MC Bin Laden diz que foi ‘censurado’ por produtores e quer voltar ao ‘funk de quebrada’


Cantor fala sobre pressão com aparência, dificuldade de ajudar duas famílias na pandemia e de novo feat com astros do K-pop. Aos 26 anos, MC Bin Laden é tranquilão. Ele não teve muitos trabalhos durante a pandemia e as lives não foram o espetáculo rentável dos sertanejos, “era mais uma social, de um dia”. Acostumado a fazer de 20 a 15 shows por mês, Jefferson Cristian dos Santos Lima viu a situação apertar.
“Meu problema é que eu moro sozinho e tenho duas famílias, uma família que é de sangue e uma que me adotou. Não é que eu banco, mas ajudo no que posso. Mas eu também tinha funcionários, então um ano sem shows é um arrombo muito grande”.
Mas ele não se abalou por dois motivos: saúde mental controlada e fé muito forte.
“Eu vim do lixo, passava fome, a gente sabe dar valor ao pouco que tem, ao pouco que tem, ao muito que tem. Eu sou muito tranquilo em relação à saúde mental, tenho um controle emocional muito grande.”
“Acredito que por ser da igreja, ter muita fé em deus, ler muito a bíblia, acho que isso me ajuda muito, então eu fiquei tranquilão, cuidando da saúde e torcendo para isso tudo passar logo”, conta.
Ele aproveitou a quarentena para testar como seria lançar as músicas que ele queria fazer, sem pensar em bombar.
“Fizemos alguns clipes, não eram músicas para trabalho porque não tem como lançar música pra trabalho no meio da pandemia. Acredito que a maioria dos artistas projeta música pensando em carreira, show, tudo o mais. E isso tudo está parado. Eu lancei pra ter constância de trabalho, pra ter giro.”
A partir de agora, vem a parte estratégica: voltar para o funk “do Brasilzão mesmo, de quebrada”. Ele faz isso para voltar a ser como era quando “Tá tranquilo, tá favorável” estourou, em 2015
Nos últimos anos, lançou músicas com vários artistas internacionais: os americanos Diplo e Skrillex, o espanhol C. Tangana, o francês Sadek, o duo colombiano Salt Cathedral, o grego Fy. Causou comoção no Rock in Roma, na Itália. Mas, tudo tem um preço: por conta dessa carreira lá fora, se afastou das origens e perdeu o timing do funk nacional.
Mc Bin Laden faz sucesso na Itália
“Quero voltar a ser o Bin Laden original que todo mundo conheceu, com música agressiva, descontraída, de bordãozinho e de refrão. Agora, tô fazendo uma parada um pouco mais de mensagem, uma música mais tranquila.”
O funkeiro está tomando as rédeas da carreira de novo. Ele diz que, por muitos anos, se sentiu podado pelos produtores. “Eu sou mente pensante, já deixei meu trabalho na mão de outras pessoas e depois disso só desandou. Então prefiro voltar no que era antes e eu mesmo pensar no meu trampo. Não deixar outras pessoas atrapalharem meu processo de criação”, ele diz.
Ele não revela os nomes dos produtores, mas conta o que aconteceu. Bin Laden estava com lançamentos populares: “Tá tranquilo, tá favorável”, “Aham, pode pá” e “Minha ex tá bem, só não tá melhor que eu”. Depois disso, pediram para que ele desse uma maneirada no estilo.
“Dali pra frente, eu meio que saí da linha do Bin Laden que todo mundo conhece pra ser um outro Bin Laden e não é essa vibe, tá ligado? As pessoas dão muitas opiniões, você segue a opinião das pessoas pra agradá-las e acaba atrapalhando você de ser o que você é, pra ser o que elas são.”
O cantor também enfrenta uma “pressão estética”. Ele chegou a perder 40kg no começo do ano passado. Na quarentena ganhou um pouquinho a mais – e isso foi suficiente para receber algumas críticas nas redes sociais.
“Eu não me sinto pressionado por vaidade, me sinto pressionado por saúde. E as pessoas me cobram pela vaidade, pro shape, ter barriga tanquinho e tudo o mais. Mas acho que a questão é ter saúde. As pessoas às vezes falam ‘poxa, você engordou’, só que é um processo”, desabafa.
MC Bin Laden faz dancinha em participação especial no show do Jack Ü no Lollapalooza 2016
Flavio Moraes/G1
Nova fase
Bin Laden estava se sentindo escanteado na antiga produtora. “Eu estou dentro de uma produtora que tem bastante artista, então é compilado porque é cada um por si. Mas eu mesmo tô fazendo os corres, solto os trampos lá, mas eu agora voltei a trabalhar meu canal novamente, tinha parado porque tive problema com algumas pessoas que trabalharam nele.”
Aos poucos, foi reativando com canal do YouTube para lançar seus conteúdos: um videozinho de jogo aqui, um react de K-pop ali e ele já tem mais de 1 milhão de seguidores. Graças a essa nova fase “blogueirinho”, ele foi descoberto por artistas de K-pop e convidado para uma parceria.
“O Ugly Duck [rapper sul-coreano] que me mandou o beat. Ele convidou o Jay Park e para fazer parte do feat, a gente está conversando. Eu vou gravar agora e mandar voz para ele essa semana. para eles já começarem a mexer na música, mexer no som.”
Quem é MC Bin Laden?
Para ele, descobrir o pop coreano foi um deslumbramento. Ele fala empolgado dos clipes: as cores, a técnica, a dança e a liberdade. “No Brasil, a gente é muito preconceituoso, esse lance cultural é muito quadrado, uma bolha.
“Se a gente analisar, o K-pop é um dos melhores trabalhos que tem hoje no mundo. Nunca, no Brasil, a gente fez um clipe igual os caras. Cada um na música está cantando seu estilo, sua própria letra. Ele não precisa cantar a estrofe do outro cara pra entrar na música. Ele canta a parada dele, ele é o que é ele. Esse lance mexeu muito comigo.”
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