Mascotes: uma paixão japonesa que vai além dos Jogos Olímpicos


Miraitowa e Someity são vistos por todos os lados em Tóquio, mas enfrentam grande concorrência no imaginário coletivo no Japão, país de Hello Kitty e Pokémon. Miraitowa, o mascote oficial dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 e Someity, o mascote oficial dos Jogos Paraolímpicos, estão por todos os lugares de Tóquio
AP Photo/Kiichiro Sato
Os mascotes das Olimpíadas de 2020 se tornaram uma visão familiar nas ruas de Tóquio, a dois dias da abertura oficial do evento, mas eles enfrentam grande concorrência no imaginário coletivo no Japão, país apaixonado por esse tipo de personagem emblemático em várias facetas de seu dia a dia.
Hello Kitty e Pokémon nasceram no país, mas o fenômeno vai muito além. Mascotes com cores vivas e design divertido costumam ser usados para dar uma imagem sorridente e amigável a empresas e instituições, sejam elas fabricantes de doces ou até de uma prisão.
Uma das mais queridas é uma fada em forma de pera, chamada Funassyi, que ganhou fama há 12 anos como representante não oficial da cidade de Funabashi (perto de Tóquio), conhecida por suas frutas.
Essa criatura de gênero indefinido e fã de lendas do rock como Aerosmith e Ozzy Osbourne, aparece regularmente em programas de televisão e sua conta no Twitter tem quase 1,4 milhão de seguidores.
Funassyi, uma fada em forma de pera, ficou famosa há 12 anos como mascote não-oficial da cidade de Funabashi, perto de Tóquio
Philip Fong/AFP
No Japão, “é normal que os adultos amem mascotes”, explica Funassyi com sua voz aguda em uma entrevista à AFP, e “os japoneses têm uma tendência a personificar objetos”.
Muitos especialistas associam esse amor às tradições animistas do Japão, atribuindo alma até mesmo aos objetos inanimados.
Os mascotes podem, além disso, gerar muito dinheiro: o urso preto com bochechas vermelhas Kumamon, representante do departamento de Kumamoto (sudoeste do país) arrecadou o equivalente a 1,3 bilhão de euros, cerca de 1,5 bilhão de dólares, no ano passado ao permitir que as empresas locais utilizassem sua imagem para seus produtos.
Miraitowa e Someity
Homem usa máscara ao caminhar nesta quarta-feira (3) diante de painel em Tóquio, no Japão, com Miraitowa, o mascote dos Jogos Olímpicos transferidos para 2021
Kim Kyung-Hoon/Reuters
O primeiro mascote olímpico foi um cão da raça Dachshund chamado Waldi, projetado para os Jogos de Munique de 1972. Desde então, todas as cidades-sede criaram seu próprio personagem para simbolizar os valores olímpicos e o legado cultural dos Jogos.
O mascote embaixador dos Jogos de Tóquio-2020, com orelhas pontudas, olhos grandes de personagens de mangá e um corpo coberto de quadrados azuis, se chama Miraitowa.
Já nos Jogos Paralímpicos, que acontecem entre os dias 24 de agosto a 5 de setembro, quem vai brilhar é Someity, rosa, com olhos amendoados e orelhas pontudas.
Miraitowa e Someity são os mascotes das Olímpiadas do Japão
Tauseef Mustafa/AFP
Escola de mascotes
Como prova do amor dos japoneses por essas criaturas, Choko Ohira, de 62 anos, abriu uma escola há 17 anos para pessoas que desejam entrar na pele de um mascote.
Esses personagens “têm o poder de atrair pessoas”, diz Ohira, que “encarnou” durante anos um famoso camundongo em um programa infantil da emissora pública japonesa NHK.
Choko Ohira durante aula de atuação de mascote no Choko.Group na cidade de Tama, em Tóquio
Philip Fong/AFP
“As crianças vêm com um grande sorriso, seguram as mãos e abraçam”, acrescenta.
Ela está convencida de que, em uma sociedade japonesa às vezes rígida, os animais de estimação dão às pessoas a possibilidade de relaxar um pouco.
Seus alunos aprendem primeiro, sem o traje, os gestos dos mascotes, com movimentos amplos e exagerados, antes de vestir a fantasia de urso panda, gato ou esquilo.
“No trabalho, sou mais sociável e ativa”, diz Nobuko Fujiki, uma aluna de 61 anos.
Nobuko Fujiki (frente) e Takayuki Shimazu (parte traseira L) participaram de curso de atuação para serem mascotes no Choko.Group na cidade de Tama, em Tóquio
Philip Fong/AFP
Trabalhar como mascote não costuma ser uma vida dos sonhos: poucos fazem fortuna e as fantasias podem ser muito pesadas, desconfortáveis e sufocantes, especialmente no calor do verão japonês.
Para esta ex-funcionária de creche, a alegria de entrar na pele de um mascote compensa os inconvenientes.
As pessoas gostam de confiar nos mascotes, diz Funassyi.
“Me pedem conselhos sobre sua vida, seu trabalho… Como ser legal com um chefe que você odeia ou como fazer quando seu marido não quer fazer as tarefas domésticas”, conta ela.
Reveja momento em que os mascotes foram inaugurados em abril:
Celebração dos 100 dias para os Jogos Olímpicos tem inauguração dos mascotes