Mochila que monitora passos e gasto calórico ajuda a preservar o ameaçado mico-leão-preto


Bicho carrega nas costas GPS e acelerômetro, aparelhos que permitem acompanhamento preciso e que vão contribuir para proteger uma das espécies de primatas mais raras no planeta. A mochila tem apenas 18 gramas e é o aprimoramento do colar de GPS, usado pela primeira vez em animais desse porte pelo Instituto de Pesquisas Ecológicas, no Brasil
Fernanda Abra
Contar os passos e o gasto calórico já virou rotina para muitas pessoas que praticam exercícios. Esses números, geralmente medidos por relógios digitais, ajudam quem quer perder peso ou simplesmente ter uma vida mais saudável.
Essa mesma tecnologia que fornece esse tipo de medição está sendo usada para salvar o mico-leão-preto, uma das espécies de primatas mais raras e ameaçadas do planeta.
Ao contrário dos seres humanos, os bichos não usam relógios, e sim, mochilas, colocadas por pesquisadores que estão estudando o comportamento do animal na região de Presidente Prudente (SP), no Oeste Paulista.
O objetivo é usar os dados em favor da preservação da espécie, que vive em pequenos fragmentos de vegetação no maior e mais preservado remanescente de Mata Atlântica do Estado de São Paulo, no Pontal do Paranapanema, na divisa com o Paraná e o Mato Grosso do Sul.
Através do equipamento, os pesquisadores vão conseguir analisar, por exemplo, o movimento migratório dos micos, a velocidade em que eles estão transitando e quanta energia está sendo gasta para eles se deslocarem. Tudo isso é medido por um GPS e um acelerômetro (usado para mensurar a aceleração de um objeto).
Até a primeira quinzena de fevereiro, quatro grupos de micos já estavam com as mochilas. A expectativa dos pesquisadores é de que mais três grupos recebam o equipamento ainda no primeiro semestre de 2021.
Com base nesses registros, os pesquisadores vão traçar estratégias capazes de melhorar a qualidade das florestas e apoiar os planos de ação para a conservação não só do mico-leão-preto, mas de primatas do Brasil e de todo o mundo.
Doutoranda e mestre em Ecologia, Evolução e Biodiversidade, a pesquisadora Gabriela Cabral Rezende diz que o objetivo é obter dados mais específicos – e cada vez mais precisos – sobre o mico-leão-preto.
“Será possível reconstruir o movimento deles e calcular, por exemplo, o gasto energético diário a partir dessa movimentação”, afirma.
Ela fala ainda que as pesquisas feitas em campo revelam as necessidades da espécie, “possibilitando a elaboração de estratégias para sua conservação”.
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Gabriela Cabral Rezende, pesquisadora que atua no Programa de Conservação do Mico-leão-preto
Leonardo Silva
O projeto
Essa pesquisa faz parte do Programa de Conservação do Mico-leão-preto, liderado pelo Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) e que está entre as iniciativas de conservação mais duradouras do Brasil.
A luta pela preservação da espécie começou há mais de 35 anos.
O trabalho é realizado em parceria com o Laboratório de Primatologia (LaP), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro (SP), e com o Laboratório de Movimentação Animal (SLAM), da Universidade de Swansea, no País de Gales.
O equipamento
A mochila colocada nos macaquinhos – que, quando adultos, pesam em média 600 gramas –tem apenas 18 gramas e é o aprimoramento do colar de GPS, usado pela primeira vez em animais desse porte pelo IPÊ, no Brasil. Nessa nova versão, o equipamento ganhou o acelerômetro.
As informações registradas na mochila são essenciais para os próximos passos do Programa de Conservação do Mico-leão-preto.
Segundo estimativa dos pesquisadores, 1.800 indivíduos vivem na natureza, mas eles estão concentrados em determinadas áreas – majoritariamente no extremo Oeste Paulista.
Endêmico da Mata Atlântica no interior do Estado de São Paulo, o mico-leão-preto já foi considerado extinto da natureza por muitos anos
IPÊ
‘De mudança’
Gabriela Rezende afirma que, a partir do segundo semestre deste ano, o manejo das populações começará a ser feito na região. Alguns grupos serão removidos para outras áreas de floresta, que estão sendo conectadas pelos corredores ecológicos, conhecidos como “corredores da vida” – outro renomado projeto do IPÊ que prevê o plantio de árvores em meio ao agronegócio. Trata-se de um dos maiores projetos de restauração florestal em execução no Brasil.
Com o desmatamento que devastou todo o Estado de São Paulo ao longo das últimas décadas, sobraram poucas áreas de florestas no Oeste Paulista.
