MC João abre escritório 5 anos após ‘Baile de favela’ e quer ensinar MCs a fazer contratos


Ele diz que não ganhou nada por clipe que foi um marco no funk de SP, mas não ‘esbanjou’ o que conseguiu na carreira. Agora, vira seu próprio empresário e incentiva MCs a se valorizarem. MC João, de ‘Baile de favela’, que agora lança a Baile de Favela Records
Divulgação
Cinco anos após “Baile de favela”, um marco na expansão do funk de São Paulo, o dono da música se lança em um movimento inédito no mercado paulsita. O Baile de Favela Records é o primeiro escritório aberto por um MC já famoso em uma cena dominada por duas grandes empresas: Kondzilla e GR6.
Veja o que aconteceu na vida do MC João, 29 anos, entre “Baile de Favela”, lançada em novembro de 2015, e a Baile de Favela Records, aberta em março de 2021:
João diz que a música mudou sua vida e deu casa para ele e sua mãe.
Mas ele conta que assinou contratos ruins e que, por exemplo, não ficou com nada da renda do clipe no YouTube, visto mais de 220 milhões de vezes.
Mesmo sem outro hit tão grande, ele teve diversos outros sucessos no funk depois disso.
João foi estudar direitos autorais e percebeu que os MCs muitas vezes fazem acordos que parecem tentadores para quem não tem nada, mas depois do sucesso viram uma fria.
Com o dinheiro que conseguiu ganhar, ele diz que “não esbanjou, não saiu comprando Ferrari” como outros.
Ele saiu da GR6 e afirma que não houve briga, apenas o sonho de ter seu próprio selo.
Agora lança sua empresa, diz que quer incentivar outros MCs a ficarem mais atentos à renda que eles geram.
O primeiro lançamento do selo é o EP do MC João “Negócios são negócios”, no dia 2 de abril.
“Nós MCs corremos muito atrás das coisas, fazemos a parada virar. Mas, por outro lado, muitos de nós não fazemos bons negócios. Não basta ser um bom MC cantando”, defende João.
Na maioria das vezes os cantores nem sabem o que estão assinando, conta João. “Eu recebi pela música, mas em partes eu não fiz um bom negócio. Pelas visualizações no YouTube, por exemplo, eu não recebi”, lembra João.
Ele foi atrás de estudar sobre direitos autorais e ganhou conhecimento para abrir a nova empresa, que tem também o MC Leléo e Binho DJ na equipe. “Agora entendo bem mais. ”
“Desde o começo eu estudaria mais sobre fonograma, direitos autorais, certinho. Por exemplo: eu não assinaria uma cessão de direito de uma música. E eu não sabia disso, tá ligado? Era ingenuidade da minha parte, eu não sabia da parada. É isso que acontece muitas vezes”, ele descreve.
Mas não basta só um tutorial de direitos e negócios para abrir uma agência. Tem que ter uma coisa: dinheiro. O cantor de “Baile de favela” estava prevenido.
“Eu não esbanjei igual todo mundo, não saí comprando uma Ferrari, não fui morar numa mansão. Eu me resguardei, porque eu sabia que uma hora ia chegar esse momento. É um sonho antigo, eu sei que esse esforço vai dar um resultado”, diz o cantor, animado.
MC João, voz de ‘Baile de favela’, e R7, produtor da faixa, na casa da empresa GR6 em 2015
Rodrigo Ortega / G1
Em sucessos mais recentes como “Pra desestressar / Primeiramente bom dia” e “Falso amigo”, ele já fala como veterano, dando conselhos aos mais jovens. Antes da geração de MC João, carreiras duradouras no funk não eram muito comuns.
“Muitas carreiras tinham um prazo de vida muito curto. Isso está parando de acontecer e a gente está começando a se firmar mais no mercado”, diz o cantor.
Ele não culpa a GR6, sua antiga empresa, nem a Kondilla, que lançou o clipe. João acha que todo o mercado do funk está amadurecendo e se valorizando: “Pela expressão de números de ‘Baile de favela’, se isso acontece em outro ramo, no sertanejo, a pessoa está milionária, comprando fazenda”.
