‘Me sinto bem com você’ une Manu Gavassi e Matheus Souza: ‘Quero que seja como um abraço’


Filme com cinco histórias de relações no isolamento social estreia nesta quinta (20) no Amazon Prime Video. ‘Não acho que a gente tenha que lutar contra a melancolia’, diz diretor ao G1.
‘Me sinto bem com você’: assista ao trailer
Entre janelinhas de Zoom, stories e áudios, “Me sinto bem com você” é o primeiro trabalho fruto da parceria entre Matheus Souza e Manu Gavassi. O longa estreia no Amazon Prime Video nesta quinta-feira (20).
O diretor brasiliense de 33 anos ficou conhecido por seus roteiros sobre relacionamentos de jovens adultos e se mantém na temática, agora em tempos de pandemia e isolamento social.
A cantora e Matheus vivem ex-namorados trocando mensagens pela primeira vez após o término. Ela também é uma das produtoras.
Entre as primeiras linhas escritas e o filme pronto, Matheus e equipe gastaram menos de dois meses. O roteiro ficou pronto em cerca de 15 dias e as gravações foram em três semanas de agosto do ano passado.
O elenco de “Me sinto bem com você” também tem Victor Lamoglia, Thati Lopes, Gabz, Clarissa Mueller, Thuany Parente, Bel Moreira, Ana Benevides e Richard Abelha.
Matheus Souza e Manu Gavassi em ‘Me sinto bem com você’
Divulgação/Amazon Prime
Além da filmografia mais autoral, da qual faz parte “Ana e Vitória” (2018), Matheus Souza foi roteirista na TV (“Amor & Sexo”, “Onde está meu coração”) e no cinema (“Confissões de adolescente”).
A estreia “Apenas o fim” (2008) custou R$ 8 mil e ganhou como Melhor Filme no Festival do Rio e Melhor longa brasileiro na Mostra de São Paulo, segundo o público dos eventos.
A comédia romântica acompanhava dois namorados discutindo a relação durante uma caminhada pela Puc-Rio, onde Matheus estudou cinema e começou a carreira, aos 18 anos.
“‘Apenas o fim’ é sobre pessoas falando, esse é sobre pessoas escutando. Hoje, eu não quero influenciar, quero ser influenciado”, resume.
Matheus Souza é diretor, roteirista e ator de ‘Me sinto bem com você’
Divulgação
G1 – Como surgiu a ideia para ‘Me sinto bem com você’?
Matheus Souza – Uma hora em 2020, tudo parou e o audiovisual paralisou. A escrita é o lugar para onde fujo quando tudo dá errado e tudo dá certo. Foi muito parecido com o processo de “Apenas o fim”. Assim como ele, foi um roteiro que surgiu do nada, como desabafo. Eu fiquei escrevendo diálogos, cenas, sem saber para onde iriam, talvez para filmes futuros. Não sabia quando ia acontecer.
G1 – Foi no começo da pandemia, março?
Matheus Souza – Não, isso foi em julho, agosto. No primeiro semestre, eu aproveitei para terminar roteiros que estavam encaminhados… Aí eu comecei a mandar para amigos meu, amarrei e transformei em um filme de fato. Eu sou uma pessoa meio sozinha, mas tento tornar o processo mais colaborativo. Mandei pra Manu (Gavassi), Vitor (Lamoglia), Thati (Lopes)… amigos de equipe. Conheci o pessoal da Delicatessen, a produtora. Era um filme fácil de produzir. Em menos de dois meses, já estava com o filme rodado.
Thati Lopes e Victor Lamoglia em cena de ‘Me sinto bem com você’
Divulgação/Amazon Prime
G1 – Eu já ouvi gente dizendo que, nesse momento, o que as pessoas menos querem ver é gente sofrendo com os problemas da pandemia. Querem coisas escapistas, gente se abraçando, sem máscara e tal. Parece que você não concorda. Por quê?
Matheus Souza – Eu não tenho uma resposta para isso. Não sei o quanto acredito na instituição “as pessoas”. A reação que eu estou vendo nas redes sociais, ao trailer, é de uma grande empolgação. Foi melhor a reação do que eu esperava. No meio da impotência que a gente encara essa situação, o máximo que a gente pode fazer é desabafar e se expressar. Cada um se expressa de uma forma, nos stories.
Eu não escrevi nem achando que iria virar um filme. Foi um jeito que achei de manter bem com minha saúde mental. É meio isso. Eu espero que o resultado tenha o efeito do acolhimento. Foi doido, porque todo mundo da equipe via as cenas e falava “isso é muito eu”. Para mim, é um filme que é menos sobre a parte superficial da pandemia, não é sobre Zoom, não é sobre álcool, é sobre o que a gente está sentindo por dentro. É uma obra sincera, eu quero que seja como um abraço, como um diálogo.