“Isolados”, os micos passaram a se deslocar cada vez menos entre os fragmentos e, com isso, sobraram pequenas populações desses animais.
Os corredores ecológicos têm a intenção de resgatar essas conexões entre as florestas.
Com indivíduos espalhados pela região, evita-se assim a reprodução entre parentes muito próximos, conhecida também como consanguinidade genética.
Na prática, os pesquisadores almejam que os micos “mudem de casa” mais frequentemente, explorando diferentes áreas, e encontrando-se entre si.
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Interpretação dos dados
Com os dados do GPS e do acelerômetro em mãos, os pesquisadores vão conseguir avaliar, por exemplo, se os micos estão gastando menos energia na movimentação em florestas de mais qualidade, com mais recursos e alimentos, o que, segundo os cientistas, é fundamental para a sobrevivência da espécie.
Será possível verificar, por exemplo, em que áreas os micos gastam mais energia para se deslocar.
Segundo Gabriela Rezende, é importante saber o que representa obstáculo para os micos.
“Se em algumas áreas dessas florestas identificarmos, a partir dos dados, que o gasto energético é maior, significa que ele está tirando essa energia de outra atividade; energia que ele poderia ter investido, por exemplo, para se reproduzir. E isso pode interferir, de fato, na conservação da espécie no longo prazo. Uma vez que identificamos esses lugares na floresta onde há aumento do gasto energético e avaliamos a estrutura dessa floresta, seremos capazes de planejar os próximos plantios de árvores pensando na floresta ideal para a sobrevivência da espécie no futuro”, diz a pesquisadora.
Ocos naturais
Outra técnica importante para ajudar os micos a habitarem novas áreas reflorestadas é a instalação de ocos artificiais nas copas das árvores.
São caixinhas de madeira colocadas no alto das árvores para simular os ocos naturais que esses macacos usam pra se abrigar durante a noite. Em florestas novas, esse recurso não está tão disponível. Como os micos precisam dos ocos para proteção contra predadores e adversidades climáticas (frio e chuva), a ideia é instalar essas caixas.
Para monitorar o bicho, os pesquisadores também estão instalando câmeras trap, que servirão para gravar a movimentação deles.
Ocos artificiais são instalados no alto das árvores para simular os ocos naturais que esses macacos usam pra se abrigar durante a noite
Fernanda Abra
O mico
Endêmico da Mata Atlântica do interior do Estado de São Paulo, o mico-leão-preto já foi considerado extinto da natureza por muitos anos e, ainda hoje, sua situação é grave.
Porém, devido aos esforços do projeto do IPÊ, a espécie é listada em uma categoria de menor gravidade de extinção.
“O Programa de Conservação Mico-Leão-Preto envolve não apenas a conservação dos micos, mas também de todo o ecossistema em que eles ocorrem. A ideia é utilizar a espécie como um símbolo ou ‘guarda-chuva’ para a conservação de áreas florestais prioritárias. O objetivo é recuperar áreas degradadas e/ou criar corredores que conectem os fragmentos de matas onde famílias de micos se encontram isoladas”, cita, em nota, o instituto, um dos mais importantes do país.
Dia do Mico
Neste domingo (28), comemora-se no Brasil o Dia do Mico-Leão-Preto, instituído pela portaria nº 4, de 17 de setembro de 2018, do Ministério do Meio Ambiente.
Primata considerado “em perigo de extinção”, nas listas de espécies ameaçadas internacional, brasileira e estadual, o mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus) existe apenas nas porções oeste e sul do Estado de São Paulo, nos remanescentes de Mata Atlântica de Interior e matas ciliares, e tem um papel importante nessa porção florestal.
Devido à intensa devastação dessa floresta e à fragmentação de seu habitat, a espécie sofreu uma redução significativa da população a aproximadamente 1.500 indivíduos. Para se ter uma ideia, o mico-leão-preto foi considerado extinto por 65 anos, devido à ausência de registros na natureza, até sua redescoberta em 1970. Com os esforços de conservação de organizações socioambientais e governamentais, hoje o mico-leão-preto tem um futuro mais promissor.
Assim como outros primatas, o mico é uma espécie sentinela, que indica a saúde de um ambiente (por exemplo, se uma área é afetada pelo mosquito da febre amarela, são os primeiros a sentirem o impacto), e também é um bom dispersor de sementes, auxiliando na manutenção das florestas dos locais onde vive.
Por ser uma espécie tão especial, que no mundo só existe em uma área restrita de São Paulo, o mico-leão-preto é considerado a espécie símbolo do Estado.
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