Milton Ribeiro diz que Enem 2021 terá a cara do governo ‘no sentido de competência, honestidade e seriedade’


Ministro da Educação compareceu voluntariamente à Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Ele negou interferência ideológica na formulação do exame. Servidores do Inep detalham interferência no conteúdo das provas do Enem
Reprodução/Fantástico
O ministro da Educação, Milton Ribeiro, afirmou nesta quarta-feira (17) que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2021 terá, sim, a cara do governo, como dito pelo presidente Jair Bolsonaro.
Ribeiro detalhou o que isso significaria: “no sentido de competência, honestidade e seriedade”.
“Essa é a cara do governo. Não temos nenhum ministro preso, nenhum caso de corrupção. Isso é importante”, disse Ribeiro, na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados.
Logo após essa declaração, houve tumulto entre os parlamentares.
Interferência do governo na prova
O g1 revelou, em reportagem publicada na sexta-feira (12), que servidores do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) afirmam ter sofrido pressão psicológica e vigilância velada na formulação do Enem, para que evitassem escolher questões polêmicas que eventualmente incomodariam o governo Bolsonaro.
Na Câmara, Ribeiro negou que tenha havido qualquer interferência ideológica na montagem da prova.
“Até por ordem de hierarquia, não posso achar que é anormal o ministro da Educação ter acesso à prova, mas abri mão disso. Em nenhum momento, houve interferência na qualidade ou na quantidade [de perguntas]. As questões fazem parte de um banco preparado [Banco Nacional de Itens] já em outras gestões.”
O presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Danilo Dupas Ribeiro, também negou ter tido acesso à prova. Ele compareceu a uma audiência no Senado nesta quarta-feira.
Exclusivo: servidores do Inep detalham tentativas de interferência no conteúdo do Enem
Críticas ao Enem e ameaças de ‘intervenção’
Durante o governo Bolsonaro, houve episódios de críticas a questões do Enem (por motivos ideológicos) e tentativas de interferir no conteúdo da prova.
Veja abaixo:
Em 2018, Bolsonaro protestou contra uma pergunta do Enem sobre o dialeto de gays e travestis (pajubá) e chegou a dizer que tentaria “tomar conhecimento” do conteúdo do exame no ano seguinte.
Em 2019, o Inep criou uma comissão para fazer uma “leitura transversal” das questões que compõem o Banco Nacional de Itens do Enem. O objetivo era “verificar a pertinência com a realidade social” das perguntas.
À época, “O Globo” revelou, por exemplo, que o termo “ditadura” seria substituído por “regime militar”, em um item da prova de Linguagens, Códigos e suas tecnologias.
Em 2020, uma pergunta sobre as diferenças salariais entre os jogadores de futebol Neymar e Marta gerou reprovação do presidente. Na ocasião, ele afirmou que a prova tem questões “ridículas”.
Em 2021:
Depois disso, foi a vez de o ministro da Educação, Milton Ribeiro, falar em ter acesso prévio ao Enem. Ele voltou atrás após críticas de “censura”.
Em junho de 2021, a “Folha de S.Paulo” teve acesso a documentos que revelavam a intenção de o Ministério da Educação (MEC) criar uma comissão permanente para revisão ideológica da prova. O plano não foi concretizado após a repercussão negativa.
Em outubro, o Ministério Público Federal recomendou que o Inep não criasse a “comissão ideológica”, considerando que a “pretensa neutralidade ideológica da proposta, na verdade, pode esconder um conjunto de ideias contrárias ao pluralismo de ideias e à liberdade de expressão”.
O g1 apurou que, em resposta ao MPF, o Inep disse em 8 de outubro que “não tem previsão de criar a comissão” e que, por isso, “está atendendo à recomendação” do órgão. O posicionamento está em análise no Ministério Público.
Terceirização do acervo de questões:
Também neste ano, em agosto, um documento revelou que o Inep estuda a possibilidade de terceirizar a formulação de perguntas do Enem e a “calibragem” dos níveis de dificuldade da prova.
Servidores temem que o instituto perca o controle da composição das provas e não consiga impedir que interessados obtenham “vantagens ilícitas” ao participarem da composição das questões.
Esta reportagem está em atualização.