se dilui face à aparente sinceridade do inventário do artista. Balanço feito com direito à exposição do orgulho de ter vencido na vida louca e, contra todas as adversidades, ter conquistado bens materiais – assunto de Trilha e sobretudo de Grana, faixa soturna que traz o produtor e beatmaker Wall Hein.
Justiça seja feita postumamente: MC Kevin jamais maquia o discurso para esconder os demônios que lhe tentaram ou a realidade social de onde veio – no caso, da periferia da zona norte da cidade de São Paulo (SP).
Em Sistema, outra faixa com Wall Hein, o funkeiro acusa a existência de falsos amigos que surgem com a fama, os “baba-ovo” mencionados na letra. “Hipocrisia e simpatia é uma junção venenosa”, reforça, ao lado de MC Hariel, no canto de Junção venenosa.
Em Palhaço, sem tirar o foco da própria trajetória, Kevin menciona o racismo e a fome que acossam pretos e pobres nas comunidades.
Com arquitetura mais suave, inclusive pela predominância de sons acústicos, a canção Vida longa encerra o álbum com letra em que Kevin fala nos “momentos perdidos” que teve na vida e, citando Deus, fala também em perdão.
Entre vícios e virtudes, o álbum Passado & presente deixa tristeza no ar porque, no momento em que o disco chega ao mundo, MC Kevin já deixou esse mundo de forma precoce ao cair do quinto andar de hotel na cidade do Rio de Janeiro (RJ), duas semanas após ter feito 23 anos.
A vida de MC Kevin foi curta e a tragédia da morte do funkeiro potencializa o efeito emocional do balanço existencial feito pelo artista neste disco que escancara realidade social marginalizada que parte do Brasil prefere esconder ou mesmo negar.
Nesse sentido mais antropológico do que musical, o álbum Passado & presente inventaria sentimentos, escolhas e tentações de MC ainda menino que queria somente encantar a quebrada para escapar da realidade dura com a qual lidava cotidianamente. Realidade que driblou por meio do funk, plataforma de ascensão social para meninos e meninas das quebradas como Kevin Nascimento Bueno.