“O mercado em si ainda não ganha quanto deveria ganhar. Mas, neste cenário, os MCs não sabem negociar. Por exemplo, um moleque duro e o empresário fala: ‘Te dou R$ 5 mil’. Se ele estoura uma música, ela pode gerar R$ 100 mil, e ele ganhando cinco. Se no primeiro momento foi um bom negócio, a longo prazo foi ruim. E assinou, já era”, ele explica.
Baile da mão na massa
O MC afirma que o trabalho dos MCs de funk no mercado costuma ir além de cantar: “O artista que corre atrás da música, faz roteiro, tem que pressionar o DJ para entregar. Tem artista que sozinho elabora projeto”, descreve João.
“‘Baile de favela’ mudou minha vida, mas o que eu entendo hoje em dia é que a gente só tem que ser um pouquinho mais malicioso. A gente faz o que ama, mas não pode esquecer que aquilo é um negócio, Tem que agir como se fosse o trabalho das nossas vidas mesmo”, reflete.
MC João comenta ‘Baile de favela’ em 2015
Sem mágoa
João não deixou de ser amigo da GR6. Mas é aquela coisa: amigos, amigos; negócios à parte. “Saí de boa. Eu sou muito grato por muito que o meu antigo escritório fez por mim, mas acho que eles também são gratos pelo que eu fiz por eles”, diz.
A grande concorrente da GR6 é a Kondzilla, que fez o clipe de “Baile de favela”. Na época ainda não havia uma competição tão grande entre as empresas – a primeira ficava com o gerenciamento de shows, e a segunda com a produção de clipes. Hoje, as duas gigantes lutam nos dois campos.
A GR6 veio de empresários que migraram do pagode paulista. Konrad Dantas até já foi MC de rap, mas nada conhecido como cantor. Uma migração assim de MC consagrado para tentar se firmar como empresário também é uma novidade.
“O Kondzilla é um gênio, eu respeito muito o modo de trabalho dele. E também da GR6. Mas é um momento em que eu amadureci. Acho que o funk se uniu para ganhar força e agora têm que vir outras tendências, outros empresários. Concorrência para amadurecer o mercado”, ele diz.
“Eu acho que vai ser tendência. É um novo ciclo. MCs de hoje serão empresários de amanhã”, aposta o cantor, compositor, e agora empreendedor.
MC João, voz de ‘Baile de favela’, na Av. Conceição, na Zona Norte, onde fica a casa da produtora onde gravou a música
Rodrigo Ortega / G1
Trajetória do João
O pai de João Israel Simeão morreu quando ele tinha 17 anos. Ele era pedreiro e sustentava a família. O jovem ficou sozinho para cuidar da mãe, com problemas de saúde, e duas irmãs. O funk era “válvula de escape” da rotina difícil.
“Comecei a sustentar a minha família com R$ 620 por mês. Imagina o que você faz com esse dinheiro…” Da Jova Rural [Zona Norte de SP, onde fica hoje o escritório dele], ele saia todo dia para trabalhar de office boy. Passou pela Ericsson e foi ajudante no escritório de advocacia Pinheiro e Associados, na avenida Paulista. Quando anunciou que largaria o trabalho de 9h às 17h para se dedicar só ao funk, ouviu dos antigos chefes: “Você é louco”. Leia o perfil do cantor feito pelo G1 em 2015, quando ele estourou “Baile de Favela”.
Frio na barriga
A aventura é diferente de quando ele saiu do zero para se lançar como cantor. “Mesmo nessa pandemia, não está faltando nada em casa. Minha mãe tem a casinha dela, eu tenho minha casinha, ninguém mais passa vontade. E me deu a possibilidade de correr atrás”, ele descreve.
“Tem que ter coragem de sair de um escritório que é uma potência como é a GR6. Tem que estar bem estruturado, é uma escolha difícil. É um dos melhores escritórios, mas eu tenho vontade de seguir meus sonhos”, diz João.
“Estou me sentindo como em 2015. Dá um frio na barriga, mas eu sinto que é a melhor decisão da minha vida. Não é mais como primeira vez em que eu estava correndo atrás de um sonho incerto”.