Mateus Aleluia se equilibra entre céu e terra no álbum ‘Olorum’ sem perder elo com a ancestralidade


Disco tempera textura afro-barroca da obra do artista com sonoridade mais contemporânea sem atenuar a carga espiritual do cantor projetado nos anos 1970 no grupo Tincoãs. Capa do álbum ‘Olorum’, de Mateus Aleluia
Ilustração de Jorge dos Anjos
Resenha de álbum
Título: Olorum
Artista: Mateus Aleluia
Gravadora: Selo Sesc
Cotação: * * * *
♪ Oriundo da interiorana cidade de Cachoeira (BA), reduto da ancestralidade africana em que emergiu o grupo Os Tincoãs, Mateus Aleluia reacende o fogo sagrado das divindades de matriz afro-brasileira no terceiro álbum solo do artista, Olorum, disponível a partir de quinta-feira, 24 de julho, na plataforma Sesc digital, com 12 músicas assinadas somente pelo cantor, compositor e músico baiano.
A centelha divina brilha no canto rústico e grave de Aleluia quando o artista de quase 77 anos – nascido em setembro de 1943 – roga ao orixá Olorum, na música que abre e batiza o disco produzido por Ronaldo Evangelista, que saia do reino e venha ver “o povo cansado de sofrer”. Olorum, na mitologia iorubá, é a entidade que rege a humanidade e os próprios orixás com poder supremo.
De início conduzida pelo toque do violão de Aleluia, a faixa-título Olorum culmina com o baticum dos atabaques evocativos da África, matriz da música do artista. Esse batuque sustenta a louvação a Xangô – deus do fogo e da justiça – feita em Kawô Kabiyesilê, tema de arquitetura afro-barroca friccionada pelas cordas do violoncelo de Filipe Massumi.
Disco gravado em dezembro de 2018 e ao longo de 2019, Olorum soa coerente com os álbuns antecessores Cinco sentidos (2010) e Fogueira doce (2017). Integrante da segunda e mais relevante formação do grupo Os Tincoãs, Mateus Aleluia jamais se desvia do terreno afro-barroco em que assentou obra pautada por alta carga de espiritualidade e de negritude, explicitada com justificado orgulho em Filho de rei.
“Eu sou do Ilê do Malê / Minha dança é de negro / Quero ver meu pé sangrar / Quebro meu cativeiro / Com um canto que é milenar”, celebra Aleluia em Filho de rei, em sentença de liberdade reforçada pelo coro das vozes das Pastoras do Rosário.
Contudo, há clima mais fluido na ambientação de músicas como o samba Amarelou e Canta sabiá, faixa também encorpada com as vozes das Pastoras do Rosário. É como se, nessas músicas, Aleluia soasse ligeiramente “pop” e contemporâneo dentro do universo musical em que está confinado na medida em que um artista da estirpe dele possa se mostrar “pop” e contemporâneo.
Mateus Aleluia lança o terceiro álbum solo, ‘Olorum’, produzido por Ronaldo Evangelista
Vinicius Xavier / Divulgação
Amarelou e Bem-te-vi trazem o toque do piano Rhodes de João Donato sem impor a personalidade latina do músico acriano nesse reencontro simbólico, já que Donato atuou como arranjador de dois dos três referenciais álbuns lançados pelo grupo Os Tincoãs nos anos 1970 – O africanto dos Tincoãs (1975) e Os Tincoãs (1977) – em função dividida com o saxofonista carioca Oberdan Magalhães (1945 – 1984), fundador da banda Black Rio.
Com melancolia sublinhada pelo sopro do trombone de Douglas Antunes e do toque dos violoncelos de Filipe Massumi (músico fundamental na arquitetura do álbum Olorum), em faixa sedutora, Bem-te-vi é música que voa alto dentro do tema da sofrência sem cair na trivialidade recorrente em canções do gênero.
Mateus Aleluia mantém alto o nível poético ao versar sobre desamor. Antecedido pelo singles Samba-oração e Nganga Njila (faixa gravada com a voz a cantora moçambicana Lenna Bahule), o álbum Olorum propaga forças ancestrais mesmo quando confidencia vulnerabilidades humanas, assunto de Liquifez.
“O amor está no ar”, propaga Aleluia em verso de Talismã após ter admitido em Pimenta mumuíla ter inflamado a alma com o sabor ardido da paixão em gravação adornada pelos sopros inusitadamente orquestrados por Thiago França.
Ao longo do álbum Olorum, Mateus Aleluia se equilibra entre evocações celestiais – como a de Kyriê! Epa Babá…, tema adaptado do Compêndio da Música Sacra Católica – e questões terrenas sem perder o elo barroco com a espiritualidade e a ancestralidade afro-brasileira.