Ministro pede dados da Amazônia ao Inpe e convoca reunião com diretor após críticas de Bolsonaro


‘Com toda a devastação que vocês nos acusam de estar fazendo e de ter feito no passado, a Amazônia já teria se extinguido’, afirmou o presidente, que também acusou o diretor do Inpe de estar ‘a serviço de alguma ONG’. O diretor nega. O ministro da Ciência e Tecnologia (MCTIC), Marcos Pontes, divulgou uma nota nesta segunda-feira (22) informando que está solicitando ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) dados consolidados sobre o desmatamento da Amazônia nos últimos 24 meses. Pontes também afirma que o diretor do instituto, Ricardo Galvão, foi convidado para “esclarecimentos e orientações”.
Na última sexta-feira (19), o presidente Jair Bolsonaro questionou os dados divulgados pelo Inpe sobre o aumento do desmatamento na Amazônia. Ele também disse suspeitar que o diretor do Inpe estaria “a serviço de alguma ONG”. “Com toda a devastação que vocês nos acusam de estar fazendo e de ter feito no passado, a Amazônia já teria se extinguido”, afirmou.
Desmatamento na Amazônia em junho é 88% maior do que no mesmo período de 2018
No sábado (20), Ricardo Magnus Osório Galvão, diretor do Inpe, negou as acusações de Bolsonaro, reafirmou os dados sobre desmatamento e disse que não deixará cargo. O Inpe afirmou em nota que sua política de transparência permite o acesso completo aos dados e acrescentou que a metodologia do instituto é reconhecida internacionalmente.
No domingo (21), o presidente voltou a criticar a divulgação de dados sobre desmatamento no Brasil e falou que Galvão deveria se reportar ao seu superior quando tivesse dados importantes. “No mínimo, se o dado for alarmante, ele [Ricardo Magnus Osório Galvão, diretor do Inpe] deveria, em tom de responsabilidade, respeito e patriotismo procurar o chefe imediato. […] Um dado desse aí, da maneira de divulgar, prejudica a gente”, declarou Bolsonaro.
Grupo de cientistas lança manifesto em apoio ao Inpe após Bolsonaro questionar dados de desmatamento na Amazônia
Marcos Pontes afirmou que tem “grande apreço” pelo Inpe, mas que “compartilha a estranheza” do presidente Bolsonaro sobre a variação percentual de desmatamento dos últimos anos. Ele também afirmou que “discorda do meio e da forma” usada por Galvão ao responder à fala do presidente.
Pontes disse que somente após a reunião com Galvão é que serão definidos os próximos passos.
Procurado pelo G1, o Inpe informou que a reunião ainda não foi agendada pelo ministério e que voltará a se manifestar após este encontro. O MCTIC reafirmou o conteúdo da nota (leia abaixo) e disse que não tem mais informações disponíveis.
Reprodução da nota publicada pelo ministro Marcos Pontes sobre o Inpe e as críticas de Bolsonaro aos dados de desmatamento na Amazônia.
Reprodução/Twitter/@Astro_Pontes
Acusações de Bolsonaro
“A questão do Inpe, eu tenho a convicção que os dados são mentirosos, e nós vamos chamar aqui o presidente do Inpe para conversar sobre isso, e ponto final nessa questão.”
“Mandei ver quem está à frente do Inpe. Até parece que está a serviço de alguma ONG, o que é muito comum.”
“Se for somado o desmatamento que falam dos últimos 10 anos, a Amazônia já acabou. Eu entendo a necessidade de preservar, mas a psicose ambiental deixou de existir comigo.”
Respostas de Galvão
“Esses dados sobre desmatamento da Amazônia, feitos pelo Inpe, começaram já em meados da década de 70 e a partir de 1988 nós temos a maior série histórica de dados de desmatamento de florestas tropicais respeitada mundialmente.”
“Tenho 71 anos, 48 anos de serviço público e ainda em ativa, não pedi minha aposentadoria. Nunca tive nenhum relacionamento com nenhuma ONG, nunca fui pago por fora, nunca recebi nada mais do que além do meu salário com o servidor público.”
