Moraes Moreira, o alquimista novo baiano que deu frescor à MPB com mistura pop brasileira


Compositor deixa obra grandiosa e relevante, inclusive na discografia solo iniciada em 1975 com gravações que apontaram os caminhos da ‘axé music’ dos anos 1980. ♪ OBITUÁRIO – É justo dimensionar Antonio Carlos Moreira Pires (8 de julho de 1947 – 13 de abril de 2010) como um dos maiores nomes da música brasileira. Moraes Moreira – como ficou conhecido o cantor, compositor e violonista baiano nascido na interiorana cidade de Ituaçu (BA) – pode nunca ter sido incluído no panteão dos ícones da MPB, mas deu grande contribuição para a música popular do Brasil.
Moraes Moreira morreu na manhã desta segunda-feira, 13. Tinha 72 anos. Mas não aparentava a idade com que saiu de cena, dormindo. Porque Moraes Moreira foi desde sempre um eterno novo baiano que fazia da juventude uma marca dos sons que mexeu e remexeu como alquimista.
Moraes Foi um novo baiano bossa nova, fã do conterrâneo João Gilberto (1931 – 2019), cantor e violonista fundamental para a formatação da mistura pop brasileira que deu projeção ao som dos Novos Baianos, o grupo que Moraes formara em 1969 com Luiz Galvão (o poeta letrista, parceiro de Moraes em standards de 1972 como A menina dança e Preta pretinha), Paulinho Boca de Cantor, Baby Consuelo e Pepeu Gomes.
Antes de João, o grupo Novos Baianos fazia rock psicodélico sob a benção tropicalista, como ficou nítido no álbum inicial É ferro na boneca! (1970). Depois de João, que visitou os músicos na comunidade em que os Novos Baianos viviam sob os libertários mandamentos do universo hippie, a luz se acendeu e o grupo entrou para a história a partir do icônico segundo álbum, Acabou chorare (1972), amostra perfeita do frescor pop com que Moraes e Cia. misturaram rock, samba e choro com brasilidade e eletricidade jovial.
Capa do primeiro álbum solo do artista, ‘Moraes Moreira’, lançado em 1975
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Se a obra de Moraes Moreira estivesse restrita ao repertório dos Novos Baianos, grupo com o qual o cantor ainda fez os álbuns Novos Baianos F. C. (1973) e Novos Baianos (1974) antes de deixar a banda em 1974 para seguir carreira solo iniciada em 1975, essa obra já lhe valeria lugar de honra no panteão da música brasileira.
Só que Moraes Moreira construiu discografia vigorosa fora do grupo, dando voz a um cancioneiro de grande efervescência rítmica que apontou na década de 1970 os caminhos que, nos anos 1980, dariam na música afro-pop-baiana rotulada como axé music – cancioneiro autoral encerrado na madrugada de 17 de março com a composição do cordel Quarentena, criado sob inspiração do isolamento social adotado no mundo para enfrentamento da epidemia do coronavírus.
Após os álbuns Moraes Moreira (1975), Cara e coragem (1977) e Alto falante (1978), o artista atingiu ponto de excelência na carreira solo com o quarto álbum solo, Lá vem o Brasil descendo a ladeira (1979), batizado com o nome do samba que Moraes compusera com Pepeu Gomes.
De espírito carnavalesco, esse disco amplificou o som elétrico de Moraes e deu o tom da festa dos trios de Salvador (BA) com músicas como Chão na praça, parceria de Moraes com Fausto Nilo.
Moraes Moreira na capa do single ‘I’m the captain of my soul’, de 2018
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Fornecedor de hits da fase tropical de Gal Costa, como o frevo junino Festa do interior (Moraes Moreira e Abel Silva, 1981) e o frevo Bloco do prazer (parceria com Fausto Nilo lançada em 1979, mas popularizada por Gal em 1982), Moraes manteve o pique como compositor na criação dos repertórios de álbuns como Bazar brasileiro (1980), Moraes Moreira (1981), Coisa acesa (1982), Pintando o oito (1983) e Mancha de dendê não sai (1984), todos apostando na alquimia rítmica.
Com liberdade para misturar sons e ritmos, Moraes se permitiu fazer metalinguística canção pop romântica para tocar no rádio, Sintonia (Moraes Moreira, Fred Góes e Zeca Barreto), hit do álbum sintomaticamente intitulado Mestiço é isso (1987).
Sete anos depois, Moraes trouxe a brasilidade baiana para o universo erudito no álbum O Brasil tem conserto (1994), item diferenciado na discografia desse artista que, quatro anos antes, se reunira com Pepeu Gomes para gravação de estupendo álbum editado em 1990 e seguido por disco ao vivo lançado em 1991 com registro de show da dupla no Japão.
Se o cantor perdeu o viço vocal por conta dos efeitos do tempo, o compositor permaneceu inquieto, elétrico, quase sempre inspirado, mesmo longe das paradas de sucesso.
A revolta do ritmos, álbum de 2012, é especialmente relevante na década final da obra de Moraes, que se juntou com o filho guitarrista, Davi Moraes, no álbum Nossa parceria (2015), antes de se reunir com os Novos Baianos para show que saiu em turnê pelo Brasil e ficou perpetuado no álbum e DVD Acabou chorare – Novos Baianos se encontram (2017).
Alquimista que nunca perdeu o gosto pela mistura brasileira e pela experimentação, simbolizada pela investida no cordel no derradeiro álbum Ser tão (2018), Moraes Moreira deixa obra ainda a ser explorada e corretamente dimensionada tanto pela quantidade quanto, sobretudo, pela alta qualidade. Obra que tornou Antonio Carlos Moreira Pires um dos maiores nomes da música brasileira.