‘Me dediquei de corpo e alma. É um orgulho vê-lo formado na faculdade’, diz professora de jovem com síndrome de Down


Samuel Ribeiro concluiu a graduação em pedagogia em uma faculdade privada de São Paulo. Neste Dia dos Professores, conheça histórias de docentes que mudaram a vida de alunos com deficiência. Dia do Professor: conheça histórias de quem mudou a vida de alunos com deficiência
Em 2006, a docente Sueli Rangel descobriu que daria aula a seu primeiro aluno com deficiência: o pequeno Samuel Ribeiro, que tem síndrome de Down. “Bateu aquela ansiedade de como lidar com o novo, mas me dediquei de corpo e alma”, conta.
Pedindo licença pelo clichê, mas é preciso dizer que esse encontro mudou a vida de ambos. Veja só como não é exagero.
Quinze anos se passaram, e os dois agora merecem os “parabéns” pelo Dia dos Professores nesta sexta-feira (15) – eles viraram colegas de profissão.
Samuel concluiu a graduação em pedagogia em uma faculdade privada de São Paulo. E Sueli, que, antes dele, não tinha nenhuma experiência relacionada a necessidades educativas especiais, foi estudar psicopedagogia e atualmente é orientadora educacional do programa de inclusão de um colégio particular.
Samuel tem síndrome de Down e é formado em pedagogia
Arquivo pessoal
Abaixo, conheça mais detalhes da parceria entre Samuel e Sueli, e confira outras histórias de professores que, de alguma forma, marcaram a trajetória de crianças e jovens com deficiência.
‘Que honra é ver que ele virou meu colega de profissão’
“O Samuel fez com que eu desenvolvesse um outro olhar para o ensino. Tive um ano espetacular ao dar aula para ele, com desafios enormes”, diz.
“Ele estava saindo da educação infantil, que tinha muito mais tempo para brincadeira, e entrando no ensino fundamental, com mais horas na sala de aula, sentado, escrevendo e lendo.”
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Com o apoio da família do aluno, Sueli passou a se reunir com todos os profissionais de saúde que atendiam a criança: psicólogo, fisioterapeuta e fonoaudiólogo.
Samuel Ribeiro, em foto de quando era bebê
Arquivo pessoal
“Isso me ajudou muito a desenvolver materiais especiais e a entender quais as adaptações necessárias para ele”, diz. “Fui atrás depois de uma especialização em psicopedagogia e fiz meu trabalho de conclusão de curso sobre capacitação de professores na inclusão.”
Samuel também se orgulha do seu TCC do curso de pedagogia, sobre metodologia ativas de aprendizagem.
“Que honra é saber que ele virou meu colega de profissão. Até hoje, nós nos falamos. Não existe um aniversário meu sem ligação do Samuel”, conta Sueli.
O jovem deixa um recado para a professora. “Você facilitou minha aprendizagem. Que você continue assim com outros alunos, com todos os tipos de pessoa. Sua presença na minha trajetória sempre será marcante.”
‘Ele não sabia nem pegar no lápis. Depois da professora Noadias, aprendeu até a escrever seu nominho’
Noadias Novaes dá aula a crianças no sertão do Ceará
Arquivo pessoal
Quando tinha 13 anos, Evair Monteiro não conseguia ficar parado na sala de aula, chorava sem motivo aparente, não aprendia a escrever e já havia sido reprovado – os professores não sabiam mais como agir.
Até que ele conheceu Noadias Novaes, docente que havia acabado de assumir a sala de recursos multifuncionais de uma escola pública no sertão do Ceará. Observando o quadro, ela conversou com a família do aluno e, junto com a mãe dele, levou-o ao médico.
“Foi assim que finalmente o Evair foi diagnosticado com deficiência intelectual. A partir de então, começamos um trabalho de sensibilização com professores, para focarmos no desenvolvimento e na aprendizagem dele.”
Já se passaram 4 anos desde essa “descoberta”. Durante todo esse período, Noadias atendeu Evair no contraturno escolar, para auxiliá-lo nas adaptações à escola comum.
“Antes de conhecer a professora, meu filho não se envolvia com o colégio; não conseguia nem pegar no lápis. Depois dela, ele aprendeu até a escrever seu nominho, a contar de 1 a 20, a separar sílabas”, conta, orgulhosa, Rita Monteiro, mãe do aluno.
“Ele faz os deveres direitinho. Agradeço a Deus todo dia por ter a Noadias na nossa vida.”
Evair foi diagnosticado com deficiência intelectual aos 13 anos
Arquivo pessoal
Até mesmo na pandemia, a professora continuou seu trabalho com Evair. Como a família dele não tem acesso à internet, a docente passou a ir, pedalando ou a pé, até a casa dos alunos com deficiência, para dar aula a eles na calçada, ao ar livre.
“Eu não queria que ele tivesse um atraso no desenvolvimento nesse período de escolas fechadas. É muito gratificante ver o estado do Evair no início e perceber como ele está agora. Fico muito, muito orgulhosa”, afirma Noadias.
Rita chega a se emocionar ao falar do assunto.
“Eu sei como a professora se sacrifica para ensinar esse tanto de aluno na pandemia, indo de um lugar para o outro. Mas quando ela chega, meu filho fica tão alegre”.
‘Meu filho parece outra criança, graças ao professor Aguinaldo’
O professor Aguinaldo ajudou Evair, que tem autismo, a desenvolver a fala
Arquivo pessoal
Quando alguém pergunta a Kessia França quem foi o professor mais importante da vida de seu filho, Kauã, ela nem hesita: Aguinaldo Martins.
É para Aguinaldo que, todo dia, ela manda vídeos das conquistas do menino, de 13 anos, que tem transtorno do espectro autista (TEA).
“Meu filho parou de falar quando fez 5 anos. Eu nem tinha mais esperança. Mas o professor começou a trabalhar isso com ele em sala de aula, focado em desenvolver a oralidade do Kauã. Ele está evoluindo muito, já fala ‘uva, ‘bola’”, conta Kessia.
Já faz 3 anos que essa parceria acontece. Aguinaldo nem é mais o docente responsável pela turma do menino, mas continua sugerindo atividades e dando orientações à família.
“Na pandemia, eu fiquei ‘meu deus, o que vou fazer?’. Aí, mandava mensagem para o professor Aguinaldo, e ele ajudava e me dava ideias”, conta Kessia.
“Uma vez, ele falou para eu fazer arroz e pedir o auxílio do Kauã, para ele ir participando das dinâmicas e das tarefas da família. Meu filho está se sentindo mais pertencente ao grupo. Parece outra criança”, conta a mãe.
Aguinaldo e Evair leem livro em escola municipal de São Paulo
Arquivo pessoal
Aguinaldo ouve essas declarações e diz que “se enche de orgulho”.
“É muito bom saber que meu trabalho o ajuda até hoje. Eu me lembro de quando sentei com a classe e expliquei que o Kauã ficava no cantinho dele por causa do autismo. As crianças entenderam e começaram a chamá-lo para brincar, para jogar bola”, conta. “Eu mandava vídeos para a Kessia, porque queria que ela visse todos esses avanços.”
Antes e depois de Kauã, outras crianças com deficiência aprenderam com o professor Aguinaldo.
“Meu sonho é ter dinheiro para fazer uma pós-graduação em autismo. Mas, até lá, vou correndo atrás de conhecimento. Porque é o conhecimento que transforma o mundo”.
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