“Ao fazer acusações sobre os dados do Inpe, na verdade ele faz em duas partes. Na primeira, ele me acusa de estar a serviço de uma ONG internacional. Ele já disse que os dados do Inpe não estavam corretos segundo a avaliação dele, como se ele tivesse qualidade ou qualificação de fazer análise de dados.”
Desmatamento
De acordo com números divulgados pelo Inpe no início deste mês, o desmatamento na Amazônia Legal brasileira atingiu 920,4 km² em junho, um aumento de 88% em comparação com o mesmo mês no ano passado.
As áreas da Amazônia que deveriam ter ‘desmatamento zero’ perdem o equivalente a 6 cidades de SP em três décadas. Fora das áreas protegidas, a Amazônia perdeu 39,8 milhões de hectares em 30 anos, o que representa 19% sobre todas a floresta natural não demarcada que existia em 1985, uma perda equivalente ao tamanho de 262 cidades de São Paulo. Nas áreas protegidas, a perda acumulada foi de 0,5%.
Fundo Amazônia
De acordo com o Inpe, os dados dos satélites também servem de referência para orientar as doações ao Fundo Amazônia, criado em 2008 e administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para desenvolver ações de conservação da floresta e redução do desmatamento. A maior parte das doações vem da Noruega e da Alemanha.
Desde maio o ministro do Meio Ambiente tenta mudar algumas regras do Fundo, mas Alemanha e Noruega se opõem. Entre as propostas do governo está usar os recursos para pagar indenizações a donos de propriedades privadas que viviam em áreas de unidades de conservação. As atuais regras não permitem o uso do dinheiro para tal pagamento.
SBPC divulga manifesto
Ainda no domingo, o Conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) divulgou um manifesto em apoio ao Inpe.
“Em ciência, os dados podem ser questionados, porém sempre com argumentos científicos sólidos, e não por motivações de caráter ideológico, político ou de qualquer outra natureza”, diz o texto do manifesto. “Críticas sem fundamento a uma instituição científica, que atua há cerca de 60 anos e com amplo reconhecimento no País e no exterior, são ofensivas, inaceitáveis e lesivas ao conhecimento científico”, afirma o documento.
Leia a íntegra da nota do ministro Marcos Pontes
Com relação aos dados de desmatamento produzidos pelo INPE, organização pelo qual tenho grande apreço, entendo e compartilho a estranheza expressa pelo nosso presidente Bolsonaro quanto à variação percentual dos últimos resultados na série histórica.
A contestação de resultados, assim como a análise e discussão de hipóteses, são elementos normais e saudáveis do desenvolvimento da Ciência, suas teorias e metodologias.
Portanto, o MCTIC está solicitando ao INPE um relatório técnico completo contendo os resultados da série histórica dos últimos 24 meses, assim como informações detalhadas sobre os dados brutos, a metodologia aplicada e quaisquer alterações significativas desses fatores no período
O relatório será analisado conjuntamente pelos técnicos do MCTIC, do INPE e do MMA, sempre visando a melhoria continuada do monitoramento e preservação ambiental, assim como o aperfeiçoamento das ferramentas e metodologias empregadas no sistema.
Sobre as declarações do diretor do INPE, organização vinculada ao MCTIC, que foram feitas à imprensa em resposta ao questionamento do Presidente da República Jair Messias Bolsonaro em relação aos dados de desmatamento:
Embora entenda o contexto do fator emocional, discordo do meio e da forma utilizada pelo diretor, visto que não corresponderam ao tratamento esperado na relação profissional, especialmente com o Chefe do Executivo do País.
Em consequência, o Diretor do INPE foi convidado pelo MCTIC para esclarecimentos e orientações. A partir dessa reunião serão definidos novos passos.
Portanto, o tratamento das questões relativas aos dados de desmatamento e as declarações do diretor do INPE está em curso, não havendo no momento mais nada a acrescentar sobre o assunto. Havendo desdobramentos significativos em qualquer das questões, eles serão divulgados oportunamente.
Marcos Pontes
Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações – MCTIC