G1 – O filme traduz bem a melancolia do isolamento, do mundo de telas. Era a sua ideia?
Matheus Souza – Quero sempre tentar fazer filmes que estouram bolhas. Esse filme, eu tento fazer isso com ele. O Richard (Abelha), eu amo ele de paixão, e ele é influente nas redes sociais, tinha um público completamente diferente do da Manu. Eu acho que isso é muito rico do filme. A resposta de um público da Manu e do Richard são diferentes.
O teor dos núcleos é diferente. O filme bate de forma diferente de acordo com quem está assistindo. As pessoas se identificam mais com Tathi, eu, Manu. Amigos jovens têm outra visão: o resultado é de muita risada e de achar fofo, vendo outros núcleos que dialogam com eles.
“Tem a reação de amigos mais velhos me mandando selfie com olho cheio de d’água e amigos mais jovens rindo, falando que o Richard é um moleque muito engraçado. O filme bate de diferentes formas.”
A gente está vivendo o período mais melancólico da nossa geração. Mas não acho que a gente tenha que lutar contra a melancolia.
Manu Gavassi em ‘Me sinto bem com você
Divulgação/Amazon Prime
G1 – O que você acha que todos os seus filmes têm em comum?
Matheus Souza – Eu não vejo os meus outros filmes há muito tempo, porque é um sofrimento. É difícil rever sem criticar. Na verdade, eu tento me renovar, mas tem um diálogo com “Apenas o fim”. É uma sequência espiritual. A intenção é sempre a mesma, de ser o mais sincero possível, falar de sentimentos, causar Identificação. Eu não gosto dos meus filmes, hoje em dia.
G1 – Por quê?
Matheus Souza – Ah, é complicado. É difícil escrever sem se odiar. Eu tenho carinho, porque muitas pessoas se identificaram com eles, me mandaram mensagens… “Apenas o fim” é sobre pessoas falando, esse é sobre pessoas escutando.
Eu tinha 18 anos, então isso vem de uma evolução minha como pessoa. Hoje, eu não quero influenciar, eu quero ser influenciado. Quero aprender e acho que o individualismo é um dos grandes vilões da nossas sociedade. Quanto mais ouvir o outro, melhor. “Ana e Vitória” foi uma virada de chave sobre escutar e colaborar. Eu comecei muito novo, fiquei perdido.
G1 – Como foi trabalhar tão diretamente com a Manu Gavassi?
Matheus Souza – Eu admiro muito a Manu, o tipo de ator que gosto mais de dirigir é o ator autor. No primeiro, tinha Gregório (Duvivier). Depois, Clarice (Falcão), Ana (Caetano), o próprio Richard (Abelha)… Você conhece?
G1 – Não muito.
Matheus Souza – Ele vai ser o maior nome da comédia no Brasil daqui a pouco. São pessoas criativas com apreço por contar bem histórias. São também pessoas com quem acabo tendo uma sintonia, virando amigos.
“Minha relação com Manu é uma relação de amiga. A gente ficou próximo quando li o primeiro livro dela. Ela tem um estilo de escrita que me faz melbrar a Greta Gerwig (‘Ladybird’) e Mindy Kaling (‘The Office’).”
Manu Gavassi em ‘Me sinto bem com você’
Divulgação/Amazon Prime
Eu terminei de ler e falei: ‘você tem que escrever mais’. A gente tenta trabalhar juntos tem um tempo e finalmente aconteceu. Ela, a Amanda e a Gabz me ajudaram a ler e a revisar o roteiro. Era importante que soasse real, que elas se identificassem também.
G1 – Como você se divide entre esses projetos mais autorais e os outros, para a TV e para outros diretores?
Matheus Souza – Eu estou sempre escrevendo, é minha fuga, porque eu não sou uma criatura muito sociável. Se eu não estou escrevendo, eu começo a ficar mal. Esse é meu lance. A parte glamourosa, eu nunca vivi. Não sou de festa, não sou de multidão. Escrever me mantém seguindo em frente.
Eu vou pegando tudo, gosto muito de colaborar, acho importante. Minha carreira começou do nada e fui aprendendo, tentando errar menos. Eu fui aprendendo no susto e fazendo. Esses foram os primeiros dois filmes que eu não precisei cuidar de produção.
G1 – Falando do outro filme, o que você pode me dizer sobre ele?
Matheus Souza – Ele se chama “A última festa”, é da Globo Filmes. A gente filmou no finzinho de 2019. É meu primeiro filme com produção orçamento “normal”. É sobre uma festa de formatura do Ensino Médio. Tem o Christian Malheiros, de “Sintonia”, Marina Moschen, Giulia Gayoso… Está quase pronto.
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